Gurias dêem uma boa olhada no rapaz aí, da foto ao lado.
Permitam-me apresentá-lo. É difícil, porque quando se trata de Neil Gaiman o meu cérebro se desmancha e nem sei bem por onde começar, tantos são os elogios que me vêm à mente. Bem, além de suas mais óbvias qualidades ele é um escritor britânico. Escreve de tudo, romances, roteiros, poemas, é um destemido da escrita. Um grande e velho amor literário meu, agora renovado, uma vez que recentemente tomei coragem de ler um de seus primeiros trabalhos, a aclamada série Sandman. Ela trata de Morpheus, o Senhor dos Sonhos, e da sua perigosa, sedutora e disfuncional família composta por Destino, Desejo, Destruição, Desespero, Delírio e Morte. Não é exatamente o que chamaríamos de leitura light, mas é simplesmente arrebatadora.
Lembro que muitas vezes folheei as revistas de Sandman (sim, trata-se de uma HQ para adultos) na banca e dei uma espiadinha em seu conteúdo, aquela lidinha rápida que fazemos para decidir se vamos comprar uma obra, ou não. Bom, eu adorava o que via e o que lia! E rapidamente fechava a revista e a colocava de volta na estante. Tinha medo. E, naturalmente, um desejo imenso de continuar aquela leitura, um pouco assustadora. O racional – reduto para onde fugimos do medo – ganhava a batalha, sempre me convencia de que havia outra coisa que eu precisava ler para propósitos acadêmicos ou de trabalho e lá ia eu, com a cara de um gato que quase comeu o rato, mas ainda não.
Folheando as luxuosas páginas do meu volume do The Absolute Sandman, que acabou de chegar, achei curioso perceber que agimos de forma análoga, entre o desejo e o medo, com certos homens. Sedutores, alguns possivelmente disfuncionais, perigosos sem dúvida, há homens que não nos saem do pensamento. Em algum momento da vida todas nos deparamos com, pelo menos, um desses elementos. Damos uma espiadinha no conteúdo, na embalagem e sabemos que ali está um ser que vai chacoalhar nossas existências. Mas, por isso mesmo, temos medo. O perigo reside nas mudanças que enfrentaremos, na experiência do arrebatamento que encurta a respiração, não permitindo que o cérebro controle direito as coisas. Como reagir?
Há as mulheres que, embora temam, querem ardentemente uma experiência nova que acabe com o marasmo, algo que mude a rotina de suas existências. Seu objetivo é esse mesmo, saltar para o novo. Vence o desejo. Há outras nas quais vence o temor. Talvez estejam confortáveis e felizes em suas vidas como elas estão, ou talvez simplesmente ainda não estejam em condições emocionais de realizar mudanças profundas. E o problema de saltar para o novo é que, em se tratando de relações amorosas, não se pode planejá-las. Entregar-se, fragilizar-se, faz parte da vivência integral do processo. Assim, a cada novo amor, corre-se um novo perigo.
Com o passar da idade, contudo, amadurecemos alguns mecanismos de defesa que nos ajudam a ampliar a realização de nossos desejos, sem corrermos o risco de saltar para dentro da toca do coelho e descobrirmos, bem ao final da descida, que não há ninguém lá para amparar nossas quedas. Aprendemos, por exemplo, a observar se há redes de amparo à queda, não apenas no mundo exterior, mas dentro de nós mesmas. Estaremos em condições de afagar e cuidar de nossos possíveis machucados, caso saltemos? Qual é altura do salto que suportamos? Quão funda é a toca do coelho de Alice de cada uma de nós? Nossa coragem nos dirá.
Recentemente o adorável e tímido Neil Gaiman noivou com uma cantora americana, Amanda Palmer, notória por seu deboche e iconoclastia, que podem ser conferidos nos vídeos do espetáculo de cabaret-punk que apresentava com a banda Dresden Dolls, em Nova York, disponíveis na internet. Cabaret-punk?! Um salto e tanto. E ele está apaixonadíssimo. Acho que vamos todos, homens e mulheres, munidos de um bocado de coragem, pondo um pé na corda bamba e com o olhar buscando o equilíbrio no horizonte, realizando as mudanças que queremos, saltando da altura que podemos. O importante é o movimento. Pois até para a experiência de ler um livro a vida às vezes nos pede um pouquinho de coragem. E atendemos, quando estamos prontas.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
domingo, 25 de abril de 2010
domingo, 18 de abril de 2010
Me trata direito
Há alguns meses presenciei uma cena na saída de um restaurante em Passo Fundo, cidade onde moro, que nunca vou esquecer. Eu ia descendo as escadas em meio a muitas outras pessoas, que subiam e desciam. Era hora de movimento. Dentre os casais que subiam houve um em que a metade feminina parou, olhou na direção do namorado, marido, ou o que fosse, que já se encontrava alguns degraus à frente e falou, em alto e bom tom: “Fulano, ou você me espera e me trata direito, ou eu não vou!”. Não tenho a menor idéia do desfecho da cena. Não fiquei por ali, continuei andando no ritmo em que estava, mas adorei. A moça, uma jovem bonita, virou minha heroína pessoal.
Em que pese que não sei nada sobre o casal e provavelmente nunca os reconheceria se os visse novamente, a atitude dela me marcou porque foi de encontro a um paradigma muito comum entre nós, mulheres, que é o de não nos colocarmos em confronto com nossos homens, em público. Lançamos sobre eles o mesmo olhar que lançamos aos filhos, que parece dizer “vamos ter uma conversa em casa” e deixamos passar a descortesia, ou pior.
Claro que há os casais em que a mulher arma um barraco caso o sujeito olhe para alguma pessoa para a qual ele não tem autorização prévia de olhar – cena essa mais comum em bares – e também aqueles em que a reunião de amigos para, digamos, um jantar, se torna ocasião propícia para que a esposa apresente a todos um levantamento minucioso (e mui rancoroso) dos defeitos e das faltas cometidas pela sua cara metade. Os presentes nessas ocasiões ficam tão constrangidos que não sabem o que fazer e muito menos o que dizer e lá se vai um belo jantar à ruína, por falta de percepção do que é público acerca de um casal e do que deve ser privado.
Não estou, portanto, tomando o partido do “barraco”. Mas não me pareceu que fosse esse o objetivo da moça, aproveitar o público para começar um bate-boca. Ou, pelo menos, não foi assim que eu li a cena (interpretações são sempre muito pessoais, como sabemos). O que ela fez, eu acho, foi dar um ultimato ao rapaz naquele momento preciso, sem postergar a questão para uma possível infindável discussão em casa. Sua escolha econômica de palavras me leva a pensar assim. Ela não disse, “Fulano, precisamos conversar sobre nossa relação” nem deu chilique olhando para os lados e ameaçando chorar. Ela disse simplesmente “me espera”, o que remete ao estar junto, ser companhia e, mais importante, exigiu: “me trata direito”. Bom, aí poderíamos escrever um tratado sobre o que seria tratar uma mulher “direito” e haveria opiniões suficientes para editar volumes sobre o assunto. Mas, em se levando em conta a óbvia questão da dignidade inerente a qualquer ser humano e da amorosidade inerente às relações de um casal, o que é fundamental no caso desse “tratar direito” é o que importa para aquele casal especificamente. E importa, portanto, o fato de que se algo se tornou intolerável para aquela moça, ela falou, não postergou, não engoliu, não fingiu que não estava sentindo. E ela tinha uma saída bem à mão, para por fim ao seu desconforto: não ir juntamente com seu par. Repito, ela não se queixou dele e de como era tratada para os demais ouvirem, ela apenas determinou uma condição para sua permanência e, coisa que parece simples mas é mais complexa do que aparenta, apresentou sua retirada imediata de campo.
Admirei-a sim, pela postura, pela clareza, pela coragem, pela independência, ainda tão jovem. Na minha geração levamos mais anos para pôr em prática essas qualidades. Quero criar minha filha dessa forma, para que possa dizer de seu desejo sem dificuldades, de maneira a convidar para caminhar consigo apenas aqueles homens que não a temam, nem a manipulem, diferentemente dos covardes que esperam, pois que necessitam, que suas mulheres se calem em público para que possam fazer piadinhas infames que parecem grandes feitos aos olhos de seus amigos. Alguém aí conhece algum?
Fica então lançada a campanha, que bem pode ser para ambos os sexos: me trata direito, ou eu não vou!
Em que pese que não sei nada sobre o casal e provavelmente nunca os reconheceria se os visse novamente, a atitude dela me marcou porque foi de encontro a um paradigma muito comum entre nós, mulheres, que é o de não nos colocarmos em confronto com nossos homens, em público. Lançamos sobre eles o mesmo olhar que lançamos aos filhos, que parece dizer “vamos ter uma conversa em casa” e deixamos passar a descortesia, ou pior.
Claro que há os casais em que a mulher arma um barraco caso o sujeito olhe para alguma pessoa para a qual ele não tem autorização prévia de olhar – cena essa mais comum em bares – e também aqueles em que a reunião de amigos para, digamos, um jantar, se torna ocasião propícia para que a esposa apresente a todos um levantamento minucioso (e mui rancoroso) dos defeitos e das faltas cometidas pela sua cara metade. Os presentes nessas ocasiões ficam tão constrangidos que não sabem o que fazer e muito menos o que dizer e lá se vai um belo jantar à ruína, por falta de percepção do que é público acerca de um casal e do que deve ser privado.
Não estou, portanto, tomando o partido do “barraco”. Mas não me pareceu que fosse esse o objetivo da moça, aproveitar o público para começar um bate-boca. Ou, pelo menos, não foi assim que eu li a cena (interpretações são sempre muito pessoais, como sabemos). O que ela fez, eu acho, foi dar um ultimato ao rapaz naquele momento preciso, sem postergar a questão para uma possível infindável discussão em casa. Sua escolha econômica de palavras me leva a pensar assim. Ela não disse, “Fulano, precisamos conversar sobre nossa relação” nem deu chilique olhando para os lados e ameaçando chorar. Ela disse simplesmente “me espera”, o que remete ao estar junto, ser companhia e, mais importante, exigiu: “me trata direito”. Bom, aí poderíamos escrever um tratado sobre o que seria tratar uma mulher “direito” e haveria opiniões suficientes para editar volumes sobre o assunto. Mas, em se levando em conta a óbvia questão da dignidade inerente a qualquer ser humano e da amorosidade inerente às relações de um casal, o que é fundamental no caso desse “tratar direito” é o que importa para aquele casal especificamente. E importa, portanto, o fato de que se algo se tornou intolerável para aquela moça, ela falou, não postergou, não engoliu, não fingiu que não estava sentindo. E ela tinha uma saída bem à mão, para por fim ao seu desconforto: não ir juntamente com seu par. Repito, ela não se queixou dele e de como era tratada para os demais ouvirem, ela apenas determinou uma condição para sua permanência e, coisa que parece simples mas é mais complexa do que aparenta, apresentou sua retirada imediata de campo.
Admirei-a sim, pela postura, pela clareza, pela coragem, pela independência, ainda tão jovem. Na minha geração levamos mais anos para pôr em prática essas qualidades. Quero criar minha filha dessa forma, para que possa dizer de seu desejo sem dificuldades, de maneira a convidar para caminhar consigo apenas aqueles homens que não a temam, nem a manipulem, diferentemente dos covardes que esperam, pois que necessitam, que suas mulheres se calem em público para que possam fazer piadinhas infames que parecem grandes feitos aos olhos de seus amigos. Alguém aí conhece algum?
Fica então lançada a campanha, que bem pode ser para ambos os sexos: me trata direito, ou eu não vou!
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