O caso Nardoni. Os deuses todos sabem que eu não quero e não vou participar da catarse pública de revisitar cada detalhe de mais um espancamento e tortura de criança nesse país, algo que não é tão raro como gostaríamos de imaginar, para nosso próprio conforto. O espancamento terminar em morte também não é raro, é só dar uma checada nos hospitais de qualquer cidade. Não tão comum, sem dúvida, é a criança ser jogada de um apartamento de classe média tão parecido com os nossos, inclusive com as mesmas redes nas janelas, providencia que tomamos para proteger nossos filhos. É uma ironia macabra. O choque da nação e a cobertura frenética da imprensa – que vende mais quando há notícias chocantes que causem identificação do público – são compreensíveis.
Mas há uma questão que me incomoda mais que as outras em relação ao surto de violência que resultou na morte da menina Isabela. Ele não pode ter sido o primeiro. Quando ocorre o assassinato de uma criança precedido de espancamento, essa última agressão é a culminância de muitas outras. Quem acompanha casos de violência contra mulheres sabe que ninguém se descontrola uma única vez e, na primeira ocasião que espanca um membro da família, o faz até matá-lo. Isso sim, seria raríssimo. Há, na verdade, ambientes maléficos, doentios de longa data nessas famílias, onde se encontram grandes buracos cheios de dor, recobertos pelo silêncio. O silêncio é uma coisa com a qual podemos nos acostumar facilmente, mesmo porque a fala implica em reviver a memória daquilo que gostaríamos que não houvesse acontecido. O silêncio tem, então, seus confortos. É melhor silenciar do que encarar a vergonha de se pertencer a uma determinada família, é melhor silenciar do que provocar novos ataques, é melhor silenciar do que se perceber um perdedor em meio a uma sociedade que cultua a felicidade aparente. As crianças aprendem isso rapidamente. Todas sorriem para as fotos presentes nos celulares dos pais, a serem exibidas publicamente: vejam como somos felizes. Ai de quem não sorri!
Não me apedrejem ainda, não estou levando a mãe da menina assassinada a julgamento, embora aparentemente ela tenha feito vistas grossas a machucaduras anteriores. Mas me parece que houve silêncios ali, que se tornaram perigosos. Sabem quem é uma grande aliada do silêncio? A correria do dia-a-dia. É inevitável se a pressão é enorme. E não é só em virtude dos gastos com moradia, saúde e alimentação, que já nos tomam horas de trabalho bem longas. Queremos, porque somos bons pais, que nossos filhos fiquem bonitos, bem-vestidos, tenham bons brinquedos, estudem em boas escolas, pratiquem dança, música, língua estrangeira, artes marciais, esportes e, enfim, temos que pagar mais essas contas. Isso também é amor, certo? Disso também depende a felicidade do filho, acreditamos. A somar-se a tudo isso há o dado de que também nós, pais, somos gente (surpresa!) e temos aspirações pessoais que vão desde roupas para nós e cursos que queremos fazer a uma simples cervejinha com os amigos. E o dia, esse inimigo que era pra ser a medida de nossas vidas, só tem 24 horas. Essa inflexibilidade do tempo em se esticar para que possamos acrescentar mais e mais as nossas agendas – em busca da felicidade? – é que estraga tudo. A falta de intimidade e o silêncio nocivo que dela provém, é culpa do tempo. Para completar, a intimidade tem lá seus desígnios próprios e um deles, fundamental para que ela se estabeleça, é o contato contínuo e sereno. Isso complica a equação, não?
Fico triste em saber que esse é mais um caso de espancamento terminado em morte, que poderia ter sido evitado. Não estou instigando a todos que batam às portas dos vizinhos cada vez que uma criança se coloque a berrar (haveria filas na minha porta em momentos de birra da minha pequena), mas sei que nós, como sociedade, estamos falhando em proteger nossas crianças. Nesse sentido, a denúncia faz parte desse espectro, sem dúvida, bem como um maior investimento nos Conselhos Tutelares, para que possam atender à demanda provocada por aqueles poucos vizinhos, professores e parentes que ousam romper o silêncio. Esperar que a criança espancada seja a que toma a iniciativa de buscar proteção do Estado, já é pedir demais.
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Em tempo: fico feliz de saber que há profissionais no país alertando os pediatras de hospitais públicos para reconhecerem a chamada SIBE, Síndrome do bebê espancado e a Doença de Munchaussen por procuração. Vale a pena acompanhar o trabalho do Dr. Wilmes Roberto Gonçalves Teixeira. Há uma excelente entrevista dele, aqui: http://diganaoaerotizacaoinfantil.wordpress.com/2008/04/22/violencia-mata-4-mil-criancas-por-ano/
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
domingo, 4 de abril de 2010
segunda-feira, 29 de março de 2010
Um futuro de pernas para o ar!
Há algumas semanas recomecei a Yoga. Toda dura. Não estou querendo dizer malhada, bonitona. É sem flexibilidade, mesmo. Não tão dura quando eu comecei pela primeira vez, há mais de três anos atrás, ocasião na qual descobri que havia me transformado no Pinocchio, o lendário boneco de madeira criado pelo solitário velhinho Geppetto, que acaba por tornar-se humano graças a Fada Azul. É impressionante o que a tensão pode fazer com a mente, refletida no corpo. Acho que é justo dizer que estava faltando um pedaço da minha humanidade, na época, pois o simples sentar na chamada “postura fácil” (que postura fácil?! eu me perguntava), me causava dor. A Yoga e a meditação foram minha Fada Azul em um importante momento de recuperação da saúde. Mas, sabe como é, assim que você melhora e vai se entregando à correria do dia-a-dia os cuidados com você mesma vão se tornando secundários.
Recomeços são meio complicados. Você pensa que está com a bola toda e... argh. Alô, dor. Alô corpo. Já faz tempo que não nos relacionávamos tão intimamente, hu? Entre paradas e retornos, o resultado é que meus pés e mãos ainda mantêm uma amistosa, mas relativamente grande, distância entre eles que eu bem gostaria de já ter ultrapassado. Respirando e relaxando a lombar, vou tentando aproximar minhas extremidades, ao mesmo tempo que procuro habitar melhor meu próprio corpo. Dentre as frases da professora, a que eu mais gosto é: “respeite seus limites”. Puxa vida, a gente deveria ouvir isso mais seguidamente no dia a dia. É tão mais comum interiorizarmos a idéia socialmente cultuada de ultrapassar nossos limites que até fiquei meio chocada a primeira vez que a ouvi dizer isso. Mas fiquei agradecida também, por saber que encontrara ali uma prática que não cultua o sofrimento, nem físico, nem mental. Acolhida em minhas dificuldades, vou respirando e relaxando.
Na minha turma há várias senhoras, com diferentes graus de habilidades físicas desenvolvidos. Algumas me parecem bem mais confortáveis do que eu com a prática, enquanto outras lutam contra o corpo enrijecido, procurando ajustar-se aqui e ali a posturas que demandam concentração e equilíbrio, bem regados a altas doses de oxigenação. É mais difícil na prática do que no papel. As senhoras parecem espelhos do meu amanhã. Admiro a todas elas. Todas estão ali, apegadas à vida, respirando profundamente, procurando fazer o seu melhor para consigo mesmas. Me pego perguntando como será meu futuro, que tipo de senhora serei. Onde estarão meus achaques? Nas pernas, nas costas, na nuca? Tornozelos inchados parecem ser quase uma certeza. Como me relacionarei com o envelhecimento inevitável? Observo-as, ansiosa por encontrar nessas outras mulheres, respostas sobre mim. Mas em seguida é hora de esvaziar a mente, fixar um ponto e concentrar-se dentro de si mesma, porque senão você cai no chão.
Há também as moças na casa dos vinte anos, em forma física invejável, do meu ponto de vista. Quando chega a hora da finalização lá se vão elas, a virar de pernas para cima, apoiando-se apenas nos braços e na ponta da cabeça. Essa posição, chamada “invertida”, ainda é um sonho para mim que me contento em apenas levantar as pernas, na “vela”. Olhando as moças penso: que tipo de velhice elas terão? Será que elas se preocupam com isso? Provavelmente não. Sou eu, na casa dos “enta” que passei a tentar visualizar um futuro que não está muito distante, agora.
Nessa hora juro que nunca mais vou parar a Yoga e junto todas as imagens que tenho à frente. Lá estou eu, uma senhora de idade, sim, mas graciosa e flexível, que ainda consegue se locomover bem sozinha. Mais do que isso, acredito que estarei em melhor forma física do que a que apresento agora e já me imagino fazendo a “invertida” no final das aulas, pernas para o ar, cabeça no chão. É meu ideal de futuro: Um dia eu ainda me viro de ponta a cabeça!
Recomeços são meio complicados. Você pensa que está com a bola toda e... argh. Alô, dor. Alô corpo. Já faz tempo que não nos relacionávamos tão intimamente, hu? Entre paradas e retornos, o resultado é que meus pés e mãos ainda mantêm uma amistosa, mas relativamente grande, distância entre eles que eu bem gostaria de já ter ultrapassado. Respirando e relaxando a lombar, vou tentando aproximar minhas extremidades, ao mesmo tempo que procuro habitar melhor meu próprio corpo. Dentre as frases da professora, a que eu mais gosto é: “respeite seus limites”. Puxa vida, a gente deveria ouvir isso mais seguidamente no dia a dia. É tão mais comum interiorizarmos a idéia socialmente cultuada de ultrapassar nossos limites que até fiquei meio chocada a primeira vez que a ouvi dizer isso. Mas fiquei agradecida também, por saber que encontrara ali uma prática que não cultua o sofrimento, nem físico, nem mental. Acolhida em minhas dificuldades, vou respirando e relaxando.
Na minha turma há várias senhoras, com diferentes graus de habilidades físicas desenvolvidos. Algumas me parecem bem mais confortáveis do que eu com a prática, enquanto outras lutam contra o corpo enrijecido, procurando ajustar-se aqui e ali a posturas que demandam concentração e equilíbrio, bem regados a altas doses de oxigenação. É mais difícil na prática do que no papel. As senhoras parecem espelhos do meu amanhã. Admiro a todas elas. Todas estão ali, apegadas à vida, respirando profundamente, procurando fazer o seu melhor para consigo mesmas. Me pego perguntando como será meu futuro, que tipo de senhora serei. Onde estarão meus achaques? Nas pernas, nas costas, na nuca? Tornozelos inchados parecem ser quase uma certeza. Como me relacionarei com o envelhecimento inevitável? Observo-as, ansiosa por encontrar nessas outras mulheres, respostas sobre mim. Mas em seguida é hora de esvaziar a mente, fixar um ponto e concentrar-se dentro de si mesma, porque senão você cai no chão.
Há também as moças na casa dos vinte anos, em forma física invejável, do meu ponto de vista. Quando chega a hora da finalização lá se vão elas, a virar de pernas para cima, apoiando-se apenas nos braços e na ponta da cabeça. Essa posição, chamada “invertida”, ainda é um sonho para mim que me contento em apenas levantar as pernas, na “vela”. Olhando as moças penso: que tipo de velhice elas terão? Será que elas se preocupam com isso? Provavelmente não. Sou eu, na casa dos “enta” que passei a tentar visualizar um futuro que não está muito distante, agora.
Nessa hora juro que nunca mais vou parar a Yoga e junto todas as imagens que tenho à frente. Lá estou eu, uma senhora de idade, sim, mas graciosa e flexível, que ainda consegue se locomover bem sozinha. Mais do que isso, acredito que estarei em melhor forma física do que a que apresento agora e já me imagino fazendo a “invertida” no final das aulas, pernas para o ar, cabeça no chão. É meu ideal de futuro: Um dia eu ainda me viro de ponta a cabeça!
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