Eu costumava cantar “time, time, time, is on my side. Yes it is!” (O tempo está ao meu lado. Ele está sim!), refrão de uma música dos Rolling Stones. Eu era jovem e cantava com absoluta convicção. Essa certeza, contudo, foi se esvaindo por esses dedos que contam o passar dos anos, juntamente com outras tantas verdades absolutas da juventude. Por alguma razão, ao acumularem-se os anos cresce o número de incertezas. As convicções vão rareando e sobram apenas algumas poucas, essenciais, e que ainda assim volta e meia passam pelo escrutínio da dúvida. O que é bom, contém a egolatria e mantém a sanidade, principalmente em se tratando do tempo, um dos deuses mais lindos segundo o Caetano. Mas até o próprio Caetano – na música Oração ao Tempo – tenta entrar em acordo com ele, exemplificação da nossa dificuldade em fazê-lo.
Acreditar ter o tempo sob seu comando é uma ilusão grandiloquente tola. Lutar contra o tempo, uma batalha perdida que deixa gosto amargo no corpo. Segundo Caetano o tempo é “compositor de destinos” e “tambor de todos os ritmos”, o que me leva a devanear sobre a necessidade de entregar-se ao tempo como faz um cão adormecido sobre o sofá em plena manhã de outono. Mas não somos cães e me dou conta que estarmos à mercê do tempo também não é uma verdade absoluta, porque nossos sentimentos parecem influenciar a forma como o vivenciamos, quase como se ele não fosse o perene e inalterável passar dos segundos, mas como se existissem vários tempos dentro de nós. Talvez seja minha relação com o tempo que não é normal. O tempo, há tempos eu acho, não me parece linear e paulatino, mas absurdamente acelerado e escorregadio, alternando essa velocidade incompreensível com momentos de tal imobilidade que chego a jurar que está se mexendo para trás, retornando, como se o Super-Homem tivesse feito a terra girar em sentido contrário, alterando sua rotação e, assim, o tempo. É, eu sei que isso não é possível, mas nos quadrinhos parecia uma ideia bacana.
Possivelmente são os filhos, ou a vivência de crianças crescendo ao nosso redor, que nos fazem enxergar com mais clareza a passagem do tempo externo. No entanto, enquanto são pequenas as crianças podem passar de verdadeiros buracos negros que sugam as vinte quatro horas do dia, reduzindo-o para três ou quatro, a imobilizadores dos relógios, quando você está contando os minutos para liberar uma criança que está aos berros na cadeirinha de pensar. (Provavelmente a criança, como os adultos, não pensa quando está aos berros. Não sou a melhor consultora sobre como se usa a cadeirinha de pensar.) Os hospitais também são lugares excepcionais para compreendermos o gerenciamento escorregadio do tempo e não apenas quando estamos internados. A perplexidade diante de uma mudança brusca da nossa vida em questão de minutos nas emergências e o estancamento absurdo do relógio que consultamos compulsivamente na sala de espera dos centros cirúrgicos nos revela da desarmonia entre o tempo interior e o exterior e da insubmissão de ambos a nossa vontade.
Enquanto releio esse texto fico sabendo da morte do Millôr Fernandes, um pensador essencial na minha juventude. Há poucos dias morreu um humorista presente na minha infância, Chico Anysio. O tempo interno inveja o cão dormindo sobre o sofá. Atrás do sofá, emoldurado na parede, o tempo externo golpeia baixinho meu pesar: tique, taque.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
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domingo, 15 de abril de 2012
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Férias de verão
Ah, dizem todos, chegaram as tão esperadas férias de verão! Iremos descansar, não teremos aulas e sim lindos e longos dias de sol, as crianças brincarão, os cachorros passearão, pegaremos uma cor, caminharemos para emagrecer. Tomaremos sorvetes, iremos à piscina, organizaremos a casa, colocaremos o sono e a vida em dia. Nossa saúde será poupada das intempéries do frio e até para tomarmos banho estaremos mais bem dispostos. Mesmo quem trabalha em janeiro e fevereiro acha que vai levar uma vida mais tranqüila e aguarda de bom humor a chegada do calor que convida a passear depois do trabalho – diferentemente do frio, que remete todos de volta à “toca” a zelar por suas vidas.
É o que todo mundo acha quando começa o verão. Ou na primeira semana do verão. Depois os humores começam a se modificar, sutilmente a princípio, desbragadamente quando o mau humor se instala. Está quente demais. Não dá para sair nesse sol, que está “pelando”. O clube está muito cheio e não se sabe se as crianças não fizeram xixi na água. A pele descascou, ou não bronzeou como se desejava, ou bronzeou e o medo do envelhecimento precoce tomou conta e trouxe a culpa. O corpo não está no formato que se desejava (como pena o pobre corpo, sempre objeto de aversão) e colocar sunga ou biquíni resultou numa experiência bem menos excitante do que se esperava. Há pernilongos à noite e o calor não deixa ninguém dormir bem. O uso do ar condicionado pode ter causado um resfriado ou crise de rinite. O mormaço baixa a pressão e tira a vontade de caminhar ou passear. A cidade está vazia e as vendas não são boas. Não anoitece nunca e as crianças se tornam birrentas. O tédio se instalou e alguns sentem falta das aulas ou do trabalho, de saber o que fazer do tempo, basicamente. Outros sentem falta da vida social que possuem nesses círculos.
Ai, ai, as expectativas de vida perfeita, como elas nos limitam. Nada, mas nada mesmo, sai exatamente como se imaginou. Mas das coisas sobre as quais não temos controle (já reparou que é praticamente nossa vida toda?), o tempo meteorológico é dos que mais testa a capacidade de suportar frustração de parte dos humanos. Acima dele só o tempo cronológico, contra o qual travamos lutas tolas. Há os que odeiam o verão, há os que odeiam o inverno.
O Verão e o Inverno, juntamente com a Primavera das Rinites e o Outono dos Resfriados, parecem desconhecer solenemente nossas expectativas e desilusões. Marcham ao compasso imposto pelo tempo cronológico, misturam-se por vezes num dia só e cabe a nós, solitariamente conscientes de nossa existência e da deles, achar resignação, audácia, beleza e propósito em nossos dias, faça chuva ou faça sol.
É o que todo mundo acha quando começa o verão. Ou na primeira semana do verão. Depois os humores começam a se modificar, sutilmente a princípio, desbragadamente quando o mau humor se instala. Está quente demais. Não dá para sair nesse sol, que está “pelando”. O clube está muito cheio e não se sabe se as crianças não fizeram xixi na água. A pele descascou, ou não bronzeou como se desejava, ou bronzeou e o medo do envelhecimento precoce tomou conta e trouxe a culpa. O corpo não está no formato que se desejava (como pena o pobre corpo, sempre objeto de aversão) e colocar sunga ou biquíni resultou numa experiência bem menos excitante do que se esperava. Há pernilongos à noite e o calor não deixa ninguém dormir bem. O uso do ar condicionado pode ter causado um resfriado ou crise de rinite. O mormaço baixa a pressão e tira a vontade de caminhar ou passear. A cidade está vazia e as vendas não são boas. Não anoitece nunca e as crianças se tornam birrentas. O tédio se instalou e alguns sentem falta das aulas ou do trabalho, de saber o que fazer do tempo, basicamente. Outros sentem falta da vida social que possuem nesses círculos.
Ai, ai, as expectativas de vida perfeita, como elas nos limitam. Nada, mas nada mesmo, sai exatamente como se imaginou. Mas das coisas sobre as quais não temos controle (já reparou que é praticamente nossa vida toda?), o tempo meteorológico é dos que mais testa a capacidade de suportar frustração de parte dos humanos. Acima dele só o tempo cronológico, contra o qual travamos lutas tolas. Há os que odeiam o verão, há os que odeiam o inverno.
O Verão e o Inverno, juntamente com a Primavera das Rinites e o Outono dos Resfriados, parecem desconhecer solenemente nossas expectativas e desilusões. Marcham ao compasso imposto pelo tempo cronológico, misturam-se por vezes num dia só e cabe a nós, solitariamente conscientes de nossa existência e da deles, achar resignação, audácia, beleza e propósito em nossos dias, faça chuva ou faça sol.
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