Li no blog de um pai o conselho para que não se deixasse passar a oportunidade de conversar com os filhos, diariamente. Esse pai preconizava que, nem que fosse antes de dormir, os pais sentassem à beira da cama e conversassem com os filhos sobre as coisas importantes da vida, aconselhando-os. Legal. Nem sempre possível de colocar em prática, mas bem pertinente o conselho. Se rolar umas quatro vezes por semana, a conversa essa, a beira da cama, já é uma enorme aproximação entre pais e filhos que muitas vezes são pessoas que moram na mesma casa, mas não conseguem estabelecer um diálogo. Mas, embora concordando em tese com esse pai, algo me incomodou.
Início dos anos oitenta. Estou sentada sozinha no chão do quarto que divido com minhas irmãs, manuseando meus poucos e preciosos LPs. A porta de repente se abre de chofre e meu pai me observa com uma feição meio esquisita. Permanece alguns segundos em silêncio e me pergunta o que estou fazendo. – Nada, respondo. É claro que estou fazendo algo importante para uma adolescente, mas essa é a resposta padrão, a que oferece um salvo conduto meio precário, uma vez que estabelecido que você não está fazendo alguma coisa uma tarefa lhe será imediatamente impingida, como secar a louça ou estudar. Ainda assim, é uma resposta que lhe resguarda de ter que começar uma conversa. É boa o bastante.
Mas ele não vai embora, nem me manda fazer algo “de útil”. Observo seu rosto contorcido quando me pergunta já meio exasperado: “você precisa de alguma coisa?!” Ih, definitivamente essa conversa vai render em chateação, então respondo “não”, rapidamente. Agora estou em território minado. Então, num esforço inesperado meu pai atropela uma frase mais ou menos como “Bom, se você precisar falar alguma coisa, pode falar!” e se vai. Enquanto tento compreender o que diabos foi aquilo, decido que o curso de ação mais seguro é ir assistir TV na sala com a família. Nada como adotar a atitude dos demais quando você quer passar despercebida.
Hoje, adulta, é com um misto de carinho e dó que reconheço a angústia de meu pai tentando estabelecer um diálogo com a filha adolescente, se lançando em uma tarefa da qual ele desconhecia as características mais básicas, por nunca tê-las vivenciado. Tendo ficado órfão ainda criança, conhecia muito da vida e sempre foi farto em conselhos, afinal, tinha muito o que contar. Mas não necessariamente abundava em espaço de escuta.
E é isso que me incomoda no aconselhamento à beira da cama preconizado pelo bom pai – como o meu – do blog lido a partir de uma postagem no Twitter. Por isso, ouso um pequeno adendo. Aos pais, nessa conversa, caberia mais ouvir do que falar e reagir com brandura aos pensamentos e acontecimentos apresentados que lhe fossem inesperados e incômodos. Talvez então o aconselhamento pudesse florescer no pantanoso terreno do crescimento, no qual a admoestação dificilmente vinga.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
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segunda-feira, 31 de outubro de 2011
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Amar a Barbie
Depois de anos torcendo o nariz para as bonecas Barbie recentemente vivi meu momento “I love Barbie” e foi muito sincero. A bonequinha – ou pelo menos uma de suas versões – ganhou meu coração. Quem me viu e quem me vê.
A Barbie deve ser a boneca mais amada e a mais odiada do planeta. A absoluta maioria das meninas a ama e projeta nela seus sonhos de ser uma mulher adulta, lindíssima, louríssima e poderosa. Não sendo nenhuma super-heroína, fica claro que seu poder emana da beleza e do dinheiro que a boneca ostenta, ou seja, o sonho de toda e qualquer mulher nos dias que correm, onde a visão de liberdade talvez seja mais cínica e, precisamente por isso, bastante pragmática. Beleza e dinheiro oferecem, sim, um tipo de liberdade a qual poucas mulheres têm acesso. Isso explica o sucesso da Barbie também entre jovens adultas que, embora não comprem as bonecas, consomem bolsas e sapatos com o perfil da marca estampado. A logo de um sonho materialista de poder feminino.
Mas a rainha das bonecas na categoria perua também enfrentou muitos detratores ao longo de sua glamorosa carreira e os petardos contra ela não são leves. Um pouco de reflexão por parte dos pais se faz necessária. Há estudos afirmando que a imagem de perfeição projetada pela boneca prejudica a auto imagem das meninas, colocando-as em risco ao buscarem um ideal de feminilidade impossível de ser alcançado. Suas roupas são muitas vezes inapropriadas, sua apresentação excessivamente sexualizada e o apelo ao consumo é constante nos acessórios e brinquedos que acompanham a boneca. Atento às críticas, o fabricante lançou linhas onde a apresenta como uma bem sucedida profissional adulta (Barbie arquiteta, por exemplo) que possivelmente trabalha para seu sustento, adequadamente trajada. Lançou filmes também, nos quais ela geralmente é uma boa moça que se torna a heroína defensora dos mais fracos. Nem por isso o modelo “casamento dos sonhos” com o parrudo (e “carrãozudo”) Ken foi retirado de circulação. Amor perfeito também faz parte do pacote da mulher bem sucedida. Estão aí as revistas femininas para comprovar que pouca pressão é bobagem na construção do ideal de mulher da contemporaneidade.
Mas como é que fui me afeiçoar pela Barbie, então? Aconteceu na abertura do filme Vida de Sereia, no qual a bonequinha é surfista. Depois de uma noite e um dia inteiro de febre, apatia e irritação, eis que a filha se ergue de um salto colocando-se em pé no sofá onde esteve deitada com a cabeça no meu colo, abre os braços e se equilibra em sua prancha de surfe imaginária, cantando empolgadamente – e imaginariamente no que tange à letra em inglês – a música da cena. Ela dança, ela ginga, balança os cabelos ao sabor de um suposto vento, os olhos grudados na televisão. Canta e vive a cena até o final, quando então se deita novamente, sorrindo. Se alguém mais estivesse na sala teria ouvido essa mãe murmurar “eu te amo, Barbie”, de todo o coração.
A Barbie deve ser a boneca mais amada e a mais odiada do planeta. A absoluta maioria das meninas a ama e projeta nela seus sonhos de ser uma mulher adulta, lindíssima, louríssima e poderosa. Não sendo nenhuma super-heroína, fica claro que seu poder emana da beleza e do dinheiro que a boneca ostenta, ou seja, o sonho de toda e qualquer mulher nos dias que correm, onde a visão de liberdade talvez seja mais cínica e, precisamente por isso, bastante pragmática. Beleza e dinheiro oferecem, sim, um tipo de liberdade a qual poucas mulheres têm acesso. Isso explica o sucesso da Barbie também entre jovens adultas que, embora não comprem as bonecas, consomem bolsas e sapatos com o perfil da marca estampado. A logo de um sonho materialista de poder feminino.
Mas a rainha das bonecas na categoria perua também enfrentou muitos detratores ao longo de sua glamorosa carreira e os petardos contra ela não são leves. Um pouco de reflexão por parte dos pais se faz necessária. Há estudos afirmando que a imagem de perfeição projetada pela boneca prejudica a auto imagem das meninas, colocando-as em risco ao buscarem um ideal de feminilidade impossível de ser alcançado. Suas roupas são muitas vezes inapropriadas, sua apresentação excessivamente sexualizada e o apelo ao consumo é constante nos acessórios e brinquedos que acompanham a boneca. Atento às críticas, o fabricante lançou linhas onde a apresenta como uma bem sucedida profissional adulta (Barbie arquiteta, por exemplo) que possivelmente trabalha para seu sustento, adequadamente trajada. Lançou filmes também, nos quais ela geralmente é uma boa moça que se torna a heroína defensora dos mais fracos. Nem por isso o modelo “casamento dos sonhos” com o parrudo (e “carrãozudo”) Ken foi retirado de circulação. Amor perfeito também faz parte do pacote da mulher bem sucedida. Estão aí as revistas femininas para comprovar que pouca pressão é bobagem na construção do ideal de mulher da contemporaneidade.
Mas como é que fui me afeiçoar pela Barbie, então? Aconteceu na abertura do filme Vida de Sereia, no qual a bonequinha é surfista. Depois de uma noite e um dia inteiro de febre, apatia e irritação, eis que a filha se ergue de um salto colocando-se em pé no sofá onde esteve deitada com a cabeça no meu colo, abre os braços e se equilibra em sua prancha de surfe imaginária, cantando empolgadamente – e imaginariamente no que tange à letra em inglês – a música da cena. Ela dança, ela ginga, balança os cabelos ao sabor de um suposto vento, os olhos grudados na televisão. Canta e vive a cena até o final, quando então se deita novamente, sorrindo. Se alguém mais estivesse na sala teria ouvido essa mãe murmurar “eu te amo, Barbie”, de todo o coração.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Um exército de branco
Uma amiga me chamou a atenção para a declaração de uma famosa apresentadora de televisão na capa de uma revista de celebridades. A frase era: “Depois que fui mãe entendi porque vim ao mundo.” Ficamos pensativas. É que não dava para ignorar o ato falho e olha que nós não precisamos incorporar o pai da psicanálise para percebê-lo. A moça em questão, que aparece em foto posadinha (como devem ser todas as fotos comerciais, compreendo) com o filho – na qual os rostos nem se tocam – já foi mãe. A tarefa dela já acabou. Engravidou, gestou e pariu, o que, convenhamos, não é pouco em termos de experiência de vida e de doação. Agora, acredito eu, deve haver profissionais de gabarito contratadas para cuidar do pequenote e assegurar que a vida dele vá em frente. Essa mãe pagará por todas essas despesas o que também, reconheço, não é pouco, materialmente falando. Materialmente.
Há um exército de branco em marcha nas classes médias e nas classes altas do país. São as babás, que vão desde as que moram nas residências, as que passam o dia ou a noite junto da criança, as que trabalham em sistema de revezamento e as absolutamente desconhecidas, cujo trabalho é oferecido em resorts para que o casal que viajou sem sua babá possa receber o merecido descanso. É um serviço que não tem preço. Ou tem e baixo em muitas ocasiões, embora, se pararmos para pensar, substituir uma mãe seja algo de absolutamente precioso. Desejo muito que as recrutas desse exército estejam devidamente preparadas para uma tarefa tão importante, que influi nos fundamentos da sociedade.
O que está sendo substituído não é o trocar de fraldas, não é o embalar para dormir, não é o dar banho ou dar papinha. O que as babás realizam vai muito além dessas tarefas embora esteja embutido na própria realização delas. É através do olhar e do toque de quem o cuida, da maneira mesmo como é manipulado e de como se conversa com ele que o bebê vai desenvolver seu psiquismo, ou seja, vai desenvolver o mais fundamental manacial de emoções ao qual recorrerá a vida inteira, nas mais diversas situações que enfrentar. Crianças mais velhas já o tem formado, mas todos sabemos o que comparações entre irmãos, palavras duras e escárnio, só para citar alguns exemplos, podem fazer no desenvolvimento de uma criança ou mesmo de um adolescente.
Seria bom que não houvesse um mercado tão grande para as celebridades que se parecem “gente como a gente”, só que melhorada. Gente que faz compras no supermercado, mas usando salto agulha. Gente que trabalha muito e se alimenta “corretamente”, por isso não adoece. Gente que dá à luz como você, leitora, mas que em menos de um mês depois está de volta à forma ou, quem sabe, em melhor forma! Esse produto que chamo “celebridade que você pode imitar” tem um preço alto e é invariavelmente fadado ao fracasso. Me recuso a comprar.
****************************************
Em tempo, não me apedrejem: não sou contra a recorrer à ajuda de babás na criação dos filhos. Especialmente em famílias pequenas, cada vez mais comuns. Sei que é preciso muita ajuda e aprendi um bocado ouvindo mulheres simples, mas sábias nos seus palpites e experiências.
Há um exército de branco em marcha nas classes médias e nas classes altas do país. São as babás, que vão desde as que moram nas residências, as que passam o dia ou a noite junto da criança, as que trabalham em sistema de revezamento e as absolutamente desconhecidas, cujo trabalho é oferecido em resorts para que o casal que viajou sem sua babá possa receber o merecido descanso. É um serviço que não tem preço. Ou tem e baixo em muitas ocasiões, embora, se pararmos para pensar, substituir uma mãe seja algo de absolutamente precioso. Desejo muito que as recrutas desse exército estejam devidamente preparadas para uma tarefa tão importante, que influi nos fundamentos da sociedade.
O que está sendo substituído não é o trocar de fraldas, não é o embalar para dormir, não é o dar banho ou dar papinha. O que as babás realizam vai muito além dessas tarefas embora esteja embutido na própria realização delas. É através do olhar e do toque de quem o cuida, da maneira mesmo como é manipulado e de como se conversa com ele que o bebê vai desenvolver seu psiquismo, ou seja, vai desenvolver o mais fundamental manacial de emoções ao qual recorrerá a vida inteira, nas mais diversas situações que enfrentar. Crianças mais velhas já o tem formado, mas todos sabemos o que comparações entre irmãos, palavras duras e escárnio, só para citar alguns exemplos, podem fazer no desenvolvimento de uma criança ou mesmo de um adolescente.
Seria bom que não houvesse um mercado tão grande para as celebridades que se parecem “gente como a gente”, só que melhorada. Gente que faz compras no supermercado, mas usando salto agulha. Gente que trabalha muito e se alimenta “corretamente”, por isso não adoece. Gente que dá à luz como você, leitora, mas que em menos de um mês depois está de volta à forma ou, quem sabe, em melhor forma! Esse produto que chamo “celebridade que você pode imitar” tem um preço alto e é invariavelmente fadado ao fracasso. Me recuso a comprar.
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Em tempo, não me apedrejem: não sou contra a recorrer à ajuda de babás na criação dos filhos. Especialmente em famílias pequenas, cada vez mais comuns. Sei que é preciso muita ajuda e aprendi um bocado ouvindo mulheres simples, mas sábias nos seus palpites e experiências.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
O filho que eu quero ter
Na última terça-feira foi o Dia da Criança. Um dia no qual você acaba refletindo sobre a infância, inevitavelmente. Sobre a sua infância, sobre a infância dos filhos ou das crianças do país e do mundo, sobre o que você gostaria que tivesse sido e sobre como você gostaria que as coisas fossem dali por diante. Funciona um pouco como um Ano Novo porque as reflexões acabam levando a conclusões sobre o que melhorar e sobre como podemos colaborar naquilo que gostaríamos de ver mudado. Alguma coisa, ainda que pequena, todos podemos fazer, começando por nos educarmos acerca das necessidades da infância.
Eu li um bocado de livros sobre criação de filhos. Uns me ajudaram, uns atrapalharam e de alguns poucos discordei veementemente. Há livros no mercado para todos os gostos. Desde aqueles para justificar que o mal comportamento de um filho são sinais de que ele é especial, portador de algum sinal divino, como também para incentivar uma má vontade coletiva que vê a nova geração como incompetente e preguiçosa, para a qual apenas a boa e velha “linha dura” é a solução. Exageros vendem bem, como já sabemos. Aprendi com os livros e a filha ajudou a solidificar a sabedoria de que a teoria, na prática, é outra mesmo e difícil para caramba.
Mas há uma coisa que me incomoda um pouco, algo que acredito que os livros sobre educação de crianças nunca dizem com clareza e que me parece fundamental. A primeira “grande providência” que você tem que tomar se vai ter ou teve um filho, é esta: procure se tornar a melhor pessoa que você pode ser, nesse mundo. Não a mais perfeita, por favor, não é isso. Aliás, se você vai ter um filho seria muito legal começar a abrir mão da busca da perfeição. Não, não é com o seu estresse em conciliar tudo, em ser a super-mãe da capa das revistas femininas, que estou preocupada. É com o estresse da criança, em ter que crescer à sombra de alguém em busca da perfeição.
Funciona mais ou menos assim: os pais são a fonte de formação do psiquismo infantil e o são naquilo que fazem conscientemente, sabedores de si mesmos e naquilo que são inconscientemente, naquilo de si que nem sequer reconhecem, mas que se traduz na vida, de forma imperceptível, talvez. A criança, no entanto, percebe o imperceptível. Não de forma absolutamente racionalizada, mas através do afeto que na primeira infância parece ter a forma de uma grande esponja absorvente de tudo o que se passa ao redor. Se isso estiver certo – e há dados científicos indicando que está – a melhor coisa que podemos fazer para termos filhos do jeito que nós sonhamos, é ser esse sonho. Filhos calmos? Seja calmo. Gente honesta, correta, coisa que está faltando neste país? Seja honesto, procure fazer o que você acredita que é certo. “Queremos crianças felizes”, dizem todos os pais em coro? Seja feliz, você mesmo. A sua cara de infelicidade na mesa de jantar não está ajudando. E se os filhos lhe fazem infeliz, porque tomam muito do seu tempo e dão despesas grandes, por favor, interrompa a produção imediatamente. E lembre-se que não foi solicitação deles fazerem-se irremediavelmente presentes em sua vida.
É uma máxima comum esta, de ser a mudança que você deseja, oriunda de ensinamentos orientais e reproduzida em muitos manuais de auto-ajuda. Só precisamos lembrar de a transpormos para o campo da infância. Será que há em mim, a despeito do muito ou do pouco que a vida possa ter me oferecido, a criança que eu desejaria que meu filho fosse?
Eu li um bocado de livros sobre criação de filhos. Uns me ajudaram, uns atrapalharam e de alguns poucos discordei veementemente. Há livros no mercado para todos os gostos. Desde aqueles para justificar que o mal comportamento de um filho são sinais de que ele é especial, portador de algum sinal divino, como também para incentivar uma má vontade coletiva que vê a nova geração como incompetente e preguiçosa, para a qual apenas a boa e velha “linha dura” é a solução. Exageros vendem bem, como já sabemos. Aprendi com os livros e a filha ajudou a solidificar a sabedoria de que a teoria, na prática, é outra mesmo e difícil para caramba.
Mas há uma coisa que me incomoda um pouco, algo que acredito que os livros sobre educação de crianças nunca dizem com clareza e que me parece fundamental. A primeira “grande providência” que você tem que tomar se vai ter ou teve um filho, é esta: procure se tornar a melhor pessoa que você pode ser, nesse mundo. Não a mais perfeita, por favor, não é isso. Aliás, se você vai ter um filho seria muito legal começar a abrir mão da busca da perfeição. Não, não é com o seu estresse em conciliar tudo, em ser a super-mãe da capa das revistas femininas, que estou preocupada. É com o estresse da criança, em ter que crescer à sombra de alguém em busca da perfeição.
Funciona mais ou menos assim: os pais são a fonte de formação do psiquismo infantil e o são naquilo que fazem conscientemente, sabedores de si mesmos e naquilo que são inconscientemente, naquilo de si que nem sequer reconhecem, mas que se traduz na vida, de forma imperceptível, talvez. A criança, no entanto, percebe o imperceptível. Não de forma absolutamente racionalizada, mas através do afeto que na primeira infância parece ter a forma de uma grande esponja absorvente de tudo o que se passa ao redor. Se isso estiver certo – e há dados científicos indicando que está – a melhor coisa que podemos fazer para termos filhos do jeito que nós sonhamos, é ser esse sonho. Filhos calmos? Seja calmo. Gente honesta, correta, coisa que está faltando neste país? Seja honesto, procure fazer o que você acredita que é certo. “Queremos crianças felizes”, dizem todos os pais em coro? Seja feliz, você mesmo. A sua cara de infelicidade na mesa de jantar não está ajudando. E se os filhos lhe fazem infeliz, porque tomam muito do seu tempo e dão despesas grandes, por favor, interrompa a produção imediatamente. E lembre-se que não foi solicitação deles fazerem-se irremediavelmente presentes em sua vida.
É uma máxima comum esta, de ser a mudança que você deseja, oriunda de ensinamentos orientais e reproduzida em muitos manuais de auto-ajuda. Só precisamos lembrar de a transpormos para o campo da infância. Será que há em mim, a despeito do muito ou do pouco que a vida possa ter me oferecido, a criança que eu desejaria que meu filho fosse?
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
A função paterna
Observo o semblante de minha filha e percebo que ela está perdidamente apaixonada. Está inquieta e insatisfeita. É que quando seu amor demora a chegar ela se ressente e, então, quando ele finalmente chega, ela opta por fingir que não se importa muito com sua presença. Procura disfarçar o quanto o ama, receosa do que essa entrega possa significar. Mas basta uma insistência da parte dele e logo estão juntos, os dois pombinhos, jogando bola no corredor do apartamento. Nessas horas, trato de me recolher a minha insignificância. Minha filha ainda não tem quatro anos completos e o pai é o primeiro homem de sua vida. Caso eu participe de um faz-de-conta em que o pai esteja presente, não raro ela me delega o papel de bruxa e, a ela mesma, o de princesa. Nem é preciso dizer que ao pai cabe o de príncipe. Tudo bem, penso, mãe é meio bruxa mesmo.
A relação dos meninos com o pai é diferente, me ensinam os que sabem. Não há esse amor romântico, mas sim uma ansiedade de reconhecimento, igualmente profunda. É amor, sem dúvida, que solicita, “me permita amar você e, por favor, se orgulhe de mim. O que eu mais desejo na vida é ser como eu vejo você”.
É por conta do amor em nós depositado que os filhos nos obrigam a sermos melhores pessoas. Ninguém quer, em sã consciência, ser o responsável pelas más escolhas amorosas de uma filha adulta. Nenhum pai deseja que a filha se relacione com um homem que a maltrate e menospreze. Tampouco há pais que conscientemente esperam de seu filho que se torne um fracassado, um bêbado, traficante ou agressor. Todos os pais temem a adesão às drogas. E, no entanto, esse caminho é muitas vezes cimentado com palavras e gestos cruéis contra as crianças, atitudes que lhes comunicam claramente que elas são um estorvo e que não se espera nada de positivo de seus futuros. As palavras agressivas e as surras, diriam os pais, têm a intenção de educar, de salvaguardar o futuro. No entanto se esquecem que é impossível construir futuro massacrando o presente. O resultado de muita violência impressa é, inevitavelmente, detrito, sucata de ego. Será um trabalho quase impossível colar pedacinhos para se fazer um adulto feliz ou bem-sucedido (de acordo com os padrões familiares) alguém enfim, de quem a família possa se orgulhar.
Há alguns meses atrás traduzi um ótimo artigo do psicólogo norte-americano Michael Thompson, que trabalha especificamente com meninos.Esse pesquisador acredita que o caminho mais seguro para a construção de uma civilização onde as pessoas se importem umas com as outras, que ele chama de civilização empática, é fazer cessar o espancamento, o sarcasmo e outras formas de violência infligidas aos meninos quando pequenos. O psicólogo alerta que garotos oriundos de ambientes traumatizantes com pais brutais podem crescer para se tornarem tiranos e assassinos.
Durante a infância e a adolescência precisamos de homens cujo comportamento sirva de modelo para os meninos como cuidadores, insiste ele, sem que isso signifique reprimir suas manifestações masculinas e tentar transformar o comportamento das meninas em modelo a ser seguido. Achei sua proposta de ensinar os meninos a serem cuidadores, inclusive de crianças pequenas, revolucionária.
Bons pais, afirma Thompson, transmitem seus melhores valores e instintos de geração a geração. Homens mais seguros, valorizados desde pequenos pelo homem que mais admiram, seu próprio pai, resultariam eles mesmos em pais empáticos aptos a construir uma sociedade menos agressiva. Eu apoio essa idéia.
(A tradução completa do artigo de Michael Thompson se encontra neste blog. Clique no menu à direita, em 05/30)
A relação dos meninos com o pai é diferente, me ensinam os que sabem. Não há esse amor romântico, mas sim uma ansiedade de reconhecimento, igualmente profunda. É amor, sem dúvida, que solicita, “me permita amar você e, por favor, se orgulhe de mim. O que eu mais desejo na vida é ser como eu vejo você”.
É por conta do amor em nós depositado que os filhos nos obrigam a sermos melhores pessoas. Ninguém quer, em sã consciência, ser o responsável pelas más escolhas amorosas de uma filha adulta. Nenhum pai deseja que a filha se relacione com um homem que a maltrate e menospreze. Tampouco há pais que conscientemente esperam de seu filho que se torne um fracassado, um bêbado, traficante ou agressor. Todos os pais temem a adesão às drogas. E, no entanto, esse caminho é muitas vezes cimentado com palavras e gestos cruéis contra as crianças, atitudes que lhes comunicam claramente que elas são um estorvo e que não se espera nada de positivo de seus futuros. As palavras agressivas e as surras, diriam os pais, têm a intenção de educar, de salvaguardar o futuro. No entanto se esquecem que é impossível construir futuro massacrando o presente. O resultado de muita violência impressa é, inevitavelmente, detrito, sucata de ego. Será um trabalho quase impossível colar pedacinhos para se fazer um adulto feliz ou bem-sucedido (de acordo com os padrões familiares) alguém enfim, de quem a família possa se orgulhar.
Há alguns meses atrás traduzi um ótimo artigo do psicólogo norte-americano Michael Thompson, que trabalha especificamente com meninos.Esse pesquisador acredita que o caminho mais seguro para a construção de uma civilização onde as pessoas se importem umas com as outras, que ele chama de civilização empática, é fazer cessar o espancamento, o sarcasmo e outras formas de violência infligidas aos meninos quando pequenos. O psicólogo alerta que garotos oriundos de ambientes traumatizantes com pais brutais podem crescer para se tornarem tiranos e assassinos.
Durante a infância e a adolescência precisamos de homens cujo comportamento sirva de modelo para os meninos como cuidadores, insiste ele, sem que isso signifique reprimir suas manifestações masculinas e tentar transformar o comportamento das meninas em modelo a ser seguido. Achei sua proposta de ensinar os meninos a serem cuidadores, inclusive de crianças pequenas, revolucionária.
Bons pais, afirma Thompson, transmitem seus melhores valores e instintos de geração a geração. Homens mais seguros, valorizados desde pequenos pelo homem que mais admiram, seu próprio pai, resultariam eles mesmos em pais empáticos aptos a construir uma sociedade menos agressiva. Eu apoio essa idéia.
(A tradução completa do artigo de Michael Thompson se encontra neste blog. Clique no menu à direita, em 05/30)
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Laços de família
Se você cresceu em uma família de hierarquia perene, como eu, não deixe de ler O clube do filme de David Gilmour (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009). Por hierarquia perene eu me refiro aquelas famílias, como a minha, em que não importa a idade que você tenha sempre será considerado "uma criança" para os pais. Claro que no caso da minha família, tendo inclusive meu pai já falecido, essa hierarquia se evaporou por conta das necessidades da vida e da morte. Mas, naqueles tempos a vida nas famílias era assim. “Você sempre será uma criança aos meus olhos” é uma frase que muita gente já ouviu. Isso parece muito bonito para ser dito, mas, na prática não é tão bonito nem constrói muito a auto-estima. Pode, inclusive, ser um pouco perverso.
Crescer em ambientes onde seu (inevitável) crescimento é negado é como se esgueirar por uma fresta. Primeiro você tem que achar a fresta, depois se metamorfosear em algo kafkiano para poder passar pela fresta. Uma vez do lado de lá, você estará sozinho para encher seu balão/ego, que se encontrará um tanto quanto murcho e possivelmente um bocado culpado por ter fugido às normas familiares, aos contratos não ditos, mas em plena vigência, que explicitam aquilo que a família espera de você. Sustentar-se bem em suas próprias pernas de adulto pode ser um trabalho de uma vida inteira.
No relacionamento entre pai e filho no tal livro as coisas são diferentes. O pai não é nenhum gênio da pedagogia, a bem da verdade, não é nenhum gênio de nada. Parece, inclusive, por vezes um cara bastante atrapalhado com questões "obrigatórias" do mundo masculino adulto, como sustentar a própria família. Mas o olhar que ele tem para esse filho é raro. É um olhar cheio de amor e cheio de espaço, criando um local em seu afeto onde o filho pode crescer, mais do que isso, onde ele espera e deseja que o filho cresça, se torne homem, e ele seja "derrotado". Ou seja, nesse relacionamento espera-se que a vida tome seu curso normal e as pessoas não sejam obrigadas a permanecer na posição de escada para que o mundo de outro (pais, mães, irmãos, esposos) não se desmorone.
Um trechinho da sabedoria desse pai: "Definitivamente as coisas estavam mudando entre nós dois. Eu sabia que, ao final do caminho, não muito longe, haveria um confronto e eu sairia perdendo. Exatamente como aconteceu com todos os outros pais na história." Acrescentaria eu: estejam eles cientes dessa mudança, ou não. A leitura é linda e incrivelmente atual porque, acreditem, não são muitos os pais que têm essa clareza, não importa o quão estudados sejamos.
Crescer em ambientes onde seu (inevitável) crescimento é negado é como se esgueirar por uma fresta. Primeiro você tem que achar a fresta, depois se metamorfosear em algo kafkiano para poder passar pela fresta. Uma vez do lado de lá, você estará sozinho para encher seu balão/ego, que se encontrará um tanto quanto murcho e possivelmente um bocado culpado por ter fugido às normas familiares, aos contratos não ditos, mas em plena vigência, que explicitam aquilo que a família espera de você. Sustentar-se bem em suas próprias pernas de adulto pode ser um trabalho de uma vida inteira.
No relacionamento entre pai e filho no tal livro as coisas são diferentes. O pai não é nenhum gênio da pedagogia, a bem da verdade, não é nenhum gênio de nada. Parece, inclusive, por vezes um cara bastante atrapalhado com questões "obrigatórias" do mundo masculino adulto, como sustentar a própria família. Mas o olhar que ele tem para esse filho é raro. É um olhar cheio de amor e cheio de espaço, criando um local em seu afeto onde o filho pode crescer, mais do que isso, onde ele espera e deseja que o filho cresça, se torne homem, e ele seja "derrotado". Ou seja, nesse relacionamento espera-se que a vida tome seu curso normal e as pessoas não sejam obrigadas a permanecer na posição de escada para que o mundo de outro (pais, mães, irmãos, esposos) não se desmorone.
Um trechinho da sabedoria desse pai: "Definitivamente as coisas estavam mudando entre nós dois. Eu sabia que, ao final do caminho, não muito longe, haveria um confronto e eu sairia perdendo. Exatamente como aconteceu com todos os outros pais na história." Acrescentaria eu: estejam eles cientes dessa mudança, ou não. A leitura é linda e incrivelmente atual porque, acreditem, não são muitos os pais que têm essa clareza, não importa o quão estudados sejamos.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Aqui está uma tradução livre de minha parte. Trata-se de um excelente artigo do psicólogo norte-americano Michael Thompson, que concedeu a devida permissão para essa versão em português.
A CIVILIZAÇÃO EMPÁTICA: OS MENINOS SÃO A CHAVE PARA UM FUTURO DE EMPATIA
Michael Thompson, Ph. D.
Como psicólogo de crianças, está claro para mim que a rota mais rápida para uma civilização mais empática é fazer cessar o espancamento, o sarcasmo e outras formas de mágoa infligidas aos meninos quando eles são pequenos. Garotos oriundos de ambientes traumatizantes com pais brutais podem crescer para se tornarem tiranos e assassinos – pense em Adolf Hitler e Slobodan Milosevic da Sérvia – ao passo que aqueles que foram criados com apoio emocional certamente não o serão. Precisamos criar meninos amados e amáveis que têm a capacidade de crescer para se tornarem líderes empáticos e companheiros. Em todas as culturas, se queremos mudar o mundo rapidamente, nossa melhor opção é criar meninos emocionalmente alfabetizados que valorizam a compreensão. Pais e professores bem intencionados com freqüência me dizem que estão tentando criar homens “sensíveis” ou “não-violentos” que possam reconhecer seu lado “feminino” e que venham a crescer em condições de “respeitar as mulheres”. Contudo, esses esforços para criar garotos sensíveis podem ser contraproducentes. Quando perguntei a uma professora de segunda série o motivo de ela ter proibido as brincadeiras de luta durante o intervalo, bem como a chamada “escrita violenta” em sala de aula, ela me disse: “porque eu não quero que um dos meus meninos venha a se tornar presidente quando crescer e decida invadir o Iraque.” Compreendo o sentimento dela, mas seu ponto de vista é parcial e nada científico. As brincadeiras infantis não levam à violência do mundo adulto. Eu sei que os meninos na aula dela percebem que ela vê a eles e a sua escrita como sendo potencialmente perigosos. Isso não é bom para eles. Nós temos que compreender a maneira como os garotos aprendem. Eles são, em média, mais ativos fisicamente que as meninas, mais impulsivos e competitivos, mais interessados em escrever histórias de conflito e morte, mais propensos a trabalhar duro quando cercados por grupos de meninos. Abordagens punitivas na criação de meninos não funcionam. Pais que batem em seus filhos do sexo masculino em casa apenas produzem meninos obedientes que chegam à escola prontos para usar a agressão física contra os seus pares.
Um relatório da Associação Americana de Psicologia demonstrou que a adoção de políticas de tolerância zero nas escolas não mudou o comportamento dos meninos, apenas os distanciou das mesmas. Punir os meninos constantemente retirando seus intervalos ou proibindo os seus jogos, também não funciona. Forçar os garotos a sempre cooperar e nunca competir em aula apenas os faz sentir que a escola não foi feita para eles. Se os meninos se sentem cronicamente mal compreendidos, se sofrem interferências constantes em sua forma de brincar, eles simplesmente seguem seu caminho, desistindo da escola ou se alienando dos valores do mundo adulto. Eles passam a procurar, fora da escola, experiências significativas para a afirmação de si mesmos como garotos fortes e homens saudáveis. Para muitos garotos isso significa idolatrar o líder da gangue local, o atleta popular embora anti-social, o pai abusivo. Minha experiência como psicólogo para uma escola apenas para garotos e como consultor para ambos os tipos – escolas para ambos os gêneros ou somente para meninos – me ensinou algumas importantes lições sobre o que os meninos precisam. Os meninos estão sempre famintos por modelos masculinos responsáveis e por mulheres que realmente “saquem” como eles são. Os meninos estão sempre procurando rotas que os levem a ser homens adultos respeitáveis, admirados por seus professores de ambos os sexos. Na infância, os meninos choram mais e são mais vulneráveis a perturbações em seu elo com as mães do que as meninas. Muitos deles expressam ansiedade através da raiva e do distanciamento. Precisamos compreender que a raiva dos meninos pequenos é, frequentemente, uma manifestação de medo e ansiedade.
No nível Fundamental, nas escolas, precisamos compreender que os meninos são extraordinariamente suscetíveis à vergonha. O arco de desenvolvimento dos meninos é diferente – e mais lento – do que o arco das meninas. Não devemos comparar constantemente os meninos, desfavoravelmente a estes, com as meninas ou fazer do comportamento destas o padrão ouro das escolas. Durante toda a infância, precisamos que os homens apresentem comportamentos que sirvam de modelo para os meninos como cuidadores e precisamos oferecer aos garotos a chance de cuidar de crianças mais novas.
Tom Lickona, o autor de Educando para o Caráter, disse que todas as crianças precisam querer o bem, conhecer o bem e praticar o bem. Eu acredito que dar aos meninos a chance de cuidar de crianças mais novas – praticando o bem – pode ser o mais importante passo individual no sentido de auxiliá-los no desenvolvimento da empatia. Se nós percebemos os rapazes adolescentes como sendo perigosos ou molestadores em potencial, se nós só damos a eles válvulas de escape competitivas, nunca estaremos lhes oferecendo a chance de desenvolverem sua empatia em potencial. Finalmente, na adolescência devemos ir ao encontro dos anseios morais e espirituais dos garotos. Se há uma lição para ser aprendida nas atividades violentas, terroristas de rapazes em todo o mundo, é a de que homens jovens estão sempre em busca de significado, mesmo que de formas terríveis. Se nós traumatizarmos os meninos, iremos produzir homens violentos. Se não oferecermos aos rapazes rituais significativos que façam sua passagem da meninice à vida adulta, eles inventarão suas próprias e cruéis formas de iniciação. Se apenas procurarmos controlá-los e não nos comunicarmos com suas almas, eles nos retribuirão com violência. Os meninos precisam experienciar a empatia quando são jovens, eles precisam aprender a reconhecer um comportamento empático e precisam praticá-lo.
A antropóloga Margaret Mead uma vez expressou sua admiração pelas sociedades que criam seus filhos para serem “bons pais”. Eu concordo com ela. Se nós continuarmos perseverando no objetivo de criar bons pais, os melhores instintos dos meninos serão transmitidos de geração para geração.
Publicado originalmente no Huffington Post em 3 de março de 2010. http://www.huffingtonpost.com/michael-thompson-phd/the-empathic-civilization_b_483068.html
Site do autor: http://www.michaelthompson-phd.com/
A CIVILIZAÇÃO EMPÁTICA: OS MENINOS SÃO A CHAVE PARA UM FUTURO DE EMPATIA
Michael Thompson, Ph. D.
Como psicólogo de crianças, está claro para mim que a rota mais rápida para uma civilização mais empática é fazer cessar o espancamento, o sarcasmo e outras formas de mágoa infligidas aos meninos quando eles são pequenos. Garotos oriundos de ambientes traumatizantes com pais brutais podem crescer para se tornarem tiranos e assassinos – pense em Adolf Hitler e Slobodan Milosevic da Sérvia – ao passo que aqueles que foram criados com apoio emocional certamente não o serão. Precisamos criar meninos amados e amáveis que têm a capacidade de crescer para se tornarem líderes empáticos e companheiros. Em todas as culturas, se queremos mudar o mundo rapidamente, nossa melhor opção é criar meninos emocionalmente alfabetizados que valorizam a compreensão. Pais e professores bem intencionados com freqüência me dizem que estão tentando criar homens “sensíveis” ou “não-violentos” que possam reconhecer seu lado “feminino” e que venham a crescer em condições de “respeitar as mulheres”. Contudo, esses esforços para criar garotos sensíveis podem ser contraproducentes. Quando perguntei a uma professora de segunda série o motivo de ela ter proibido as brincadeiras de luta durante o intervalo, bem como a chamada “escrita violenta” em sala de aula, ela me disse: “porque eu não quero que um dos meus meninos venha a se tornar presidente quando crescer e decida invadir o Iraque.” Compreendo o sentimento dela, mas seu ponto de vista é parcial e nada científico. As brincadeiras infantis não levam à violência do mundo adulto. Eu sei que os meninos na aula dela percebem que ela vê a eles e a sua escrita como sendo potencialmente perigosos. Isso não é bom para eles. Nós temos que compreender a maneira como os garotos aprendem. Eles são, em média, mais ativos fisicamente que as meninas, mais impulsivos e competitivos, mais interessados em escrever histórias de conflito e morte, mais propensos a trabalhar duro quando cercados por grupos de meninos. Abordagens punitivas na criação de meninos não funcionam. Pais que batem em seus filhos do sexo masculino em casa apenas produzem meninos obedientes que chegam à escola prontos para usar a agressão física contra os seus pares.
Um relatório da Associação Americana de Psicologia demonstrou que a adoção de políticas de tolerância zero nas escolas não mudou o comportamento dos meninos, apenas os distanciou das mesmas. Punir os meninos constantemente retirando seus intervalos ou proibindo os seus jogos, também não funciona. Forçar os garotos a sempre cooperar e nunca competir em aula apenas os faz sentir que a escola não foi feita para eles. Se os meninos se sentem cronicamente mal compreendidos, se sofrem interferências constantes em sua forma de brincar, eles simplesmente seguem seu caminho, desistindo da escola ou se alienando dos valores do mundo adulto. Eles passam a procurar, fora da escola, experiências significativas para a afirmação de si mesmos como garotos fortes e homens saudáveis. Para muitos garotos isso significa idolatrar o líder da gangue local, o atleta popular embora anti-social, o pai abusivo. Minha experiência como psicólogo para uma escola apenas para garotos e como consultor para ambos os tipos – escolas para ambos os gêneros ou somente para meninos – me ensinou algumas importantes lições sobre o que os meninos precisam. Os meninos estão sempre famintos por modelos masculinos responsáveis e por mulheres que realmente “saquem” como eles são. Os meninos estão sempre procurando rotas que os levem a ser homens adultos respeitáveis, admirados por seus professores de ambos os sexos. Na infância, os meninos choram mais e são mais vulneráveis a perturbações em seu elo com as mães do que as meninas. Muitos deles expressam ansiedade através da raiva e do distanciamento. Precisamos compreender que a raiva dos meninos pequenos é, frequentemente, uma manifestação de medo e ansiedade.
No nível Fundamental, nas escolas, precisamos compreender que os meninos são extraordinariamente suscetíveis à vergonha. O arco de desenvolvimento dos meninos é diferente – e mais lento – do que o arco das meninas. Não devemos comparar constantemente os meninos, desfavoravelmente a estes, com as meninas ou fazer do comportamento destas o padrão ouro das escolas. Durante toda a infância, precisamos que os homens apresentem comportamentos que sirvam de modelo para os meninos como cuidadores e precisamos oferecer aos garotos a chance de cuidar de crianças mais novas.
Tom Lickona, o autor de Educando para o Caráter, disse que todas as crianças precisam querer o bem, conhecer o bem e praticar o bem. Eu acredito que dar aos meninos a chance de cuidar de crianças mais novas – praticando o bem – pode ser o mais importante passo individual no sentido de auxiliá-los no desenvolvimento da empatia. Se nós percebemos os rapazes adolescentes como sendo perigosos ou molestadores em potencial, se nós só damos a eles válvulas de escape competitivas, nunca estaremos lhes oferecendo a chance de desenvolverem sua empatia em potencial. Finalmente, na adolescência devemos ir ao encontro dos anseios morais e espirituais dos garotos. Se há uma lição para ser aprendida nas atividades violentas, terroristas de rapazes em todo o mundo, é a de que homens jovens estão sempre em busca de significado, mesmo que de formas terríveis. Se nós traumatizarmos os meninos, iremos produzir homens violentos. Se não oferecermos aos rapazes rituais significativos que façam sua passagem da meninice à vida adulta, eles inventarão suas próprias e cruéis formas de iniciação. Se apenas procurarmos controlá-los e não nos comunicarmos com suas almas, eles nos retribuirão com violência. Os meninos precisam experienciar a empatia quando são jovens, eles precisam aprender a reconhecer um comportamento empático e precisam praticá-lo.
A antropóloga Margaret Mead uma vez expressou sua admiração pelas sociedades que criam seus filhos para serem “bons pais”. Eu concordo com ela. Se nós continuarmos perseverando no objetivo de criar bons pais, os melhores instintos dos meninos serão transmitidos de geração para geração.
Publicado originalmente no Huffington Post em 3 de março de 2010. http://www.huffingtonpost.com/michael-thompson-phd/the-empathic-civilization_b_483068.html
Site do autor: http://www.michaelthompson-phd.com/
domingo, 2 de maio de 2010
Crescer é chato
Para alguns pais o propósito da vida de um filho seria o de não os incomodar. Se ele só viver lá, na dele, e fizer o favor de não chatear, a família agradece. Item cumprido na lista de obrigações na vida, o filho está presente para completar a família, quem sabe até dividir bons momentos, mas não deve trazer problemas para casa porque o pai e a mãe já estão, eles mesmos, cheios de problemas. Ou, pelo menos, é a explicação que dão. Acontece que criança é chata. Não sei se é permitido escrever isso no jornal, mas, depois que Laura Guimarães e Juliana Sampaio abriram no livro “Mothern – manual da mãe moderna”, que parir é uma experiência punk, ouso achar que algumas outras verdades já podem ser impressas sem que sejamos tachadas de “sem coração”. Sim, eu sei que chatos são os filhos dos outros, o nosso apenas está com sono. Atender as demandas de um filho, seja ele pequeno ou grande, requer muito do espaço temporal interno e externo que poderíamos estar dedicando a nós mesmos. Isso é chato. O coração da gente também fica pequenino quando o filho está com problemas, enfim, é uma montanha russa de emoções. Será que não saber é uma boa saída, no longo prazo, para não se incomodar?
Às vezes também acontece de os pais estarem tão apaixonados um pelo outro que não há espaço para o filho irromper, como deveria, em meio a essa relação. O fato é que, seja estress ou seja, digamos, excessivo amor próprio, em certas famílias prevalece um nível de egoísmo que se furta a estabelecer contato com a chatice dos filhos. Cada um deve cuidar de si, a convivência apenas se dá pelas necessidades financeiras, compartilhamento de moradia e datas comemorativas, especialmente na presença de terceiros.
Para outros pais, não chatear não basta. O propósito de se ter um filho é aumentar o orgulho que se tem acerca da própria família. É responsabilidade dos filhos trazer elogios para casa, se possível em formato de troféus, mas também conta pontos as notas altas, os cumprimentos dos conhecidos, a excelência no rendimento em qualquer área a qual o filho venha a se dedicar. Ele é visto como uma representação da família, dos pais enquanto indivíduos e como casal e resultado direto da educação destes. Um produto da empresa, enfim. E ninguém quer colocar seu nome num produto com defeito, muito menos lançá-lo no mercado, digo, sociedade. E dê-lhe troféus na sala e fotos gigantescas que ocupam todas as paredes. Uma vez comemorada uma conquista, recomeça a angústia com a preparação para o próximo desafio. Me pergunto se alguém aceitaria tamanha pressão durante as 24 horas dos sete dias da semana, mesmo que fosse remunerado, ou seja, se fosse um emprego. Acho que não haveria filas de candidatos para esse posto. Para esses filhos, a família dos que “apenas” não querem se envolver com os problemas da prole deve parecer o paraíso.
Qual seria, então, o propósito de se ter um filho? Acho que o primeiro propósito, ou efeito colateral, é o de crescer. Não, isso não significa que quem opta por não ter filhos é necessariamente um infantilizado com síndrome de Cinderela ou Peter Pan. Mas são tantas as demandas que a criança traz, são tantas as frustrações que sofremos por ter de abrir mão da vida como ela era sem filhos para poder abraçar essa nova fase, que está correta a compreensão de que há um luto a ser realizado. Perder, para ganhar. Passa-se a olhar o mundo sob duas novas perspectivas, a de pai ou de mãe e a do ponto de vista da criança, que, por ser infantil, não tem condições de olhar o mundo de nenhum outro ponto de vista que não o seu próprio. Essa é uma condição importante que distingue um adulto de uma criança: empatia.
Há certa infantilidade naquele olhar paterno ou materno que não reconhece o desejo do filho, como uma criança que se frustra com o brinquedo que não a obedece. Ter filhos é uma condição biológica que mesmo crianças em idade púbere podem realizar. Mas, para que os filhos tenham espaço de crescimento como indivíduos, é preciso que os pais amadureçam. E amadurecer é, no mínimo, chato. Ah, mas chatos são os outros pais, nós estamos apenas estressados.
Às vezes também acontece de os pais estarem tão apaixonados um pelo outro que não há espaço para o filho irromper, como deveria, em meio a essa relação. O fato é que, seja estress ou seja, digamos, excessivo amor próprio, em certas famílias prevalece um nível de egoísmo que se furta a estabelecer contato com a chatice dos filhos. Cada um deve cuidar de si, a convivência apenas se dá pelas necessidades financeiras, compartilhamento de moradia e datas comemorativas, especialmente na presença de terceiros.
Para outros pais, não chatear não basta. O propósito de se ter um filho é aumentar o orgulho que se tem acerca da própria família. É responsabilidade dos filhos trazer elogios para casa, se possível em formato de troféus, mas também conta pontos as notas altas, os cumprimentos dos conhecidos, a excelência no rendimento em qualquer área a qual o filho venha a se dedicar. Ele é visto como uma representação da família, dos pais enquanto indivíduos e como casal e resultado direto da educação destes. Um produto da empresa, enfim. E ninguém quer colocar seu nome num produto com defeito, muito menos lançá-lo no mercado, digo, sociedade. E dê-lhe troféus na sala e fotos gigantescas que ocupam todas as paredes. Uma vez comemorada uma conquista, recomeça a angústia com a preparação para o próximo desafio. Me pergunto se alguém aceitaria tamanha pressão durante as 24 horas dos sete dias da semana, mesmo que fosse remunerado, ou seja, se fosse um emprego. Acho que não haveria filas de candidatos para esse posto. Para esses filhos, a família dos que “apenas” não querem se envolver com os problemas da prole deve parecer o paraíso.
Qual seria, então, o propósito de se ter um filho? Acho que o primeiro propósito, ou efeito colateral, é o de crescer. Não, isso não significa que quem opta por não ter filhos é necessariamente um infantilizado com síndrome de Cinderela ou Peter Pan. Mas são tantas as demandas que a criança traz, são tantas as frustrações que sofremos por ter de abrir mão da vida como ela era sem filhos para poder abraçar essa nova fase, que está correta a compreensão de que há um luto a ser realizado. Perder, para ganhar. Passa-se a olhar o mundo sob duas novas perspectivas, a de pai ou de mãe e a do ponto de vista da criança, que, por ser infantil, não tem condições de olhar o mundo de nenhum outro ponto de vista que não o seu próprio. Essa é uma condição importante que distingue um adulto de uma criança: empatia.
Há certa infantilidade naquele olhar paterno ou materno que não reconhece o desejo do filho, como uma criança que se frustra com o brinquedo que não a obedece. Ter filhos é uma condição biológica que mesmo crianças em idade púbere podem realizar. Mas, para que os filhos tenham espaço de crescimento como indivíduos, é preciso que os pais amadureçam. E amadurecer é, no mínimo, chato. Ah, mas chatos são os outros pais, nós estamos apenas estressados.
quarta-feira, 17 de março de 2010
Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho
“Fulana está muito bem, noiva de um médico!”. Era o que eu costumava ouvir as tias falarem quando queriam dizer das realizações das filhas. Namorando firme um “doutor” também era uma variante do mesmo tema que enchia de orgulho as senhoras daquele tempo. Mas isso era antigamente, quando eu era pequena e as pressões sobre a existência feminina e o altar eram imensas, certo? Mais ou menos. Parece-me que as exigências sociais para que as mulheres – e os homens, também – se adéqüem a padrões generalistas e reducionistas não saiu completamente da pauta.
A coisa começa se você está namorando alguém há algum tempo e as perguntas de quando vai ser o casamento ou se estão pensando em morar juntos se tornam inevitáveis nas reuniões de família. Caso venham a se casar, no Natal seguinte você ouvirá algumas piadinhas e também perguntas diretas acerca de para quando você está planejando engravidar. Não espere demais, lhe dizem, de forma bem-intencionada. Okay, você se casou, tem um filho e pensa que não há mais nenhuma exigência pública nessa área. Talvez reclamem que você ainda não plantou uma árvore ou escreveu um livro. Mas aí começa a pressão pelo segundo filho. “Só vão ter esse?!” as pessoas perguntam espantadas e lhe contam histórias terríveis sobre solidão e velhice. É possível que alguém puxe a arenga da necessidade de ter uma menina, para que essa ampare os pais idosos. Quando ouço isso me pergunto se as obrigações femininas já vêm tatuadas invisivelmente na nossa pele quando nascemos e também por que não conseguimos (será mesmo?) criar filhos homens suficientemente íntimos e empáticos para com suas famílias.
Uma amiga que aparentemente teria completado o checklist da felicidade familiar aos olhos dos outros – isto é, casamento e dois filhos, um menino e uma menina – uma vez me disse que ainda lhe exigem mais um acréscimo familiar: um cachorro. Ou seja, se não estiver idêntica a propaganda do banco tal, nossa foto ainda não está boa! Esse tipo de pressão é muito chata, para usar um adjetivo suave, porque, definitivamente, ainda há muitas mulheres e homens respondendo a ela. E, na vida real, existem mulheres que acalantam a idéia de ter um companheiro de vida mas não querem, necessariamente, se casar. E muitos casais não querem ter filhos, o que é perfeitamente normal, pois existem muitas vantagens em não tê-los, e tê-los, sem querê-los, é de uma irresponsabilidade que beira a crueldade. Isso vale também para os cachorros.
Não existe receita de felicidade do tipo tamanho único: uma peça veste a todos os corpos. Existe, isso sim, muitas revistas femininas com receitas de onde encontrar a felicidade e um mito de família perfeita que perpassa o imaginário coletivo. Esse mito é particularmente danoso para as mulheres porque nele somos mães de família inigualáveis, profissionais bem sucedidas, amantes ardorosas, bem vestidas, bem penteadas, corpos esculpidos, posamos ao lado de filhos e marido sorridentes e enormes cachorros que nem cabem nos apartamentos modernos. Click. É só uma imagem. Quando se apaga o flash cada um sai para um lado. Talvez a mulher more sozinha e vá para a balada com as amigas. Talvez ele seja casado e não queira ter filhos, prefira a liberdade de viajar para lugares distantes sempre que possível. As crianças talvez morem com os avós, ou com a nova família do pai e o cachorro possivelmente volte para o canil de seu criador, que o aluga para peças publicitárias. E não necessariamente essas são cenas de infelicidade, incompletude e solidão. Deve haver tantas possibilidades de viver bem quanto existam pessoas na face da terra. Que cada um possa construir a sua, inclusive sem culpa por não plantar uma árvore em tempos ecologicamente corretos e sem se sentir ignorante por não escrever um livro.
Artigo publicado no jornal O Nacional em 14/03/2010
A coisa começa se você está namorando alguém há algum tempo e as perguntas de quando vai ser o casamento ou se estão pensando em morar juntos se tornam inevitáveis nas reuniões de família. Caso venham a se casar, no Natal seguinte você ouvirá algumas piadinhas e também perguntas diretas acerca de para quando você está planejando engravidar. Não espere demais, lhe dizem, de forma bem-intencionada. Okay, você se casou, tem um filho e pensa que não há mais nenhuma exigência pública nessa área. Talvez reclamem que você ainda não plantou uma árvore ou escreveu um livro. Mas aí começa a pressão pelo segundo filho. “Só vão ter esse?!” as pessoas perguntam espantadas e lhe contam histórias terríveis sobre solidão e velhice. É possível que alguém puxe a arenga da necessidade de ter uma menina, para que essa ampare os pais idosos. Quando ouço isso me pergunto se as obrigações femininas já vêm tatuadas invisivelmente na nossa pele quando nascemos e também por que não conseguimos (será mesmo?) criar filhos homens suficientemente íntimos e empáticos para com suas famílias.
Uma amiga que aparentemente teria completado o checklist da felicidade familiar aos olhos dos outros – isto é, casamento e dois filhos, um menino e uma menina – uma vez me disse que ainda lhe exigem mais um acréscimo familiar: um cachorro. Ou seja, se não estiver idêntica a propaganda do banco tal, nossa foto ainda não está boa! Esse tipo de pressão é muito chata, para usar um adjetivo suave, porque, definitivamente, ainda há muitas mulheres e homens respondendo a ela. E, na vida real, existem mulheres que acalantam a idéia de ter um companheiro de vida mas não querem, necessariamente, se casar. E muitos casais não querem ter filhos, o que é perfeitamente normal, pois existem muitas vantagens em não tê-los, e tê-los, sem querê-los, é de uma irresponsabilidade que beira a crueldade. Isso vale também para os cachorros.
Não existe receita de felicidade do tipo tamanho único: uma peça veste a todos os corpos. Existe, isso sim, muitas revistas femininas com receitas de onde encontrar a felicidade e um mito de família perfeita que perpassa o imaginário coletivo. Esse mito é particularmente danoso para as mulheres porque nele somos mães de família inigualáveis, profissionais bem sucedidas, amantes ardorosas, bem vestidas, bem penteadas, corpos esculpidos, posamos ao lado de filhos e marido sorridentes e enormes cachorros que nem cabem nos apartamentos modernos. Click. É só uma imagem. Quando se apaga o flash cada um sai para um lado. Talvez a mulher more sozinha e vá para a balada com as amigas. Talvez ele seja casado e não queira ter filhos, prefira a liberdade de viajar para lugares distantes sempre que possível. As crianças talvez morem com os avós, ou com a nova família do pai e o cachorro possivelmente volte para o canil de seu criador, que o aluga para peças publicitárias. E não necessariamente essas são cenas de infelicidade, incompletude e solidão. Deve haver tantas possibilidades de viver bem quanto existam pessoas na face da terra. Que cada um possa construir a sua, inclusive sem culpa por não plantar uma árvore em tempos ecologicamente corretos e sem se sentir ignorante por não escrever um livro.
Artigo publicado no jornal O Nacional em 14/03/2010
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