Ante-sala de consultório médico. Depois de certa idade você começa a passar mais tempo nesse tipo de lugar e consequentemente a valorizar mais o material de leitura lá disponibilizado. Quando a angústia é grande, as revistas de conteúdo leve são mais procuradas do que, digamos, aquelas que se destinam a fazer propagandas de remédios para doenças que você teme apresentando imagens de idosos felizes. Ou das que tentam convencer você a fazer sexo selvagem por meio de questionário sobre suas preferências. Perdão, mas não tem clima. Eu realmente apreciaria que os médicos pensassem mais no tipo de público que atendem e buscassem materiais de leitura adequados a esses clientes. Questionário sobre preferências sexuais em ante-sala de ginecologista, por exemplo, não animam para a realização do exame. Quem diria.
Folheando uma publicação sobre celebridades leio uma entrevista do tipo bate bola, ou seja, perguntas toscas e respostas curtas. Ou o inverso. Mas vá lá, a ideia é de um perfil rápido e raso do entrevistado, nada muito complexo. Mesmo assim me parece cretino solicitar a pessoa que defina a si mesma numa frase. Como se essa tarefa fosse possível. Como se a definição que uma pessoa cria acerca dela mesma pudesse açambarcar mais do que meias verdades e, em uma única frase, quiçá um quarto de verdades. Fico imaginando alternativas para melhorar aquele tipo de entrevista. Difícil, dado que o objetivo não é aprofundar nada. Contudo me ocorre que uma experiência interessante seria definir a nós mesmos com base naquilo que tememos.
Nossos medos, que dizemos ser algo do qual gostaríamos de nos livrar, também são parte daquilo que nos define e, assim, não são artigos dos quais realmente desejemos nos separar. Quem sabe nosso maior desejo resida em não ter de enfrentá-los. Eu tenho medo de dentista, portanto, contanto que eu não vá ao dentista, meu medo não me incomoda. Claro que é uma decisão de avestruz, pois mais cedo ou mais tarde todos nos defrontamos com nossos medos, inclusive o principal, da finitude. Mas adiamos esse encontro o mais que pudermos.
Todos temos medo e tememos muito, inclusive a celebridade bola da vez, que nas páginas das revistas parece exibir a capacidade de dar conta de tudo o que vier. Acredite, ela não tem esse dom. Entre o presente momento de qualquer ser humano – por mais maravilhoso que seja – e o próximo passo a ser dado em termos pessoais, profissionais ou em qualquer outro campo, paira o medo. E não há como não dar o próximo passo, pois mesmo o permanecer imóvel é também uma decisão. O medo de decidir pode ser paralisante ou não, mas ele se faz presente. No mais das vezes nosso esforço consiste em não olharmos de frente para o medo, mas sim de canto de olho, enquanto nos movimentamos dolorosamente. Nossos temores maiores embaçam nossa visão de nós mesmos e defini-los, nomeá-los, requer grande coragem, embora eles coubessem em frases bastante objetivas. Isso, se conseguíssemos encará-los de frente. Se vocalizássemos suas existências para além da bruma que se forma na mente no momento em que abraçamos essa tarefa.
Ao conseguirmos identificar e vocalizar um medo profundo sem atenuá-lo, justificá-lo ou nos culparmos, abrimos uma pequena mas poderosa porta para dentro. Uma fresta para o eu através da qual muito pode escapulir. Muitos novos passos. Uma vida nova talvez.
Abre-se a porta do consultório. Minha coragem, agora, se resume a comandar meus passos na direção de enfrentar sorridente o dentista, embora mil vezes preferisse alçar voo pela porta que dá para a rua, para fora de mim.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
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domingo, 2 de outubro de 2011
quarta-feira, 17 de março de 2010
Nada do que é literatura me é estranho
Tenho visto em mim mesma o poder que a leitura do texto literário pode exercer, em escalas, poder-se-ia dizer, grandiosas. Tenho ouvido o retumbar de tambores, tenho sentido os tapetes se esvanecerem sob meus pés, tenho visto as tempestades se aproximarem e obscurecerem o sol em questão se segundos. Também tenho sentido macios cobertores me acolherem e aquecerem do frio cortante e mãos hábeis me secarem com cuidado, recolhendo-me da chuva gelada. Felizes chuvas de verão, mornas e libertadoras têm se abatido sobre mim, bem como ventos enlouquecedores que provocam a perda do sentido de quem se é e de onde se está. Areias que enterram ou desenterram sonhos grandiosos se movimentam sem parar e ondas gigantescas varrem certezas que julgava serem pontos de apoio do meu julgamento de mundo. Há praias mansas também, pores-do-sol e luares feitos sob medida para viver um grande amor e lareiras crepitantes na frente das quais me enrodilhar com um gato ou um cachorro, seja da espécie humana ou não. Tudo isto sem sair de casa. E não é de hoje. Essa vida dupla, que enche minha vida real de mais mistério, mais clareza, maiores questionamentos e novas percepções da realidade, está ao alcance de todos os que gostam de histórias.
Sempre li ficção, fosse ela alta ou baixa, gorda ou magra, crente ou iconoclasta. Li clássicos, sim, mas não li todos os assim chamados e não creio que seja um pecado não tê-los lido, seja em que idade for. Li e leio cultura pop e best sellers também e encontro ali coisas ótimas. E a razão é bem simples: não há como saber de onde surgirá o soco que se dirige ao estômago do leitor e nem se sabe se ele irá desviar-se ou ser atingido em cheio. A vivência que vem do texto literário, seja ele aclamado pela academia ou arrasado pela crítica a ponto de não ser considerado “literário”, pertence ao leitor e tão somente a ele. Essa vivência que enriquece a minha vida e de outras tantas mulheres, é que me encanta, não a crítica. Curiosamente, tenho encontrado poucos homens adultos envolvidos com o texto ficcional, afora aqueles que fizeram da área da Literatura e congêneres seu ganha-pão. Há teorias bem interessantes que explicam porque os homens se interessam mais pelo texto informativo em detrimento do ficcional. Uma delas é a da psicologia cognitiva que, se bem compreendi, considera as mulheres mais empáticas do que os homens, possuidoras de um leque emocional mais amplo em termos de percepções de sentimentos e, por isso, a literatura lhes parece mais atraente, posto que compreendem melhor os meandros e camadas presentes em tramas e personagens ficcionais. Se isto for verdade, ainda que parcialmente, somos nós, as mulheres, boas leitoras da vida não ficcional e, assim, naturalmente intérpretes de mundo nas nossas famílias. Conheço muitas intérpretes familiares que acodem aos pais, que podem estar tendo dificuldades em ler as modificações cada vez mais velozes na sociedade; aos cônjuges, aos quais apresentam as entrelinhas de fatos que eles julgavam unidimensionais; e aos filhos, a quem se incumbem de apresentar toda a gama de cores que conseguirem perceber, no mundo. A leitura, muitas vezes um tempo roubado para nós mesmas e visto até com desprezo em certas famílias, devolve em dobro. Por isso, deixem-me ler em paz, ler seja o que for pois me humanizo, nada do que é literatura me é estranho.
Artigo publicado no jornal O Nacional em 07/03/2010
Sempre li ficção, fosse ela alta ou baixa, gorda ou magra, crente ou iconoclasta. Li clássicos, sim, mas não li todos os assim chamados e não creio que seja um pecado não tê-los lido, seja em que idade for. Li e leio cultura pop e best sellers também e encontro ali coisas ótimas. E a razão é bem simples: não há como saber de onde surgirá o soco que se dirige ao estômago do leitor e nem se sabe se ele irá desviar-se ou ser atingido em cheio. A vivência que vem do texto literário, seja ele aclamado pela academia ou arrasado pela crítica a ponto de não ser considerado “literário”, pertence ao leitor e tão somente a ele. Essa vivência que enriquece a minha vida e de outras tantas mulheres, é que me encanta, não a crítica. Curiosamente, tenho encontrado poucos homens adultos envolvidos com o texto ficcional, afora aqueles que fizeram da área da Literatura e congêneres seu ganha-pão. Há teorias bem interessantes que explicam porque os homens se interessam mais pelo texto informativo em detrimento do ficcional. Uma delas é a da psicologia cognitiva que, se bem compreendi, considera as mulheres mais empáticas do que os homens, possuidoras de um leque emocional mais amplo em termos de percepções de sentimentos e, por isso, a literatura lhes parece mais atraente, posto que compreendem melhor os meandros e camadas presentes em tramas e personagens ficcionais. Se isto for verdade, ainda que parcialmente, somos nós, as mulheres, boas leitoras da vida não ficcional e, assim, naturalmente intérpretes de mundo nas nossas famílias. Conheço muitas intérpretes familiares que acodem aos pais, que podem estar tendo dificuldades em ler as modificações cada vez mais velozes na sociedade; aos cônjuges, aos quais apresentam as entrelinhas de fatos que eles julgavam unidimensionais; e aos filhos, a quem se incumbem de apresentar toda a gama de cores que conseguirem perceber, no mundo. A leitura, muitas vezes um tempo roubado para nós mesmas e visto até com desprezo em certas famílias, devolve em dobro. Por isso, deixem-me ler em paz, ler seja o que for pois me humanizo, nada do que é literatura me é estranho.
Artigo publicado no jornal O Nacional em 07/03/2010
Maria, escrava doméstica
Há um curta de animação chamado Vida Maria, de autoria de Márcio Ramos, que deveria ser material obrigatório para psicólogos, professores, e toda a espécie de cuidadores da infância. Deveria, sobretudo, ser material de divulgação ampla entre as mulheres, não importa de qual classe social, afinal somos nós, mulheres, as grandes cuidadoras da infância, as molas mestras pelas quais passa a saúde física e emocional da família.
A animação em questão é de cortar o coração. É uma história de poda de asas quando essas mal começam a apontar. Tendo o sertão do Ceará como pano de fundo – e o governo daquele estado como promotor através da lei estadual de incentivo à cultura – , nos traços dos personagens vemos transparecer a aridez da vida das Marias que apresenta, todas pertencentes a uma mesma família de mulheres, definhando sob o sol, laborando incansavelmente pelo bem da família. Há um caderninho na casa, um só, onde cada uma, na infância, desenhou seu nome, numa tentativa solitária e vã de alfabetização. Logo os afazeres domésticos as chamam, mesmo pequeninas. Lá se vão elas a lavar, limpar, cozinhar, cuidar dos irmãos pequenos e dos homens que chegam do trabalho, e o caderninho fica abandonado, mal bordado com suas letrinhas infantis. Outra Maria virá, de uma nova geração, e irá também fazer ali sua tentativa de realização da infância: brincar, descobrir, aprender.
Assistimos os sonhos dessas moças Marias serem enterrados, transgeracionalmente, sem que nenhuma mãe interrompa o ciclo para que a geração seguinte tenha uma chance de escapar ao destino de envelhecimento precoce, analfabetismo e parição excessiva. A única fala no filme é a da primeira mãe retratada, a chamar a menina que vê “à toa”, debruçada sobre o caderninho no batente da janela e diz tudo: “Em vez de ficar perdendo tempo desenhando o nome, vá lá pra fora arranjar o que fazer, vá. Tem um pátio pra varrer, tem que levar água pros bichos. Vai menina! Vê se tu me ajuda, Maria!”
Diz o dito popular que a fruta não cai longe do pé. Pessoalmente acredito que o pé não gosta que a fruta role para longe. É, talvez, da natureza do pé. O pé tem braços invisíveis, palavras que não são audíveis aos ouvidos humanos, mas que conseguem, esses braços e essas falas, penetrar no cerne da fruta e segurá-la para que permaneça presa a um caminho conhecido, portanto, seguro. Ainda que medíocre, ainda que castrador e mesmo chegando a ser um fardo, de maneira geral o conhecido é tido como mais seguro e, consequentemente, a melhor indicação que podemos fazer para nossos filhos. Afinal, nenhuma mãe amorosa lançaria seus filhos rumo à escuridão, certo? Até a mãe da Chapeuzinho Vermelho lhe disse que não fosse à floresta! Ela é que desobedeceu e nós sabemos no que deu.
Mas a questão é que o cuidar, o educar – essa tarefa tão complexa que na verdade é impossível – não deveria ser simplesmente repetir destinos. Na nutrição que nós, mães, oferecemos às famílias e, fundamentalmente a nossos filhos, deveriam estar presentes as muitas possibilidades de se evadir para longe das tradições das gerações passadas. Não temos como saber que novos caminhos serão esses e nem sequer onde podem levar, para o bem e para o mal, mas a possibilidade de que se faça diferente, de que os filhos possam se realizar enquanto indivíduos, criando asas que os levem para paragens muito diferentes daquelas que havíamos imaginado para eles, tem que estar lá. Creio que é preciso manter uma porta aberta por onde os filhos fujam dos destinos e tradições das famílias. Não se deve fechá-la. É por essa mesma porta que eles retornarão anos mais tarde, trazendo novos perfumes e cores e abraçando o lado bom da família que se renova e, assim, se afasta da raiz latina onde “famulus” designa, dentre outros, “escravo doméstico”.
Publicado no jornal O Nacional em 21/02/2010
A animação em questão é de cortar o coração. É uma história de poda de asas quando essas mal começam a apontar. Tendo o sertão do Ceará como pano de fundo – e o governo daquele estado como promotor através da lei estadual de incentivo à cultura – , nos traços dos personagens vemos transparecer a aridez da vida das Marias que apresenta, todas pertencentes a uma mesma família de mulheres, definhando sob o sol, laborando incansavelmente pelo bem da família. Há um caderninho na casa, um só, onde cada uma, na infância, desenhou seu nome, numa tentativa solitária e vã de alfabetização. Logo os afazeres domésticos as chamam, mesmo pequeninas. Lá se vão elas a lavar, limpar, cozinhar, cuidar dos irmãos pequenos e dos homens que chegam do trabalho, e o caderninho fica abandonado, mal bordado com suas letrinhas infantis. Outra Maria virá, de uma nova geração, e irá também fazer ali sua tentativa de realização da infância: brincar, descobrir, aprender.
Assistimos os sonhos dessas moças Marias serem enterrados, transgeracionalmente, sem que nenhuma mãe interrompa o ciclo para que a geração seguinte tenha uma chance de escapar ao destino de envelhecimento precoce, analfabetismo e parição excessiva. A única fala no filme é a da primeira mãe retratada, a chamar a menina que vê “à toa”, debruçada sobre o caderninho no batente da janela e diz tudo: “Em vez de ficar perdendo tempo desenhando o nome, vá lá pra fora arranjar o que fazer, vá. Tem um pátio pra varrer, tem que levar água pros bichos. Vai menina! Vê se tu me ajuda, Maria!”
Diz o dito popular que a fruta não cai longe do pé. Pessoalmente acredito que o pé não gosta que a fruta role para longe. É, talvez, da natureza do pé. O pé tem braços invisíveis, palavras que não são audíveis aos ouvidos humanos, mas que conseguem, esses braços e essas falas, penetrar no cerne da fruta e segurá-la para que permaneça presa a um caminho conhecido, portanto, seguro. Ainda que medíocre, ainda que castrador e mesmo chegando a ser um fardo, de maneira geral o conhecido é tido como mais seguro e, consequentemente, a melhor indicação que podemos fazer para nossos filhos. Afinal, nenhuma mãe amorosa lançaria seus filhos rumo à escuridão, certo? Até a mãe da Chapeuzinho Vermelho lhe disse que não fosse à floresta! Ela é que desobedeceu e nós sabemos no que deu.
Mas a questão é que o cuidar, o educar – essa tarefa tão complexa que na verdade é impossível – não deveria ser simplesmente repetir destinos. Na nutrição que nós, mães, oferecemos às famílias e, fundamentalmente a nossos filhos, deveriam estar presentes as muitas possibilidades de se evadir para longe das tradições das gerações passadas. Não temos como saber que novos caminhos serão esses e nem sequer onde podem levar, para o bem e para o mal, mas a possibilidade de que se faça diferente, de que os filhos possam se realizar enquanto indivíduos, criando asas que os levem para paragens muito diferentes daquelas que havíamos imaginado para eles, tem que estar lá. Creio que é preciso manter uma porta aberta por onde os filhos fujam dos destinos e tradições das famílias. Não se deve fechá-la. É por essa mesma porta que eles retornarão anos mais tarde, trazendo novos perfumes e cores e abraçando o lado bom da família que se renova e, assim, se afasta da raiz latina onde “famulus” designa, dentre outros, “escravo doméstico”.
Publicado no jornal O Nacional em 21/02/2010
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