A raiva que ela tem guardada dentro de si é enorme. Um Aconcágua de mágoas. De memórias mesquinhas, de desaforos não ditos, de raiva contra o destino que não obedeceu seus ditames um tanto quanto infantis, de ódio do ex-marido e do rumo que a vida do filho tomou, penalizando a sua própria. Então ela resolve escrever suas dores em cartas dirigidas ao ex-marido, missivas repletas de dor e muita, muita raiva. Embora esteja longe do desfecho da história, o que mais me mobiliza na leitura de Precisamos Falar Sobre o Kevin (Lionel Shriver, editora Intrínseca) é a demolição metódica do passado familiar realizado pela personagem mãe, a autora da correspondência, regada a muita raiva e profunda incapacidade de apego ao filho, um estranho saído, ironicamente, de suas entranhas. Não chega a ser um caso raro.
“Não está nada bem, essa mãe”, nos dizemos. “Sem dúvida é louca”, é a afirmação mais frequente nos fóruns de debate sobre o livro, possivelmente por ser a que mais traz alívio imediato. Trata-se de uma leitura perturbadora precisamente por provocar clarões de empatia em qualquer mãe que venha a lê-la com honestidade. Por isso acorremos em nos diferenciar dessa mãe monstruosa, desequilibrada, raivosa, para garantirmos a nós mesmas que jamais seriamos assim. Mas temo que nos iludamos com muito fervor. A raiva não é um sentimento ausente no exercício da maternidade. A frustração, a mágoa, o entorpecimento que faz esvanecer os gestos de carinho são mais frequentes do que gostaríamos de admitir, mesmo em mães de classe média que, aparentemente, não teriam maiores preocupações como a da garantia da sobrevivência.
O isolamento e a frustração decorrentes da maternidade, e a demanda permanente de atenção que raramente é dispensada a si própria (elevada ao cubo quando a mulher trabalha fora de casa) podem ser devastadoras para a mulher. E aquela mãe sorridente na saída da escola do filho, carregando mochilas, sacolas de supermercado e o mundo nos ombros pode estar prestes a explodir. E pode inclusive não explodir, mas certamente acabará em lágrimas. A raiva é, muitas vezes, a antessala da depressão.
Para tentarmos compreender um sentimento tão forte como a raiva, podemos atribuir aos outros, aos que nos cercam, problemas que estão no cerne de quem nós realmente somos, das escolhas de vida que fizemos e das quais podemos estar arrependidas. Nessas situações diálogo é um bote salva vidas. E diálogo é um luxo ao qual muitas mães não tem acesso. Qual é a saída? Escrever, como faz a mãe do livro que estou lendo, é uma possibilidade. Talvez um blog com pseudônimo seja uma porta para estabelecer um diálogo com outras pessoas em situação semelhante. Há quem sugira acalmar a mente com técnicas meditativas. É uma boa ideia. Até kickboxing é uma ideia mais produtiva do que destilar a raiva sobre os familiares. E, em tendo chance, um bom terapeuta fará toda a diferença na vida não só da mãe, mas de todos os que dependem emocionalmente dela. O melhor presente que se pode dar aos filhos, creio.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Aconselhamento
Li no blog de um pai o conselho para que não se deixasse passar a oportunidade de conversar com os filhos, diariamente. Esse pai preconizava que, nem que fosse antes de dormir, os pais sentassem à beira da cama e conversassem com os filhos sobre as coisas importantes da vida, aconselhando-os. Legal. Nem sempre possível de colocar em prática, mas bem pertinente o conselho. Se rolar umas quatro vezes por semana, a conversa essa, a beira da cama, já é uma enorme aproximação entre pais e filhos que muitas vezes são pessoas que moram na mesma casa, mas não conseguem estabelecer um diálogo. Mas, embora concordando em tese com esse pai, algo me incomodou.
Início dos anos oitenta. Estou sentada sozinha no chão do quarto que divido com minhas irmãs, manuseando meus poucos e preciosos LPs. A porta de repente se abre de chofre e meu pai me observa com uma feição meio esquisita. Permanece alguns segundos em silêncio e me pergunta o que estou fazendo. – Nada, respondo. É claro que estou fazendo algo importante para uma adolescente, mas essa é a resposta padrão, a que oferece um salvo conduto meio precário, uma vez que estabelecido que você não está fazendo alguma coisa uma tarefa lhe será imediatamente impingida, como secar a louça ou estudar. Ainda assim, é uma resposta que lhe resguarda de ter que começar uma conversa. É boa o bastante.
Mas ele não vai embora, nem me manda fazer algo “de útil”. Observo seu rosto contorcido quando me pergunta já meio exasperado: “você precisa de alguma coisa?!” Ih, definitivamente essa conversa vai render em chateação, então respondo “não”, rapidamente. Agora estou em território minado. Então, num esforço inesperado meu pai atropela uma frase mais ou menos como “Bom, se você precisar falar alguma coisa, pode falar!” e se vai. Enquanto tento compreender o que diabos foi aquilo, decido que o curso de ação mais seguro é ir assistir TV na sala com a família. Nada como adotar a atitude dos demais quando você quer passar despercebida.
Hoje, adulta, é com um misto de carinho e dó que reconheço a angústia de meu pai tentando estabelecer um diálogo com a filha adolescente, se lançando em uma tarefa da qual ele desconhecia as características mais básicas, por nunca tê-las vivenciado. Tendo ficado órfão ainda criança, conhecia muito da vida e sempre foi farto em conselhos, afinal, tinha muito o que contar. Mas não necessariamente abundava em espaço de escuta.
E é isso que me incomoda no aconselhamento à beira da cama preconizado pelo bom pai – como o meu – do blog lido a partir de uma postagem no Twitter. Por isso, ouso um pequeno adendo. Aos pais, nessa conversa, caberia mais ouvir do que falar e reagir com brandura aos pensamentos e acontecimentos apresentados que lhe fossem inesperados e incômodos. Talvez então o aconselhamento pudesse florescer no pantanoso terreno do crescimento, no qual a admoestação dificilmente vinga.
Início dos anos oitenta. Estou sentada sozinha no chão do quarto que divido com minhas irmãs, manuseando meus poucos e preciosos LPs. A porta de repente se abre de chofre e meu pai me observa com uma feição meio esquisita. Permanece alguns segundos em silêncio e me pergunta o que estou fazendo. – Nada, respondo. É claro que estou fazendo algo importante para uma adolescente, mas essa é a resposta padrão, a que oferece um salvo conduto meio precário, uma vez que estabelecido que você não está fazendo alguma coisa uma tarefa lhe será imediatamente impingida, como secar a louça ou estudar. Ainda assim, é uma resposta que lhe resguarda de ter que começar uma conversa. É boa o bastante.
Mas ele não vai embora, nem me manda fazer algo “de útil”. Observo seu rosto contorcido quando me pergunta já meio exasperado: “você precisa de alguma coisa?!” Ih, definitivamente essa conversa vai render em chateação, então respondo “não”, rapidamente. Agora estou em território minado. Então, num esforço inesperado meu pai atropela uma frase mais ou menos como “Bom, se você precisar falar alguma coisa, pode falar!” e se vai. Enquanto tento compreender o que diabos foi aquilo, decido que o curso de ação mais seguro é ir assistir TV na sala com a família. Nada como adotar a atitude dos demais quando você quer passar despercebida.
Hoje, adulta, é com um misto de carinho e dó que reconheço a angústia de meu pai tentando estabelecer um diálogo com a filha adolescente, se lançando em uma tarefa da qual ele desconhecia as características mais básicas, por nunca tê-las vivenciado. Tendo ficado órfão ainda criança, conhecia muito da vida e sempre foi farto em conselhos, afinal, tinha muito o que contar. Mas não necessariamente abundava em espaço de escuta.
E é isso que me incomoda no aconselhamento à beira da cama preconizado pelo bom pai – como o meu – do blog lido a partir de uma postagem no Twitter. Por isso, ouso um pequeno adendo. Aos pais, nessa conversa, caberia mais ouvir do que falar e reagir com brandura aos pensamentos e acontecimentos apresentados que lhe fossem inesperados e incômodos. Talvez então o aconselhamento pudesse florescer no pantanoso terreno do crescimento, no qual a admoestação dificilmente vinga.
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