Escrevo esta coluna na estrada, a caminho da defesa de minha tese de doutorado. Ou seja, depois de defendida e aprovada a tal tese, me torno Doutor (é assim mesmo, sem o “a”, coisas da língua portuguesa. Embora eu prefira Doutora). Doutor em Literatura, no caso, mas não é isso que vem ao caso. A pergunta é, o que muda na minha vida com o título de Doutor? Em que isso me modifica como pessoa?
Um doutorado, um mestrado, uma especialização, uma graduação, ou até a conclusão do Ensino Médio, significam muito para quem os consegue completar, muitas vezes a custa de grande esforço pessoal, e, ao mesmo tempo, não tornam ninguém especial. Parece contraditório, eu sei. De maneira geral as pessoas olham com admiração aqueles que possuem mais diplomas do que elas, que atingiram um nível mais elevado de escolarização, que mostraram ser mais perseverantes em seus estudos. Espera-se que essas pessoas sejam mais esclarecidas, uma vez que mais estudadas, e elas passam a funcionar como formadoras de opinião para determinado grupo. É justo, escolarização é importante e não pretendo aqui defender o contrário, principalmente conhecendo quão poucos são os anos de estudo da população do nosso país. Contudo, há um perigoso atributo de superioridade deferido aos possuidores de titulações como a que estou prestes a receber, do qual abro mão sem qualquer pesar.
Explico. Ao realizar um doutorado (ou mesmo o Ensino Médio, insisto, em certos contextos) o indivíduo possivelmente se confronta com uma série de obstáculos exteriores, como o tempo e o dinheiro a despender – ambos normalmente escassos – as exigências dos professores, a ausência de certos conhecimentos, mas, sobretudo, ele se confronta consigo mesmo. É no encontro e na superação de suas dificuldades pessoais, em sua absoluta maioria de cunho emocional, que se dá a maior das lutas na conclusão de um curso, seja ele chamado “superior” ou não. Frente à tela em branco ou às vésperas da apresentação de um estudo, é comum que a angústia por colocar seu trabalho sob julgamento de terceiros tome o estudante a ponto de paralisá-lo. Alcançar o equilíbrio entre a crença na qualidade de seu trabalho e a humildade de vê-lo criticado, ao mesmo tempo que separa o julgamento dos méritos de seu estudos com o de sua integridade pessoal, é tarefa psiquicamente extenuante.
Não são raras as pessoas que projetam nas palavras proferidas por uma banca o equivalente a salvação ou danação de sua existência como pessoa. Paira na expectativa da nota máxima a outorga de um salvo conduto intelectual que o eleva em relação aos demais. Para quem sente dessa forma, as coisas se complicam. A autoria e a autoridade se confundem e exacerbam e a compreensão de respeito resulta equivocada.
Sempre que alguém realiza algo que desconhecemos nossa tendência é acrescer uma pitada de heroísmo ao feito, por imaginá-lo mais grandioso do que é, ou denegri-lo, por inveja. Daí para considerarmos o autor do feito como superior a nós mesmos e reverenciá-lo ou agredi-lo é um passo, ficando a escolha ao sabor das emoções do admirador. Nada disso vale a pena. Não há superioridade a ser atribuída a quem conclui, por exemplo, um doutorado, salvo em perseverança e em sua área de especialização. E, se for o caso, em sua longa jornada pessoal em busca do “conhece-te a ti mesmo.”
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
quinta-feira, 14 de abril de 2011
terça-feira, 8 de março de 2011
Tempo de Pensar Mal
Incomodada não ficava só a nossa avó, coisa nenhuma. A tensão pré menstrual, chamada TPM, conjuntamente com a menstruação propriamente dita, é uma prova mensal incontestável de que as mulheres e os homens são seres muito diferentes e vivenciam o mundo com base em experiências distintas. Claro que há tantas TPMs quanto há mulheres, nenhuma é idêntica. E é evidente, também, que nossa paciência para piadinhas acerca do assunto tem seus limites, como deve ter limites para os homens a paciência com piadinhas relativas ao exame da próstata. Ri-se na primeira, questiona-se seriamente sobre a possibilidade de ir embora na quinta (Eu, na terceira. Minto. Na segunda.).
Basicamente, a título de generalização hipotética, talvez se possa classificar as TPMs em três tipos. O primeiro seria o agressivo, aquele em que temos raiva das pessoas, pouquíssima paciência para o que não sai precisamente do nosso agrado (e algo sai, nesse período?) e atacamos inclusive a nós mesmas, vendo defeitos monstruosos nos nossos corpos inchados, nas nossas olheiras resultantes do sono agitado por culpa dos hormônios em ebulição e em quase tudo o que fazemos. O segundo seria o tipo sensível, que não necessariamente quer matar ninguém, mas sente como uma agressão qualquer comentário que não seja elogioso. Em casos extremos os comentários elogiosos podem ser compreendidos como ironia. Tendemos às lágrimas, lamentamos nossas escolhas de vida e por vezes acreditamos, sinceramente, que somos um caso perdido.
O terceiro tipo é o que eu chamo de “pensar mal”. Em que pese a presença de certa impaciência e uma sensibilidade um pouco exacerbada, o principal sintoma está no pensamento que vai sempre na pior direção possível. O filho está chegando de viagem e se atrasou? Deve estar envolvido num desastre rodoviário de grandes proporções. Estamos elaborando um projeto novo? Está fadado ao fracasso. Resultados de exames de saúde são abertos com grande ansiedade e lidos procurando-se números perigosos, sem cabeça para comemorar os números bons. Esperamos o pior. O que puder dar errado – ou seja, tudo – dará. Não interessa qual seja a área, o pensamento sempre toma um rumo ruim e parecemos inábeis para controlá-lo, impedir que crie problemas em nossas vidas pela ansiedade de já os experimentarmos em nosso imaginário.
Sei que há mulheres que não experimentam quase nenhum desconforto em termos de TPM e outras que misturam os sintomas acima descritos, sem contar aquelas que sentem dor, muita dor física. Seja como for, para a maioria de nós esse é um mau momento para se tomar grandes decisões e realizar julgamentos definitivos, principalmente sobre questões de nossa intimidade. Durante a menstruação deveríamos ter o direito de nos recolhermos como as mulheres de tempos muito antigos, não por qualquer tipo de impureza absurda que nos fosse imputada, mas para nosso conforto e por carinho conosco mesmas. Deveríamos celebrar nossa saúde e fazer massagens e escalda pés. Compreendo que nossa sociedade, organizada em torno do mundo do trabalho, não comporta tamanho “luxo”. Aliás, não comporta muito bem nem a existência do mênstruo. Conheci faxineiras que me disseram ouvir reclamações por irem muitas vezes ao banheiro trocar o absorvente.
Mas será que não poderíamos ao menos anunciar aos mais próximos, “olha, estou em período pré menstrual, tenho dor, inchaço, pessimismo e quem avisa amigo é”? Ou, pelo menos, algo do gênero “hoje é meu primeiro dia de menstruação e tendo a ficar sentada, ok?”. Diríamos isso sem ser tachadas de incompetentes e sem causar escândalo, que tal? Não? Ah, é que esse assunto é tabu e não pode ser comentado fora dos toaletes a não ser sob a forma de piada. Esqueci. Peço desculpas. Talvez meus pensamentos estejam conturbados.
Basicamente, a título de generalização hipotética, talvez se possa classificar as TPMs em três tipos. O primeiro seria o agressivo, aquele em que temos raiva das pessoas, pouquíssima paciência para o que não sai precisamente do nosso agrado (e algo sai, nesse período?) e atacamos inclusive a nós mesmas, vendo defeitos monstruosos nos nossos corpos inchados, nas nossas olheiras resultantes do sono agitado por culpa dos hormônios em ebulição e em quase tudo o que fazemos. O segundo seria o tipo sensível, que não necessariamente quer matar ninguém, mas sente como uma agressão qualquer comentário que não seja elogioso. Em casos extremos os comentários elogiosos podem ser compreendidos como ironia. Tendemos às lágrimas, lamentamos nossas escolhas de vida e por vezes acreditamos, sinceramente, que somos um caso perdido.
O terceiro tipo é o que eu chamo de “pensar mal”. Em que pese a presença de certa impaciência e uma sensibilidade um pouco exacerbada, o principal sintoma está no pensamento que vai sempre na pior direção possível. O filho está chegando de viagem e se atrasou? Deve estar envolvido num desastre rodoviário de grandes proporções. Estamos elaborando um projeto novo? Está fadado ao fracasso. Resultados de exames de saúde são abertos com grande ansiedade e lidos procurando-se números perigosos, sem cabeça para comemorar os números bons. Esperamos o pior. O que puder dar errado – ou seja, tudo – dará. Não interessa qual seja a área, o pensamento sempre toma um rumo ruim e parecemos inábeis para controlá-lo, impedir que crie problemas em nossas vidas pela ansiedade de já os experimentarmos em nosso imaginário.
Sei que há mulheres que não experimentam quase nenhum desconforto em termos de TPM e outras que misturam os sintomas acima descritos, sem contar aquelas que sentem dor, muita dor física. Seja como for, para a maioria de nós esse é um mau momento para se tomar grandes decisões e realizar julgamentos definitivos, principalmente sobre questões de nossa intimidade. Durante a menstruação deveríamos ter o direito de nos recolhermos como as mulheres de tempos muito antigos, não por qualquer tipo de impureza absurda que nos fosse imputada, mas para nosso conforto e por carinho conosco mesmas. Deveríamos celebrar nossa saúde e fazer massagens e escalda pés. Compreendo que nossa sociedade, organizada em torno do mundo do trabalho, não comporta tamanho “luxo”. Aliás, não comporta muito bem nem a existência do mênstruo. Conheci faxineiras que me disseram ouvir reclamações por irem muitas vezes ao banheiro trocar o absorvente.
Mas será que não poderíamos ao menos anunciar aos mais próximos, “olha, estou em período pré menstrual, tenho dor, inchaço, pessimismo e quem avisa amigo é”? Ou, pelo menos, algo do gênero “hoje é meu primeiro dia de menstruação e tendo a ficar sentada, ok?”. Diríamos isso sem ser tachadas de incompetentes e sem causar escândalo, que tal? Não? Ah, é que esse assunto é tabu e não pode ser comentado fora dos toaletes a não ser sob a forma de piada. Esqueci. Peço desculpas. Talvez meus pensamentos estejam conturbados.
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