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segunda-feira, 30 de julho de 2012
No banheiro
Banheiro feminino de um grande shopping center na capital do estado. Devido ao horário, início de tarde, razoavelmente cheio. Esperando com minha filha a vez de usar um toalete, vou observando as mulheres que coabitam esse espaço conosco durante alguns (longos) minutos e ouvindo suas conversas. Passado pouco tempo me sinto melancólica e desejosa da existência obrigatória de banheiros só para crianças.
Duas moças de terninhos pretos bem cortados vão calçando seus stilettos também pretos, muito altos e elegantes, enquanto guardam suas sapatilhas e tênis em mochilinhas. Em seguida começam por retocar suas pesadas maquiagens com o apuro e a precisão de quem está habituada a fazê-lo com frequência. Na minha imaginação as vejo em seus respectivos ônibus (preconceito?), quase completamente montadas (arrumadas), a caminho do trabalho na loja de grifes na qual permanecerão provavelmente até o fechamento do shopping. Baixo os olhos para meus tênis do tipo Converse e rememoro as tantas vezes em que atendentes com aparência semelhante as dessas moças me avaliaram de cima a baixo já na entrada da loja deixando evidente em seus rostos e atitudes a conclusão de que provavelmente não valeria a pena gastar tempo comigo, no que se refere ao ganho de comissão. Estivesse no lugar delas, pensaria eu da mesma forma? Reconheço que provavelmente estão certas em sua avaliação sobre meus gastos.
No espelho seguinte há outras duas moças, adolescentes provavelmente, jogando o jogo do “meu cabelo está horrível”. Funciona mais ou menos assim: cada uma destrata as qualidades dos seus cabelos numa escalada sem fim, sem nunca admitir que, talvez, o cabelo não esteja tão feio assim e nem o da amiga. É quase um monólogo, só que a dois. Uma loira, cabelos até a cintura, uma morena, cabelos até o meio das costas. Lindos, na minha leiga opinião. Uma vez tendo os cabelos escovados, presos, soltos, arrumados com esmero e feroz desmoralização verbal, lá se vão elas porta a fora balançando as madeixas.
O jogo “meu cabelo está horrível” tem um concorrente muito forte, que é o “estou gorda” ou “preciso emagrecer”, ao qual se dedicam duas mulheres na fila a nossa frente e também algumas senhoras que ocupam os últimos espelhos ao final dessa área do toalete. Nesse tipo de ritual auto depreciativo geralmente não há consolo que seja aceito. Dicas de dietas, remédios e afins são bem vindos, mas a sugestão, inclusive utilizada por algumas das senhoras, de que você está bonita é recebida quase como um despropósito, por ouvidos moucos e olhares aprisionados ao espelho. Olhar para a interlocutora, somente via espelho.
No banheiro feminino a estética impera. E é uma estética feroz. Não há espaço para meios termos, para reflexões equilibradas, para aceitações amorosas da imagem refletida. A imagem de uma mulher que já passou por tanta coisa. Que tem tanto ainda por fazer. Vai ver que essa obsessão pela aparência se deve a estarmos no chamado templo do consumo e há que se sair do banheiro ansiando pelas melhorias que estão expostas em cada vitrine, coisas que ainda não possuímos, soluções para nossos egos maltratados. Cremes para os cabelos, cintas para as barrigas, atendentes que nos pressionam a aspirar à aparência de riqueza, está tudo lá. Basta comprar. E continuar comprando. Até encher de amorosidade (ou seria inveja que buscamos?) o vazio que acreditamos estar no olhar de quem nos vê, na verdade reflexo do nosso próprio olhar severo. Mas é mais provável que o limite do cartão de crédito estoure antes que tal vazio possa ser preenchido.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Bias
A pedidos, volto a refletir sobre os jovens e o exercício da sexualidade, dessa vez pensando mais sobre os meninos. Há duas semanas elenquei algumas ideias para conversarmos com nossas filhas, primas, sobrinhas e mesmo amigas na esperança de que nunca venhamos a ser vítimas de abusos sexuais no contexto da balada, onde rola muita bebida, muita droga e muita ansiedade de provar e de se provar.
Sobre a ansiedade na balada, de provar, de experimentar coisas novas, de transcender os limites da regrada vida diurna, de aventurar-se, bem, isso faz parte do esperado pela maioria dos jovens que saem à noite. Se o objetivo fosse ficar confortável, aninhado com um computador ou livro no colo ou em frente a TV, eles ficariam em casa. Mas isso não significa que o baladeiro vá se atirar do alto de um despenhadeiro, metafórica ou literalmente, a não ser nos casos em que a capacidade de preservação de si mesmo esteja fraquejando.
Um dos fatores que complica a equação da experimentação versus autopreservação é a ansiedade de se provar. E nisso, seja por questões culturais, seja pela testosterona correndo nas veias (ou um mix dos dois) os meninos ainda são campeões, embora as meninas pareçam estar cada vez mais ansiosas de se provarem sexualmente desejáveis e ativas. Então, possivelmente a coisa mais importante que eu teria a dizer para um garoto sexualmente ativo e emocionalmente minimamente saudável – ou seja, que não tenha sido agredido no ambiente familiar a ponto de nutrir ódio pelas mulheres – que vai para a balada é: desista de se comparar.
Se a intelectual norte-americana Camille Paglia chegasse a ler esse conselho ela com certeza diria que estou pedindo demais e que se essa ideia fosse levada a sério a roda ainda não teria sido inventada. Compreendo. A competição é fundamental para a ampla maioria dos meninos e inclusive forja laços de amizade, além de ser uma força que faz o mundo girar. No entanto, a roda já foi inventada e o índice de mortalidade dos jovens brasileiros do sexo masculino por causas externas é quatro vezes maior do que o feminino, segundo dados do IBGE, e esse número só tem crescido. Por isso é fundamental educarmos jovens que sejam suficientemente seguros de si a ponto de evitar ciladas onde precisem se machucar e agredir a outros com o objetivo de se provar para os demais do seu grupo.
Todos os excessos, de bebida, de velocidade, de uso de drogas, de sexo sem camisinha e até mesmo sem consentimento, em sua maioria são, salvo casos de psicopatia, resultado de insegurança. Instantâneos de um menino tentando se provar homem, nem que para isso ele renuncie a hombridade e decaia ao nível da selvageria. Os meninos anseiam por atenção. Imaginem, então, a volubilidade de quem sai ao mundo apenas com a meta de vencer, sem parâmetros que não os externos.
Por serem do sexo masculino, e por possuirmos uma visão romantizada das capacidades inatas dos homens, muitas vezes esperamos que os meninos compreendam a vida sozinhos e pouco conversamos com eles sobre quais são as premissas básicas do respeito por si e pelos outros. Tampouco abundam diálogos sobre sexualidade para além do discurso sobre o uso da camisinha como, por exemplo, perceber se uma relação é saudável ou não. Ou sobre o direito de não se sentir constrangido a ter uma relação sexual apenas por que alguém está dando mole ou para se provar aos demais. Há um perigoso bias quando se trata de educar os meninos sobre comportamentos que a família julga adequados e sobre o que se espera dele como jovem sexualmente ativo.
Raramente explicitamos aos nossos filhos o que compreendemos como o comportamento de um homem honrado na sua vida privada, apenas no campo do trabalho. Depois nos assustamos ao descobrirmos que um profissional bem sucedido e no qual confiamos é um desequilibrado no ambiente familiar. Será que acreditamos que apenas às meninas a construção desses parâmetros se faz necessária?
Sobre a ansiedade na balada, de provar, de experimentar coisas novas, de transcender os limites da regrada vida diurna, de aventurar-se, bem, isso faz parte do esperado pela maioria dos jovens que saem à noite. Se o objetivo fosse ficar confortável, aninhado com um computador ou livro no colo ou em frente a TV, eles ficariam em casa. Mas isso não significa que o baladeiro vá se atirar do alto de um despenhadeiro, metafórica ou literalmente, a não ser nos casos em que a capacidade de preservação de si mesmo esteja fraquejando.
Um dos fatores que complica a equação da experimentação versus autopreservação é a ansiedade de se provar. E nisso, seja por questões culturais, seja pela testosterona correndo nas veias (ou um mix dos dois) os meninos ainda são campeões, embora as meninas pareçam estar cada vez mais ansiosas de se provarem sexualmente desejáveis e ativas. Então, possivelmente a coisa mais importante que eu teria a dizer para um garoto sexualmente ativo e emocionalmente minimamente saudável – ou seja, que não tenha sido agredido no ambiente familiar a ponto de nutrir ódio pelas mulheres – que vai para a balada é: desista de se comparar.
Se a intelectual norte-americana Camille Paglia chegasse a ler esse conselho ela com certeza diria que estou pedindo demais e que se essa ideia fosse levada a sério a roda ainda não teria sido inventada. Compreendo. A competição é fundamental para a ampla maioria dos meninos e inclusive forja laços de amizade, além de ser uma força que faz o mundo girar. No entanto, a roda já foi inventada e o índice de mortalidade dos jovens brasileiros do sexo masculino por causas externas é quatro vezes maior do que o feminino, segundo dados do IBGE, e esse número só tem crescido. Por isso é fundamental educarmos jovens que sejam suficientemente seguros de si a ponto de evitar ciladas onde precisem se machucar e agredir a outros com o objetivo de se provar para os demais do seu grupo.
Todos os excessos, de bebida, de velocidade, de uso de drogas, de sexo sem camisinha e até mesmo sem consentimento, em sua maioria são, salvo casos de psicopatia, resultado de insegurança. Instantâneos de um menino tentando se provar homem, nem que para isso ele renuncie a hombridade e decaia ao nível da selvageria. Os meninos anseiam por atenção. Imaginem, então, a volubilidade de quem sai ao mundo apenas com a meta de vencer, sem parâmetros que não os externos.
Por serem do sexo masculino, e por possuirmos uma visão romantizada das capacidades inatas dos homens, muitas vezes esperamos que os meninos compreendam a vida sozinhos e pouco conversamos com eles sobre quais são as premissas básicas do respeito por si e pelos outros. Tampouco abundam diálogos sobre sexualidade para além do discurso sobre o uso da camisinha como, por exemplo, perceber se uma relação é saudável ou não. Ou sobre o direito de não se sentir constrangido a ter uma relação sexual apenas por que alguém está dando mole ou para se provar aos demais. Há um perigoso bias quando se trata de educar os meninos sobre comportamentos que a família julga adequados e sobre o que se espera dele como jovem sexualmente ativo.
Raramente explicitamos aos nossos filhos o que compreendemos como o comportamento de um homem honrado na sua vida privada, apenas no campo do trabalho. Depois nos assustamos ao descobrirmos que um profissional bem sucedido e no qual confiamos é um desequilibrado no ambiente familiar. Será que acreditamos que apenas às meninas a construção desses parâmetros se faz necessária?
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Amar a Barbie
Depois de anos torcendo o nariz para as bonecas Barbie recentemente vivi meu momento “I love Barbie” e foi muito sincero. A bonequinha – ou pelo menos uma de suas versões – ganhou meu coração. Quem me viu e quem me vê.
A Barbie deve ser a boneca mais amada e a mais odiada do planeta. A absoluta maioria das meninas a ama e projeta nela seus sonhos de ser uma mulher adulta, lindíssima, louríssima e poderosa. Não sendo nenhuma super-heroína, fica claro que seu poder emana da beleza e do dinheiro que a boneca ostenta, ou seja, o sonho de toda e qualquer mulher nos dias que correm, onde a visão de liberdade talvez seja mais cínica e, precisamente por isso, bastante pragmática. Beleza e dinheiro oferecem, sim, um tipo de liberdade a qual poucas mulheres têm acesso. Isso explica o sucesso da Barbie também entre jovens adultas que, embora não comprem as bonecas, consomem bolsas e sapatos com o perfil da marca estampado. A logo de um sonho materialista de poder feminino.
Mas a rainha das bonecas na categoria perua também enfrentou muitos detratores ao longo de sua glamorosa carreira e os petardos contra ela não são leves. Um pouco de reflexão por parte dos pais se faz necessária. Há estudos afirmando que a imagem de perfeição projetada pela boneca prejudica a auto imagem das meninas, colocando-as em risco ao buscarem um ideal de feminilidade impossível de ser alcançado. Suas roupas são muitas vezes inapropriadas, sua apresentação excessivamente sexualizada e o apelo ao consumo é constante nos acessórios e brinquedos que acompanham a boneca. Atento às críticas, o fabricante lançou linhas onde a apresenta como uma bem sucedida profissional adulta (Barbie arquiteta, por exemplo) que possivelmente trabalha para seu sustento, adequadamente trajada. Lançou filmes também, nos quais ela geralmente é uma boa moça que se torna a heroína defensora dos mais fracos. Nem por isso o modelo “casamento dos sonhos” com o parrudo (e “carrãozudo”) Ken foi retirado de circulação. Amor perfeito também faz parte do pacote da mulher bem sucedida. Estão aí as revistas femininas para comprovar que pouca pressão é bobagem na construção do ideal de mulher da contemporaneidade.
Mas como é que fui me afeiçoar pela Barbie, então? Aconteceu na abertura do filme Vida de Sereia, no qual a bonequinha é surfista. Depois de uma noite e um dia inteiro de febre, apatia e irritação, eis que a filha se ergue de um salto colocando-se em pé no sofá onde esteve deitada com a cabeça no meu colo, abre os braços e se equilibra em sua prancha de surfe imaginária, cantando empolgadamente – e imaginariamente no que tange à letra em inglês – a música da cena. Ela dança, ela ginga, balança os cabelos ao sabor de um suposto vento, os olhos grudados na televisão. Canta e vive a cena até o final, quando então se deita novamente, sorrindo. Se alguém mais estivesse na sala teria ouvido essa mãe murmurar “eu te amo, Barbie”, de todo o coração.
A Barbie deve ser a boneca mais amada e a mais odiada do planeta. A absoluta maioria das meninas a ama e projeta nela seus sonhos de ser uma mulher adulta, lindíssima, louríssima e poderosa. Não sendo nenhuma super-heroína, fica claro que seu poder emana da beleza e do dinheiro que a boneca ostenta, ou seja, o sonho de toda e qualquer mulher nos dias que correm, onde a visão de liberdade talvez seja mais cínica e, precisamente por isso, bastante pragmática. Beleza e dinheiro oferecem, sim, um tipo de liberdade a qual poucas mulheres têm acesso. Isso explica o sucesso da Barbie também entre jovens adultas que, embora não comprem as bonecas, consomem bolsas e sapatos com o perfil da marca estampado. A logo de um sonho materialista de poder feminino.
Mas a rainha das bonecas na categoria perua também enfrentou muitos detratores ao longo de sua glamorosa carreira e os petardos contra ela não são leves. Um pouco de reflexão por parte dos pais se faz necessária. Há estudos afirmando que a imagem de perfeição projetada pela boneca prejudica a auto imagem das meninas, colocando-as em risco ao buscarem um ideal de feminilidade impossível de ser alcançado. Suas roupas são muitas vezes inapropriadas, sua apresentação excessivamente sexualizada e o apelo ao consumo é constante nos acessórios e brinquedos que acompanham a boneca. Atento às críticas, o fabricante lançou linhas onde a apresenta como uma bem sucedida profissional adulta (Barbie arquiteta, por exemplo) que possivelmente trabalha para seu sustento, adequadamente trajada. Lançou filmes também, nos quais ela geralmente é uma boa moça que se torna a heroína defensora dos mais fracos. Nem por isso o modelo “casamento dos sonhos” com o parrudo (e “carrãozudo”) Ken foi retirado de circulação. Amor perfeito também faz parte do pacote da mulher bem sucedida. Estão aí as revistas femininas para comprovar que pouca pressão é bobagem na construção do ideal de mulher da contemporaneidade.
Mas como é que fui me afeiçoar pela Barbie, então? Aconteceu na abertura do filme Vida de Sereia, no qual a bonequinha é surfista. Depois de uma noite e um dia inteiro de febre, apatia e irritação, eis que a filha se ergue de um salto colocando-se em pé no sofá onde esteve deitada com a cabeça no meu colo, abre os braços e se equilibra em sua prancha de surfe imaginária, cantando empolgadamente – e imaginariamente no que tange à letra em inglês – a música da cena. Ela dança, ela ginga, balança os cabelos ao sabor de um suposto vento, os olhos grudados na televisão. Canta e vive a cena até o final, quando então se deita novamente, sorrindo. Se alguém mais estivesse na sala teria ouvido essa mãe murmurar “eu te amo, Barbie”, de todo o coração.
terça-feira, 3 de maio de 2011
À deriva
Quando olhei meu rosto no retrovisor fiquei chocada. Era segunda-feira de manhã e eu estava observando o portão da garagem fechando-se atrás de mim, ou seja, começava ali um dia cheio de tarefas. Eu saía para o mundo. E não havia no meu rosto nem um pingo de maquiagem. Nem sequer protetor solar. Um gloss. Nada.
Eles não teriam como entender a minha dor. Mas a culpa era deles, eu tinha certeza. Os dois tinham horários a cumprir, compromissos fora de casa. A uma me cabia levá-la ao seu compromisso, lá permanecer e trazê-la de volta. Ao outro era preciso que eu retirasse meu carro para que o dele pudesse sair. (Há dias em que suspeito, não, tenho quase certeza, que as garagens são projetadas por arquitetos e engenheiros sádicos que planejam semear o mau humor e a discórdia entre as famílias.)
De olho neles, nos horários deles, nas roupas deles (afinal, ela eu precisava ajudar a vestir-se e mesmo ele me pediu ajuda com os botões da gola da camisa), eu sai sem me maquiar. Não que eu me maquie de verdade, nem sei bem como fazer isso, mas um rímel, um protetor solar, um gloss, por favor. São os segundos de um carinho mínimo para consigo mesma no espelho. Você declara para si “meus olhos ainda são bonitos”, ou seja o que for que você diga que ofereça à imagem no espelho um pequeno sorriso imediatamente retribuído e voilà, aí está um alento à segunda-feira que se inicia.
Não, saí sem meu pequeno encontro íntimo. A mente em todo lugar, menos em mim. A culpa só podia ser deles, desses que queremos em nossas vidas acima de tudo, mas, se possível, com um controle remoto. Ou um botãozinho escrito Pause, se não for pedir muito.
A autoestima de uma mulher também é feita de pequenos gestos dela para consigo mesma, gestos íntimos que não nos devem faltar. São pequenas bóias flutuando na correnteza dos afazeres diários. Como passar um rímel nos olhos que ainda amamos.
Felizmente havia um batom na bolsa. Recorri a ele e me maldisse pela incapacidade de carregar uma nécessaire com maquiagem básica na bolsa, além de outros itens “basiquinhos”. Jurei montar uma ainda hoje. Será que me lembro? Será que me permito esse coletinho salva-vidas no rio que navego? Ou opto pelo afogamento? Ou ainda, pior, talvez me regozije em atirar toras em frágeis embarcações alheias que trafegam pelo mesmo rio.
Eles não teriam como entender a minha dor. Mas a culpa era deles, eu tinha certeza. Os dois tinham horários a cumprir, compromissos fora de casa. A uma me cabia levá-la ao seu compromisso, lá permanecer e trazê-la de volta. Ao outro era preciso que eu retirasse meu carro para que o dele pudesse sair. (Há dias em que suspeito, não, tenho quase certeza, que as garagens são projetadas por arquitetos e engenheiros sádicos que planejam semear o mau humor e a discórdia entre as famílias.)
De olho neles, nos horários deles, nas roupas deles (afinal, ela eu precisava ajudar a vestir-se e mesmo ele me pediu ajuda com os botões da gola da camisa), eu sai sem me maquiar. Não que eu me maquie de verdade, nem sei bem como fazer isso, mas um rímel, um protetor solar, um gloss, por favor. São os segundos de um carinho mínimo para consigo mesma no espelho. Você declara para si “meus olhos ainda são bonitos”, ou seja o que for que você diga que ofereça à imagem no espelho um pequeno sorriso imediatamente retribuído e voilà, aí está um alento à segunda-feira que se inicia.
Não, saí sem meu pequeno encontro íntimo. A mente em todo lugar, menos em mim. A culpa só podia ser deles, desses que queremos em nossas vidas acima de tudo, mas, se possível, com um controle remoto. Ou um botãozinho escrito Pause, se não for pedir muito.
A autoestima de uma mulher também é feita de pequenos gestos dela para consigo mesma, gestos íntimos que não nos devem faltar. São pequenas bóias flutuando na correnteza dos afazeres diários. Como passar um rímel nos olhos que ainda amamos.
Felizmente havia um batom na bolsa. Recorri a ele e me maldisse pela incapacidade de carregar uma nécessaire com maquiagem básica na bolsa, além de outros itens “basiquinhos”. Jurei montar uma ainda hoje. Será que me lembro? Será que me permito esse coletinho salva-vidas no rio que navego? Ou opto pelo afogamento? Ou ainda, pior, talvez me regozije em atirar toras em frágeis embarcações alheias que trafegam pelo mesmo rio.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Daquilo que conhece um doutor
Escrevo esta coluna na estrada, a caminho da defesa de minha tese de doutorado. Ou seja, depois de defendida e aprovada a tal tese, me torno Doutor (é assim mesmo, sem o “a”, coisas da língua portuguesa. Embora eu prefira Doutora). Doutor em Literatura, no caso, mas não é isso que vem ao caso. A pergunta é, o que muda na minha vida com o título de Doutor? Em que isso me modifica como pessoa?
Um doutorado, um mestrado, uma especialização, uma graduação, ou até a conclusão do Ensino Médio, significam muito para quem os consegue completar, muitas vezes a custa de grande esforço pessoal, e, ao mesmo tempo, não tornam ninguém especial. Parece contraditório, eu sei. De maneira geral as pessoas olham com admiração aqueles que possuem mais diplomas do que elas, que atingiram um nível mais elevado de escolarização, que mostraram ser mais perseverantes em seus estudos. Espera-se que essas pessoas sejam mais esclarecidas, uma vez que mais estudadas, e elas passam a funcionar como formadoras de opinião para determinado grupo. É justo, escolarização é importante e não pretendo aqui defender o contrário, principalmente conhecendo quão poucos são os anos de estudo da população do nosso país. Contudo, há um perigoso atributo de superioridade deferido aos possuidores de titulações como a que estou prestes a receber, do qual abro mão sem qualquer pesar.
Explico. Ao realizar um doutorado (ou mesmo o Ensino Médio, insisto, em certos contextos) o indivíduo possivelmente se confronta com uma série de obstáculos exteriores, como o tempo e o dinheiro a despender – ambos normalmente escassos – as exigências dos professores, a ausência de certos conhecimentos, mas, sobretudo, ele se confronta consigo mesmo. É no encontro e na superação de suas dificuldades pessoais, em sua absoluta maioria de cunho emocional, que se dá a maior das lutas na conclusão de um curso, seja ele chamado “superior” ou não. Frente à tela em branco ou às vésperas da apresentação de um estudo, é comum que a angústia por colocar seu trabalho sob julgamento de terceiros tome o estudante a ponto de paralisá-lo. Alcançar o equilíbrio entre a crença na qualidade de seu trabalho e a humildade de vê-lo criticado, ao mesmo tempo que separa o julgamento dos méritos de seu estudos com o de sua integridade pessoal, é tarefa psiquicamente extenuante.
Não são raras as pessoas que projetam nas palavras proferidas por uma banca o equivalente a salvação ou danação de sua existência como pessoa. Paira na expectativa da nota máxima a outorga de um salvo conduto intelectual que o eleva em relação aos demais. Para quem sente dessa forma, as coisas se complicam. A autoria e a autoridade se confundem e exacerbam e a compreensão de respeito resulta equivocada.
Sempre que alguém realiza algo que desconhecemos nossa tendência é acrescer uma pitada de heroísmo ao feito, por imaginá-lo mais grandioso do que é, ou denegri-lo, por inveja. Daí para considerarmos o autor do feito como superior a nós mesmos e reverenciá-lo ou agredi-lo é um passo, ficando a escolha ao sabor das emoções do admirador. Nada disso vale a pena. Não há superioridade a ser atribuída a quem conclui, por exemplo, um doutorado, salvo em perseverança e em sua área de especialização. E, se for o caso, em sua longa jornada pessoal em busca do “conhece-te a ti mesmo.”
Um doutorado, um mestrado, uma especialização, uma graduação, ou até a conclusão do Ensino Médio, significam muito para quem os consegue completar, muitas vezes a custa de grande esforço pessoal, e, ao mesmo tempo, não tornam ninguém especial. Parece contraditório, eu sei. De maneira geral as pessoas olham com admiração aqueles que possuem mais diplomas do que elas, que atingiram um nível mais elevado de escolarização, que mostraram ser mais perseverantes em seus estudos. Espera-se que essas pessoas sejam mais esclarecidas, uma vez que mais estudadas, e elas passam a funcionar como formadoras de opinião para determinado grupo. É justo, escolarização é importante e não pretendo aqui defender o contrário, principalmente conhecendo quão poucos são os anos de estudo da população do nosso país. Contudo, há um perigoso atributo de superioridade deferido aos possuidores de titulações como a que estou prestes a receber, do qual abro mão sem qualquer pesar.
Explico. Ao realizar um doutorado (ou mesmo o Ensino Médio, insisto, em certos contextos) o indivíduo possivelmente se confronta com uma série de obstáculos exteriores, como o tempo e o dinheiro a despender – ambos normalmente escassos – as exigências dos professores, a ausência de certos conhecimentos, mas, sobretudo, ele se confronta consigo mesmo. É no encontro e na superação de suas dificuldades pessoais, em sua absoluta maioria de cunho emocional, que se dá a maior das lutas na conclusão de um curso, seja ele chamado “superior” ou não. Frente à tela em branco ou às vésperas da apresentação de um estudo, é comum que a angústia por colocar seu trabalho sob julgamento de terceiros tome o estudante a ponto de paralisá-lo. Alcançar o equilíbrio entre a crença na qualidade de seu trabalho e a humildade de vê-lo criticado, ao mesmo tempo que separa o julgamento dos méritos de seu estudos com o de sua integridade pessoal, é tarefa psiquicamente extenuante.
Não são raras as pessoas que projetam nas palavras proferidas por uma banca o equivalente a salvação ou danação de sua existência como pessoa. Paira na expectativa da nota máxima a outorga de um salvo conduto intelectual que o eleva em relação aos demais. Para quem sente dessa forma, as coisas se complicam. A autoria e a autoridade se confundem e exacerbam e a compreensão de respeito resulta equivocada.
Sempre que alguém realiza algo que desconhecemos nossa tendência é acrescer uma pitada de heroísmo ao feito, por imaginá-lo mais grandioso do que é, ou denegri-lo, por inveja. Daí para considerarmos o autor do feito como superior a nós mesmos e reverenciá-lo ou agredi-lo é um passo, ficando a escolha ao sabor das emoções do admirador. Nada disso vale a pena. Não há superioridade a ser atribuída a quem conclui, por exemplo, um doutorado, salvo em perseverança e em sua área de especialização. E, se for o caso, em sua longa jornada pessoal em busca do “conhece-te a ti mesmo.”
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Qualquer amor
“Qualquer maneira de amor vale aquela, qualquer maneira de amor vale amar, qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor valerá”. A gente cantava junto com o Milton Nascimento nos LPs de adolescência ou sozinhas nas rodinhas de violão. A música se chama Paula e Bebeto. Acreditávamos muito, por isso cantávamos tão empolgadas. Hoje me pergunto, será mesmo? Será que qualquer maneira de amor vale a pena? Acho que não. Há muitas maneiras pelas quais não vale amar.
Não vale amar sem ser amado, por exemplo. Ou até vale, afinal é possível nutrir carinho por uma pessoa com a qual você não vai estar pelas mais diversas razões, distâncias de toda ordem, contanto que isso não atrapalhe sua vida. Principalmente sua vida amorosa. Mas não vale a pena – e a palavra é essa mesmo, pena, de punição, de sofrimento – amar quem te desama. Talvez desamar soe meio esdrúxulo, mas gostaria de propor a palavra assim mesmo. Porque acho que há uma grande diferença entre não ter o amor correspondido e ser desamado por alguém.
Não se pode forçar ninguém a corresponder ao amor e quem já foi objeto de uma afeição que não encontrou ressonância em si mesmo sabe como é delicada essa situação. E sabe de como é importante retirar-se, não alimentar o sofrimento do apaixonado, permitir que a pessoa faça seu luto. Quem apostou num amor que não vai virar romance precisará redirecionar suas energias, apaziguar esse afeto que já ia se esparramando por dentro dele.
No entanto há os que não correspondem ao amor oferecido, mas tampouco se retiram da cena. Ficam inebriados pelo poder que exercem sobre o apaixonado e se utilizam desse para fins pessoais que em nada incluem as necessidades daquele que ama. Precisam de um “estepe” num fim de semana em que os outros “pneus” não rodaram? Lá vai o apaixonado acreditando estar recebendo afeição verdadeira, se expor aos sabores dos ventos do objeto de sua afeição. Desamam o apaixonado, alienam-no. Chegam mesmo a sentir pena da situação dele, mas não o libertam e podem submetê-lo a situações abusivas. Quanto mais “amam” a si mesmos, ou seja, quanto maior seu egocentrismo e sua conseqüente falta de empatia, mais desamam seu fiel amante.
Contudo, diz a sabedoria já popularizada que ninguém liberta ninguém, a liberdade é uma construção interna. Então porque se submete ao desamor, aquele que ama? Será que é porque lhe sobra tanto amor assim pelo outro, a ponto de se submeter a abusos, ou será que é porque lhe falta amor por si mesmo, esse que é a argamassa da construção da liberdade interior? Talvez não consiga olhar para si próprio, esse que ama ser desamado. Talvez dependa integralmente do olhar exterior para saber-se existindo, ainda que esse olhar seja de desamor. Quando não há um olhar interno que nos sustente, qualquer outro exterior vale.
O afeto por alguém com quem não se viverá uma história de amor não precisa desaparecer completamente, muito menos virar em ódio, conseqüência provável e amarga da vivência do desamor. Um pote até aqui de mágoa. Esse sentimento precisa é se modificar, ser só um carinho que fica lá, nalgum lugar quentinho da memória afetiva. Quentinho e por vezes doloridinho, admitamos, mas não uma câmara de tortura no andar mais quente do inferno. Acho que isso não é amor.
Não vale amar sem ser amado, por exemplo. Ou até vale, afinal é possível nutrir carinho por uma pessoa com a qual você não vai estar pelas mais diversas razões, distâncias de toda ordem, contanto que isso não atrapalhe sua vida. Principalmente sua vida amorosa. Mas não vale a pena – e a palavra é essa mesmo, pena, de punição, de sofrimento – amar quem te desama. Talvez desamar soe meio esdrúxulo, mas gostaria de propor a palavra assim mesmo. Porque acho que há uma grande diferença entre não ter o amor correspondido e ser desamado por alguém.
Não se pode forçar ninguém a corresponder ao amor e quem já foi objeto de uma afeição que não encontrou ressonância em si mesmo sabe como é delicada essa situação. E sabe de como é importante retirar-se, não alimentar o sofrimento do apaixonado, permitir que a pessoa faça seu luto. Quem apostou num amor que não vai virar romance precisará redirecionar suas energias, apaziguar esse afeto que já ia se esparramando por dentro dele.
No entanto há os que não correspondem ao amor oferecido, mas tampouco se retiram da cena. Ficam inebriados pelo poder que exercem sobre o apaixonado e se utilizam desse para fins pessoais que em nada incluem as necessidades daquele que ama. Precisam de um “estepe” num fim de semana em que os outros “pneus” não rodaram? Lá vai o apaixonado acreditando estar recebendo afeição verdadeira, se expor aos sabores dos ventos do objeto de sua afeição. Desamam o apaixonado, alienam-no. Chegam mesmo a sentir pena da situação dele, mas não o libertam e podem submetê-lo a situações abusivas. Quanto mais “amam” a si mesmos, ou seja, quanto maior seu egocentrismo e sua conseqüente falta de empatia, mais desamam seu fiel amante.
Contudo, diz a sabedoria já popularizada que ninguém liberta ninguém, a liberdade é uma construção interna. Então porque se submete ao desamor, aquele que ama? Será que é porque lhe sobra tanto amor assim pelo outro, a ponto de se submeter a abusos, ou será que é porque lhe falta amor por si mesmo, esse que é a argamassa da construção da liberdade interior? Talvez não consiga olhar para si próprio, esse que ama ser desamado. Talvez dependa integralmente do olhar exterior para saber-se existindo, ainda que esse olhar seja de desamor. Quando não há um olhar interno que nos sustente, qualquer outro exterior vale.
O afeto por alguém com quem não se viverá uma história de amor não precisa desaparecer completamente, muito menos virar em ódio, conseqüência provável e amarga da vivência do desamor. Um pote até aqui de mágoa. Esse sentimento precisa é se modificar, ser só um carinho que fica lá, nalgum lugar quentinho da memória afetiva. Quentinho e por vezes doloridinho, admitamos, mas não uma câmara de tortura no andar mais quente do inferno. Acho que isso não é amor.
sábado, 24 de julho de 2010
A mãe estóica
Não tenho a intenção de menosprezar as mães que são donas de casa. De jeito nenhum. É um trabalho insano, fundamental para o funcionamento da unidade familiar, em especial nas famílias que não tem como pagar uma empregada doméstica, e muito raramente reconhecido de verdade. Geladeira de presente no Dia das Mães, para mim, é piada de muito mau gosto. Faço “campanha” para que as famílias de classe média percebam a importância de se recolher o INSS para a mãe dona de casa de forma que ela possa vir a se aposentar um dia, depois de muitos anos trabalhando sem nenhuma remuneração. Acho que deve ser justamente em virtude da pouca valorização do seu trabalho que algumas mães insistem em buscar o reconhecimento do seu sacrifício junto aos familiares, na base da chantagem. Chamo esse fenômeno de “A mãe estóica”, me apropriando do sentido vulgar da palavra estoicismo, de não temor ao sofrimento. Sei que é meio redundante porque ser mãe e dona de casa de mangas arregaçadas requer um bocado de estoicismo, se compreendido como busca da virtude. Mas desse barco chamado estóico, para o chamado masoquista, para o chantagista, os pulos são pequenos no rio da frustração e os sofrimentos acabam por alcançar o mar. Tudo fica contaminado.
A titulo de exemplificação pensemos no famoso doce gaúcho chamado chimia ao qual só tínhamos acesso na infância se alguém da família se dispusesse a fazê-lo. Dá um trabalhão danado, especialmente se for de figo. Então, se alguém deseja fazer tachos de chimia além de todas as outras tarefas domésticas que lhe cabem, que faça porque gosta, por terapia, por diversão, pelo desafio do novo, mas não por obrigação. Afinal, há chimia pronta no supermercado, ainda por cima com muita variedade. Provavelmente mais barata do que a feita em casa, se somados inclusive o fator mão-de-obra, que infelizmente não é pago. Não faça chimia porque acha que é seu dever, porque na verdade não acredita que tenha direito a umas horas na poltrona em frente a TV e depois fique reclamando com os filhos e o marido que está com as mãos queimadas de mexer no tacho. Conheço cenas de tachos de chimia onde fervem mágoas de anos de não reconhecimento mais tarde espalhadas no pão nosso de cada dia dos familiares. As fatias engolidas com a culpa mal mastigada.
Há quem queira quarar roupa (e no inverno!) porque não se conforma enquanto o branco não ficar bem branquinho mesmo? Está bem, é um direito que assiste a quem curte o “branco mais branco”. Lembre-se apenas que esse é um prazer seu e bastante solitário, ok? Vai ser difícil emplacar essa conversa com os outros membros da família – “Olha só como esse lençol clareou depois de quarar!” – e eles acompanharem com o mesmo grau de entusiasmo que você. Seu filho adolescente possivelmente não vai nem prestar atenção se a camiseta está mais branca ou mais amarelada. Não espere que ele lhe agradeça pelo alvor de seu uniforme escolar. Essa é uma necessidade sua. Não exija de suas filhas que a imitem. A escolha de pegar o caminho mais complicado para lavar as roupas, colocar comida na mesa, limpar a casa, acompanhar os familiares em suas demandas, é, na verdade, bastante pessoal.
Nem estoicistas nem hedonistas, o bom mesmo seria que as mães e donas de casa pudessem criar espaços de conforto para si mesmas nos seus cotidianos atribulados de muito trabalho incluindo a possibilidade de poder, na velhice, encontrar a sua espera uma remuneração e alguma garantia de descanso.
A titulo de exemplificação pensemos no famoso doce gaúcho chamado chimia ao qual só tínhamos acesso na infância se alguém da família se dispusesse a fazê-lo. Dá um trabalhão danado, especialmente se for de figo. Então, se alguém deseja fazer tachos de chimia além de todas as outras tarefas domésticas que lhe cabem, que faça porque gosta, por terapia, por diversão, pelo desafio do novo, mas não por obrigação. Afinal, há chimia pronta no supermercado, ainda por cima com muita variedade. Provavelmente mais barata do que a feita em casa, se somados inclusive o fator mão-de-obra, que infelizmente não é pago. Não faça chimia porque acha que é seu dever, porque na verdade não acredita que tenha direito a umas horas na poltrona em frente a TV e depois fique reclamando com os filhos e o marido que está com as mãos queimadas de mexer no tacho. Conheço cenas de tachos de chimia onde fervem mágoas de anos de não reconhecimento mais tarde espalhadas no pão nosso de cada dia dos familiares. As fatias engolidas com a culpa mal mastigada.
Há quem queira quarar roupa (e no inverno!) porque não se conforma enquanto o branco não ficar bem branquinho mesmo? Está bem, é um direito que assiste a quem curte o “branco mais branco”. Lembre-se apenas que esse é um prazer seu e bastante solitário, ok? Vai ser difícil emplacar essa conversa com os outros membros da família – “Olha só como esse lençol clareou depois de quarar!” – e eles acompanharem com o mesmo grau de entusiasmo que você. Seu filho adolescente possivelmente não vai nem prestar atenção se a camiseta está mais branca ou mais amarelada. Não espere que ele lhe agradeça pelo alvor de seu uniforme escolar. Essa é uma necessidade sua. Não exija de suas filhas que a imitem. A escolha de pegar o caminho mais complicado para lavar as roupas, colocar comida na mesa, limpar a casa, acompanhar os familiares em suas demandas, é, na verdade, bastante pessoal.
Nem estoicistas nem hedonistas, o bom mesmo seria que as mães e donas de casa pudessem criar espaços de conforto para si mesmas nos seus cotidianos atribulados de muito trabalho incluindo a possibilidade de poder, na velhice, encontrar a sua espera uma remuneração e alguma garantia de descanso.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Nada a temer
Antigamente, mas não muito antigamente, as pessoas acreditavam que não se devia pronunciar a palavra câncer. Dizia-se “aquela doença”, temia-se que a invocação do nome trouxesse a “coisa ruim” para junto de quem a pronunciou. A mesma coisa ocorria – e ainda ocorre – com o vocábulo Diabo. Há até um produto utilizado para desentupir ralos e pias chamado Diabo Verde, cujo nome uma senhora que limpava a minha casa se recusava a falar. Da primeira vez eu custei um pouco para saber o que estava acontecendo, depois entendi e respeitei, mesmo achando que é ignorância atribuir a uma palavra poderes extras além da idéia que aquele conjunto de letras e sons representam. No entanto, compreendo que é justamente por representar idéias que as palavras impactam as pessoas com tanta força e é o imaginário de cada um que as torna positivas, negativas ou inócuas.
Fico triste ao perceber que feminismo é uma palavra que não anda com boa conotação no imaginário das classes médias. É uma pena. Devemos ao feminismo – um movimento que modificou o imaginário e, por isso, o mundo – muitos dos direitos que nós mulheres ocidentais desfrutamos, como o de sermos indivíduos com características próprias de nosso gênero e com aspirações outras que não necessariamente as mesmas que aquelas do sexo masculino sem que, em virtude dessa diferença, nossos Direitos Humanos possam ser de alguma forma pisoteados.
Nas rodinhas de amigos, contudo, se você se declara feminista o pessoal fica meio cabreiro. Temem discursos inflamados, rancores contra o masculino, recalques pessoais jogados na mesa de jantar. Acredito, sinceramente, que não há o que temer e que essa época de catarse das emoções aprisionadas já passou há muito tempo. Mas o feminismo, esse questionador do lugar e das necessidades das mulheres na sociedade, ainda tem muito que fazer.
Tomemos o caso de Eliza Samudio, por exemplo, que teve um filho com Bruno, o goleiro do Flamengo que está sendo investigado como provável mandante de seu assassinato. “Maria Chuteira”, acusam-na, como se o fato de manter relações com jogadores de futebol com vistas a ascensão social justificasse o crime cometido contra ela. Bruno, que ganha salários que seriam incompatíveis com a importância de sua atividade se vivêssemos numa sociedade saudável, desfruta da posição de herói popular nos meios que freqüenta. Muitos torcem sinceramente pela sua libertação, da mesma forma que outros torceram por Polanksi, o genial diretor de cinema que estuprou, aos 43 anos de idade, uma menina de 13. As chamadas celebridades, acreditam seus pares e admiradores, estão acima da sociedade e, portanto, das regras nela existentes para a proteção de mulheres e crianças, dentre outras.
Uma das tarefas mais importantes do feminismo no mundo atual está na educação de mulheres de todas as classes sociais para que compreendam em profundidade que não é aceitável serem agredidas verbal, física ou psicologicamente. Que entendam que um empurrão, um xingamento, uma ameaça, não é admissível. Que o não acesso aos bens da família, ao dinheiro do dia-a-dia, não está correto. Que uma adulta não deveria precisar de permissão para ir e vir, pois é direito garantido constitucionalmente a todos. Que as decisões nas famílias devem ser negociadas e que sexo não é moeda de troca fora dos círculos de prostituição. Essas mulheres educadas e conhecedoras de seus desejos são as que modificarão o estado das coisas, inclusive na forma de criar seus filhos e filhas. Uma vez tendo seus horizontes ampliados e sabendo-se detentoras de direitos, compreenderão que não reside em “Brunos” suas possibilidades de uma existência digna. Quando as mulheres detêm poder sobre suas próprias vidas a sociedade se eleva, os valores progridem e os “Brunos” do mundo são colocados em seus devidos lugares de importância. Por isso, caros leitores e leitoras, não há o que temer do feminismo. Certo?
Fico triste ao perceber que feminismo é uma palavra que não anda com boa conotação no imaginário das classes médias. É uma pena. Devemos ao feminismo – um movimento que modificou o imaginário e, por isso, o mundo – muitos dos direitos que nós mulheres ocidentais desfrutamos, como o de sermos indivíduos com características próprias de nosso gênero e com aspirações outras que não necessariamente as mesmas que aquelas do sexo masculino sem que, em virtude dessa diferença, nossos Direitos Humanos possam ser de alguma forma pisoteados.
Nas rodinhas de amigos, contudo, se você se declara feminista o pessoal fica meio cabreiro. Temem discursos inflamados, rancores contra o masculino, recalques pessoais jogados na mesa de jantar. Acredito, sinceramente, que não há o que temer e que essa época de catarse das emoções aprisionadas já passou há muito tempo. Mas o feminismo, esse questionador do lugar e das necessidades das mulheres na sociedade, ainda tem muito que fazer.
Tomemos o caso de Eliza Samudio, por exemplo, que teve um filho com Bruno, o goleiro do Flamengo que está sendo investigado como provável mandante de seu assassinato. “Maria Chuteira”, acusam-na, como se o fato de manter relações com jogadores de futebol com vistas a ascensão social justificasse o crime cometido contra ela. Bruno, que ganha salários que seriam incompatíveis com a importância de sua atividade se vivêssemos numa sociedade saudável, desfruta da posição de herói popular nos meios que freqüenta. Muitos torcem sinceramente pela sua libertação, da mesma forma que outros torceram por Polanksi, o genial diretor de cinema que estuprou, aos 43 anos de idade, uma menina de 13. As chamadas celebridades, acreditam seus pares e admiradores, estão acima da sociedade e, portanto, das regras nela existentes para a proteção de mulheres e crianças, dentre outras.
Uma das tarefas mais importantes do feminismo no mundo atual está na educação de mulheres de todas as classes sociais para que compreendam em profundidade que não é aceitável serem agredidas verbal, física ou psicologicamente. Que entendam que um empurrão, um xingamento, uma ameaça, não é admissível. Que o não acesso aos bens da família, ao dinheiro do dia-a-dia, não está correto. Que uma adulta não deveria precisar de permissão para ir e vir, pois é direito garantido constitucionalmente a todos. Que as decisões nas famílias devem ser negociadas e que sexo não é moeda de troca fora dos círculos de prostituição. Essas mulheres educadas e conhecedoras de seus desejos são as que modificarão o estado das coisas, inclusive na forma de criar seus filhos e filhas. Uma vez tendo seus horizontes ampliados e sabendo-se detentoras de direitos, compreenderão que não reside em “Brunos” suas possibilidades de uma existência digna. Quando as mulheres detêm poder sobre suas próprias vidas a sociedade se eleva, os valores progridem e os “Brunos” do mundo são colocados em seus devidos lugares de importância. Por isso, caros leitores e leitoras, não há o que temer do feminismo. Certo?
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Laços de família
Se você cresceu em uma família de hierarquia perene, como eu, não deixe de ler O clube do filme de David Gilmour (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009). Por hierarquia perene eu me refiro aquelas famílias, como a minha, em que não importa a idade que você tenha sempre será considerado "uma criança" para os pais. Claro que no caso da minha família, tendo inclusive meu pai já falecido, essa hierarquia se evaporou por conta das necessidades da vida e da morte. Mas, naqueles tempos a vida nas famílias era assim. “Você sempre será uma criança aos meus olhos” é uma frase que muita gente já ouviu. Isso parece muito bonito para ser dito, mas, na prática não é tão bonito nem constrói muito a auto-estima. Pode, inclusive, ser um pouco perverso.
Crescer em ambientes onde seu (inevitável) crescimento é negado é como se esgueirar por uma fresta. Primeiro você tem que achar a fresta, depois se metamorfosear em algo kafkiano para poder passar pela fresta. Uma vez do lado de lá, você estará sozinho para encher seu balão/ego, que se encontrará um tanto quanto murcho e possivelmente um bocado culpado por ter fugido às normas familiares, aos contratos não ditos, mas em plena vigência, que explicitam aquilo que a família espera de você. Sustentar-se bem em suas próprias pernas de adulto pode ser um trabalho de uma vida inteira.
No relacionamento entre pai e filho no tal livro as coisas são diferentes. O pai não é nenhum gênio da pedagogia, a bem da verdade, não é nenhum gênio de nada. Parece, inclusive, por vezes um cara bastante atrapalhado com questões "obrigatórias" do mundo masculino adulto, como sustentar a própria família. Mas o olhar que ele tem para esse filho é raro. É um olhar cheio de amor e cheio de espaço, criando um local em seu afeto onde o filho pode crescer, mais do que isso, onde ele espera e deseja que o filho cresça, se torne homem, e ele seja "derrotado". Ou seja, nesse relacionamento espera-se que a vida tome seu curso normal e as pessoas não sejam obrigadas a permanecer na posição de escada para que o mundo de outro (pais, mães, irmãos, esposos) não se desmorone.
Um trechinho da sabedoria desse pai: "Definitivamente as coisas estavam mudando entre nós dois. Eu sabia que, ao final do caminho, não muito longe, haveria um confronto e eu sairia perdendo. Exatamente como aconteceu com todos os outros pais na história." Acrescentaria eu: estejam eles cientes dessa mudança, ou não. A leitura é linda e incrivelmente atual porque, acreditem, não são muitos os pais que têm essa clareza, não importa o quão estudados sejamos.
Crescer em ambientes onde seu (inevitável) crescimento é negado é como se esgueirar por uma fresta. Primeiro você tem que achar a fresta, depois se metamorfosear em algo kafkiano para poder passar pela fresta. Uma vez do lado de lá, você estará sozinho para encher seu balão/ego, que se encontrará um tanto quanto murcho e possivelmente um bocado culpado por ter fugido às normas familiares, aos contratos não ditos, mas em plena vigência, que explicitam aquilo que a família espera de você. Sustentar-se bem em suas próprias pernas de adulto pode ser um trabalho de uma vida inteira.
No relacionamento entre pai e filho no tal livro as coisas são diferentes. O pai não é nenhum gênio da pedagogia, a bem da verdade, não é nenhum gênio de nada. Parece, inclusive, por vezes um cara bastante atrapalhado com questões "obrigatórias" do mundo masculino adulto, como sustentar a própria família. Mas o olhar que ele tem para esse filho é raro. É um olhar cheio de amor e cheio de espaço, criando um local em seu afeto onde o filho pode crescer, mais do que isso, onde ele espera e deseja que o filho cresça, se torne homem, e ele seja "derrotado". Ou seja, nesse relacionamento espera-se que a vida tome seu curso normal e as pessoas não sejam obrigadas a permanecer na posição de escada para que o mundo de outro (pais, mães, irmãos, esposos) não se desmorone.
Um trechinho da sabedoria desse pai: "Definitivamente as coisas estavam mudando entre nós dois. Eu sabia que, ao final do caminho, não muito longe, haveria um confronto e eu sairia perdendo. Exatamente como aconteceu com todos os outros pais na história." Acrescentaria eu: estejam eles cientes dessa mudança, ou não. A leitura é linda e incrivelmente atual porque, acreditem, não são muitos os pais que têm essa clareza, não importa o quão estudados sejamos.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Aqui está uma tradução livre de minha parte. Trata-se de um excelente artigo do psicólogo norte-americano Michael Thompson, que concedeu a devida permissão para essa versão em português.
A CIVILIZAÇÃO EMPÁTICA: OS MENINOS SÃO A CHAVE PARA UM FUTURO DE EMPATIA
Michael Thompson, Ph. D.
Como psicólogo de crianças, está claro para mim que a rota mais rápida para uma civilização mais empática é fazer cessar o espancamento, o sarcasmo e outras formas de mágoa infligidas aos meninos quando eles são pequenos. Garotos oriundos de ambientes traumatizantes com pais brutais podem crescer para se tornarem tiranos e assassinos – pense em Adolf Hitler e Slobodan Milosevic da Sérvia – ao passo que aqueles que foram criados com apoio emocional certamente não o serão. Precisamos criar meninos amados e amáveis que têm a capacidade de crescer para se tornarem líderes empáticos e companheiros. Em todas as culturas, se queremos mudar o mundo rapidamente, nossa melhor opção é criar meninos emocionalmente alfabetizados que valorizam a compreensão. Pais e professores bem intencionados com freqüência me dizem que estão tentando criar homens “sensíveis” ou “não-violentos” que possam reconhecer seu lado “feminino” e que venham a crescer em condições de “respeitar as mulheres”. Contudo, esses esforços para criar garotos sensíveis podem ser contraproducentes. Quando perguntei a uma professora de segunda série o motivo de ela ter proibido as brincadeiras de luta durante o intervalo, bem como a chamada “escrita violenta” em sala de aula, ela me disse: “porque eu não quero que um dos meus meninos venha a se tornar presidente quando crescer e decida invadir o Iraque.” Compreendo o sentimento dela, mas seu ponto de vista é parcial e nada científico. As brincadeiras infantis não levam à violência do mundo adulto. Eu sei que os meninos na aula dela percebem que ela vê a eles e a sua escrita como sendo potencialmente perigosos. Isso não é bom para eles. Nós temos que compreender a maneira como os garotos aprendem. Eles são, em média, mais ativos fisicamente que as meninas, mais impulsivos e competitivos, mais interessados em escrever histórias de conflito e morte, mais propensos a trabalhar duro quando cercados por grupos de meninos. Abordagens punitivas na criação de meninos não funcionam. Pais que batem em seus filhos do sexo masculino em casa apenas produzem meninos obedientes que chegam à escola prontos para usar a agressão física contra os seus pares.
Um relatório da Associação Americana de Psicologia demonstrou que a adoção de políticas de tolerância zero nas escolas não mudou o comportamento dos meninos, apenas os distanciou das mesmas. Punir os meninos constantemente retirando seus intervalos ou proibindo os seus jogos, também não funciona. Forçar os garotos a sempre cooperar e nunca competir em aula apenas os faz sentir que a escola não foi feita para eles. Se os meninos se sentem cronicamente mal compreendidos, se sofrem interferências constantes em sua forma de brincar, eles simplesmente seguem seu caminho, desistindo da escola ou se alienando dos valores do mundo adulto. Eles passam a procurar, fora da escola, experiências significativas para a afirmação de si mesmos como garotos fortes e homens saudáveis. Para muitos garotos isso significa idolatrar o líder da gangue local, o atleta popular embora anti-social, o pai abusivo. Minha experiência como psicólogo para uma escola apenas para garotos e como consultor para ambos os tipos – escolas para ambos os gêneros ou somente para meninos – me ensinou algumas importantes lições sobre o que os meninos precisam. Os meninos estão sempre famintos por modelos masculinos responsáveis e por mulheres que realmente “saquem” como eles são. Os meninos estão sempre procurando rotas que os levem a ser homens adultos respeitáveis, admirados por seus professores de ambos os sexos. Na infância, os meninos choram mais e são mais vulneráveis a perturbações em seu elo com as mães do que as meninas. Muitos deles expressam ansiedade através da raiva e do distanciamento. Precisamos compreender que a raiva dos meninos pequenos é, frequentemente, uma manifestação de medo e ansiedade.
No nível Fundamental, nas escolas, precisamos compreender que os meninos são extraordinariamente suscetíveis à vergonha. O arco de desenvolvimento dos meninos é diferente – e mais lento – do que o arco das meninas. Não devemos comparar constantemente os meninos, desfavoravelmente a estes, com as meninas ou fazer do comportamento destas o padrão ouro das escolas. Durante toda a infância, precisamos que os homens apresentem comportamentos que sirvam de modelo para os meninos como cuidadores e precisamos oferecer aos garotos a chance de cuidar de crianças mais novas.
Tom Lickona, o autor de Educando para o Caráter, disse que todas as crianças precisam querer o bem, conhecer o bem e praticar o bem. Eu acredito que dar aos meninos a chance de cuidar de crianças mais novas – praticando o bem – pode ser o mais importante passo individual no sentido de auxiliá-los no desenvolvimento da empatia. Se nós percebemos os rapazes adolescentes como sendo perigosos ou molestadores em potencial, se nós só damos a eles válvulas de escape competitivas, nunca estaremos lhes oferecendo a chance de desenvolverem sua empatia em potencial. Finalmente, na adolescência devemos ir ao encontro dos anseios morais e espirituais dos garotos. Se há uma lição para ser aprendida nas atividades violentas, terroristas de rapazes em todo o mundo, é a de que homens jovens estão sempre em busca de significado, mesmo que de formas terríveis. Se nós traumatizarmos os meninos, iremos produzir homens violentos. Se não oferecermos aos rapazes rituais significativos que façam sua passagem da meninice à vida adulta, eles inventarão suas próprias e cruéis formas de iniciação. Se apenas procurarmos controlá-los e não nos comunicarmos com suas almas, eles nos retribuirão com violência. Os meninos precisam experienciar a empatia quando são jovens, eles precisam aprender a reconhecer um comportamento empático e precisam praticá-lo.
A antropóloga Margaret Mead uma vez expressou sua admiração pelas sociedades que criam seus filhos para serem “bons pais”. Eu concordo com ela. Se nós continuarmos perseverando no objetivo de criar bons pais, os melhores instintos dos meninos serão transmitidos de geração para geração.
Publicado originalmente no Huffington Post em 3 de março de 2010. http://www.huffingtonpost.com/michael-thompson-phd/the-empathic-civilization_b_483068.html
Site do autor: http://www.michaelthompson-phd.com/
A CIVILIZAÇÃO EMPÁTICA: OS MENINOS SÃO A CHAVE PARA UM FUTURO DE EMPATIA
Michael Thompson, Ph. D.
Como psicólogo de crianças, está claro para mim que a rota mais rápida para uma civilização mais empática é fazer cessar o espancamento, o sarcasmo e outras formas de mágoa infligidas aos meninos quando eles são pequenos. Garotos oriundos de ambientes traumatizantes com pais brutais podem crescer para se tornarem tiranos e assassinos – pense em Adolf Hitler e Slobodan Milosevic da Sérvia – ao passo que aqueles que foram criados com apoio emocional certamente não o serão. Precisamos criar meninos amados e amáveis que têm a capacidade de crescer para se tornarem líderes empáticos e companheiros. Em todas as culturas, se queremos mudar o mundo rapidamente, nossa melhor opção é criar meninos emocionalmente alfabetizados que valorizam a compreensão. Pais e professores bem intencionados com freqüência me dizem que estão tentando criar homens “sensíveis” ou “não-violentos” que possam reconhecer seu lado “feminino” e que venham a crescer em condições de “respeitar as mulheres”. Contudo, esses esforços para criar garotos sensíveis podem ser contraproducentes. Quando perguntei a uma professora de segunda série o motivo de ela ter proibido as brincadeiras de luta durante o intervalo, bem como a chamada “escrita violenta” em sala de aula, ela me disse: “porque eu não quero que um dos meus meninos venha a se tornar presidente quando crescer e decida invadir o Iraque.” Compreendo o sentimento dela, mas seu ponto de vista é parcial e nada científico. As brincadeiras infantis não levam à violência do mundo adulto. Eu sei que os meninos na aula dela percebem que ela vê a eles e a sua escrita como sendo potencialmente perigosos. Isso não é bom para eles. Nós temos que compreender a maneira como os garotos aprendem. Eles são, em média, mais ativos fisicamente que as meninas, mais impulsivos e competitivos, mais interessados em escrever histórias de conflito e morte, mais propensos a trabalhar duro quando cercados por grupos de meninos. Abordagens punitivas na criação de meninos não funcionam. Pais que batem em seus filhos do sexo masculino em casa apenas produzem meninos obedientes que chegam à escola prontos para usar a agressão física contra os seus pares.
Um relatório da Associação Americana de Psicologia demonstrou que a adoção de políticas de tolerância zero nas escolas não mudou o comportamento dos meninos, apenas os distanciou das mesmas. Punir os meninos constantemente retirando seus intervalos ou proibindo os seus jogos, também não funciona. Forçar os garotos a sempre cooperar e nunca competir em aula apenas os faz sentir que a escola não foi feita para eles. Se os meninos se sentem cronicamente mal compreendidos, se sofrem interferências constantes em sua forma de brincar, eles simplesmente seguem seu caminho, desistindo da escola ou se alienando dos valores do mundo adulto. Eles passam a procurar, fora da escola, experiências significativas para a afirmação de si mesmos como garotos fortes e homens saudáveis. Para muitos garotos isso significa idolatrar o líder da gangue local, o atleta popular embora anti-social, o pai abusivo. Minha experiência como psicólogo para uma escola apenas para garotos e como consultor para ambos os tipos – escolas para ambos os gêneros ou somente para meninos – me ensinou algumas importantes lições sobre o que os meninos precisam. Os meninos estão sempre famintos por modelos masculinos responsáveis e por mulheres que realmente “saquem” como eles são. Os meninos estão sempre procurando rotas que os levem a ser homens adultos respeitáveis, admirados por seus professores de ambos os sexos. Na infância, os meninos choram mais e são mais vulneráveis a perturbações em seu elo com as mães do que as meninas. Muitos deles expressam ansiedade através da raiva e do distanciamento. Precisamos compreender que a raiva dos meninos pequenos é, frequentemente, uma manifestação de medo e ansiedade.
No nível Fundamental, nas escolas, precisamos compreender que os meninos são extraordinariamente suscetíveis à vergonha. O arco de desenvolvimento dos meninos é diferente – e mais lento – do que o arco das meninas. Não devemos comparar constantemente os meninos, desfavoravelmente a estes, com as meninas ou fazer do comportamento destas o padrão ouro das escolas. Durante toda a infância, precisamos que os homens apresentem comportamentos que sirvam de modelo para os meninos como cuidadores e precisamos oferecer aos garotos a chance de cuidar de crianças mais novas.
Tom Lickona, o autor de Educando para o Caráter, disse que todas as crianças precisam querer o bem, conhecer o bem e praticar o bem. Eu acredito que dar aos meninos a chance de cuidar de crianças mais novas – praticando o bem – pode ser o mais importante passo individual no sentido de auxiliá-los no desenvolvimento da empatia. Se nós percebemos os rapazes adolescentes como sendo perigosos ou molestadores em potencial, se nós só damos a eles válvulas de escape competitivas, nunca estaremos lhes oferecendo a chance de desenvolverem sua empatia em potencial. Finalmente, na adolescência devemos ir ao encontro dos anseios morais e espirituais dos garotos. Se há uma lição para ser aprendida nas atividades violentas, terroristas de rapazes em todo o mundo, é a de que homens jovens estão sempre em busca de significado, mesmo que de formas terríveis. Se nós traumatizarmos os meninos, iremos produzir homens violentos. Se não oferecermos aos rapazes rituais significativos que façam sua passagem da meninice à vida adulta, eles inventarão suas próprias e cruéis formas de iniciação. Se apenas procurarmos controlá-los e não nos comunicarmos com suas almas, eles nos retribuirão com violência. Os meninos precisam experienciar a empatia quando são jovens, eles precisam aprender a reconhecer um comportamento empático e precisam praticá-lo.
A antropóloga Margaret Mead uma vez expressou sua admiração pelas sociedades que criam seus filhos para serem “bons pais”. Eu concordo com ela. Se nós continuarmos perseverando no objetivo de criar bons pais, os melhores instintos dos meninos serão transmitidos de geração para geração.
Publicado originalmente no Huffington Post em 3 de março de 2010. http://www.huffingtonpost.com/michael-thompson-phd/the-empathic-civilization_b_483068.html
Site do autor: http://www.michaelthompson-phd.com/
sábado, 20 de março de 2010
Esquadrão da Moda
“O que não vestir” é a tradução mais literal de um famoso programa britânico de aconselhamento sobre moda e estilo, criado pelas politicamente incorretas Susannah Constantine e Trinny Woodall. No melhor estilo “prende e arrebenta” as apresentadoras enfiavam o pé na porta dos guarda-roupas – e também no afeto – de mulheres que precisavam de um banho de loja e estilo, com urgência. Mas eram engraçadas e o programa sempre acabava com um final feliz. A versão norte-americana ficou a cargo de Clinton Kelly e Stacy London, mordazes, mas mais atentos aos sentimentos – e possíveis processos juduciais – de seus convidados. Assisti muitos episódios de ambos os programas no canal pago People & Arts e aprendi alguma pouca coisa (pouca, mesmo), que venho mui humildemente, compartilhar. Como, graças aos deuses todos, nenhum dos apresentadores vem a minha casa para me dar uma mãozinha com as roupas, resolvi dar uma “olhada” crítica no meu biotipo e no closet no melhor estilo Trinny e Susannah: vestindo as coisas, arrancando do corpo e jogando no chão!
No decurso dessa minha investigação, acabei levantando questionamentos interessantes (e possíveis argumentações idiotas), que listo a seguir:
1) Ainda vou USAR isso?
Para início de conversa, essa é a única pergunta que existe. Todas as demais são derivadas dela. Agora, se no último ano você não esteve grávida, vivendo em outro país de clima diferente, e nada mais dramático ocorreu em sua rotina (você era lutadora de sumô, mas agora é uma alta executiva de alguma multinacional) e, mesmo assim, há um ano não veste a tal peça, a resposta, provavelmente, é NÃO. Veja bem, não estou perguntando se a tal roupa lhe cai bem, a pergunta é se você vai usar. Segunda-feira. Não se você vai usar um dia, quando for mais gorda, mais magra, mais velha, parecer mais nova, for mais alta ou finalmente tomar coragem de usar botas brancas e um colant de oncinha na rua. A pergunta é: Existe alguma possibilidade de eu sair vestida com essa roupa nessa segunda-feira? Se a resposta não for positiva, é melhor que a roupa vá para a pilha no chão. A segunda pergunta é:
2) Eu quero SER VISTA usando isso?
Porque não adianta você gostar da bota branca, se você não vai usá-la. Com exceção de algum aparato de fetiche (que também deveria ser usado na ocasião apropriada), as nossas roupas são para serem usadas em público. Se você guarda há muito tempo coisas que não tem coragem de vestir para sair na rua, talvez venha a se sentir melhor tomando uma decisão a respeito de quem você é e do que você gosta. Aí, danem-se a Trinny e a Susannah, as regras sobre o bem-vestir e o seu super-ego.
A partir da resposta a essas duas simples perguntinhas, vêm todas as armadilhas que a gente se coloca pra impedir que certas representações de si mesma possam ir para a pilha.
Uma das melhores é a da reforminha. Essa peça só precisa de uma reforminha. Você tem o hábito de ir a costureiras, tem uma costureira de confiança, você mesma reforma as suas roupas? Maravilha! Então é só pôr a peça num lugar bem incômodo, tipo em cima da tampa do vaso do banheiro, e não procrastinar a reforma. Caso contrário você só está mudando a peça de lugar e arrumando mais uma coisa na (já bem longa) lista de coisas a serem feitas, ou seja, mais um peso na consciência.
Outra muito comum é a do preço da roupa. Custou os olhos da cara, porque é da marca Xish, e então não pode ser dada. É um casaco de tweed com renda nos punhos e bordado em pérolas, com ombreiras que fazem desaparecer o pescoço em um passe de mágica, mas não se pode dá-lo para alguém pobre se aquecer, porque custou caro. E pobre não pode se aquecer com roupa cara. Todo mundo sabe que faz mal para eles. Eles inclusive se importam muito com a marca da roupa, quando estão deitados sob papelões. Algumas pessoas dizem: “é um pecado dar uma roupa tão cara!” Vai ver que é. Eu nunca entendi bem a noção de pecado.
Tem também a esperança de que a moda volte. E volte exatamente como era! Que releitura, que nada! Se você tivesse guardado todos aqueles tamancos de madeira dos anos setenta teria poupado o maior dinheiro! Em sapatos, talvez. Mas o “médico das varizes” com certeza aprovaria mais os modernos, feitos de material mais leve e bem mais confortáveis. Admitamos que não dá para guardar tudo. E pode ser que a moda até volte, mas demore uns vinte anos e as coisas que guardamos não nos sentem mais ou nem nos caibam! E a gente não vai parar de comprar sapatos porque estamos guardando os velhos para quando a moda voltar. Só vai ficar tudo mal estocado, o que já tira um bocado do prazer.
Mas a pior armadilha é o tal valor emocional da roupa. Está bem, eu admito que guardei o par de sapatos da minha formatura. Mas não dá para guardar o passado todo no closet. Nem sei se é saudável. Algumas coisas são guardadas por sentimento de culpa. Essas devem ser as primeiras a ir para a pilha. A gente nem precisa se preocupar muito, o nosso passado não nos abandona assim, no mais. Segunda-feira ele está lá, na batalha, junto com a gente. Mas a roupa provavelmente não, então... empilha no chão! Há aquela roupa ou calçado maravilhoso, no qual você se achava linda, mas que você quase nem usou e agora está démodé, ou não serve direito, e você tem pena de dar. Bom, eu decidi que o testemunho da minha falta de auto-estima não deve ficar no meu guarda-roupa. Que me sirva de lição vê-lo ali, na pilha. Por quê? Vai me dizer que não é falta de auto-estima não ter usado uma roupa na qual você se achava lindíssima?!
As pessoas são diferentes e vai ver que sou uma das poucas mulheres que conheço cujos hábitos neuróticos proporcionariam um enfrentamento desses com seu closet. Mas há tempos entendi que não adianta guardar roupas para o caixão, seja qual for o estilo de vestir que se tenha. Dos enfrentamentos que podemos ter conosco esse é dos mais divertidos. Caso haja algo nesse relato com o qual você se identifique, recomendo a experiência, pois faz bem para outros e, com bom humor, para você também! :)
Artigo publicado no jornal O Nacional em 21/03/2010
No decurso dessa minha investigação, acabei levantando questionamentos interessantes (e possíveis argumentações idiotas), que listo a seguir:
1) Ainda vou USAR isso?
Para início de conversa, essa é a única pergunta que existe. Todas as demais são derivadas dela. Agora, se no último ano você não esteve grávida, vivendo em outro país de clima diferente, e nada mais dramático ocorreu em sua rotina (você era lutadora de sumô, mas agora é uma alta executiva de alguma multinacional) e, mesmo assim, há um ano não veste a tal peça, a resposta, provavelmente, é NÃO. Veja bem, não estou perguntando se a tal roupa lhe cai bem, a pergunta é se você vai usar. Segunda-feira. Não se você vai usar um dia, quando for mais gorda, mais magra, mais velha, parecer mais nova, for mais alta ou finalmente tomar coragem de usar botas brancas e um colant de oncinha na rua. A pergunta é: Existe alguma possibilidade de eu sair vestida com essa roupa nessa segunda-feira? Se a resposta não for positiva, é melhor que a roupa vá para a pilha no chão. A segunda pergunta é:
2) Eu quero SER VISTA usando isso?
Porque não adianta você gostar da bota branca, se você não vai usá-la. Com exceção de algum aparato de fetiche (que também deveria ser usado na ocasião apropriada), as nossas roupas são para serem usadas em público. Se você guarda há muito tempo coisas que não tem coragem de vestir para sair na rua, talvez venha a se sentir melhor tomando uma decisão a respeito de quem você é e do que você gosta. Aí, danem-se a Trinny e a Susannah, as regras sobre o bem-vestir e o seu super-ego.
A partir da resposta a essas duas simples perguntinhas, vêm todas as armadilhas que a gente se coloca pra impedir que certas representações de si mesma possam ir para a pilha.
Uma das melhores é a da reforminha. Essa peça só precisa de uma reforminha. Você tem o hábito de ir a costureiras, tem uma costureira de confiança, você mesma reforma as suas roupas? Maravilha! Então é só pôr a peça num lugar bem incômodo, tipo em cima da tampa do vaso do banheiro, e não procrastinar a reforma. Caso contrário você só está mudando a peça de lugar e arrumando mais uma coisa na (já bem longa) lista de coisas a serem feitas, ou seja, mais um peso na consciência.
Outra muito comum é a do preço da roupa. Custou os olhos da cara, porque é da marca Xish, e então não pode ser dada. É um casaco de tweed com renda nos punhos e bordado em pérolas, com ombreiras que fazem desaparecer o pescoço em um passe de mágica, mas não se pode dá-lo para alguém pobre se aquecer, porque custou caro. E pobre não pode se aquecer com roupa cara. Todo mundo sabe que faz mal para eles. Eles inclusive se importam muito com a marca da roupa, quando estão deitados sob papelões. Algumas pessoas dizem: “é um pecado dar uma roupa tão cara!” Vai ver que é. Eu nunca entendi bem a noção de pecado.
Tem também a esperança de que a moda volte. E volte exatamente como era! Que releitura, que nada! Se você tivesse guardado todos aqueles tamancos de madeira dos anos setenta teria poupado o maior dinheiro! Em sapatos, talvez. Mas o “médico das varizes” com certeza aprovaria mais os modernos, feitos de material mais leve e bem mais confortáveis. Admitamos que não dá para guardar tudo. E pode ser que a moda até volte, mas demore uns vinte anos e as coisas que guardamos não nos sentem mais ou nem nos caibam! E a gente não vai parar de comprar sapatos porque estamos guardando os velhos para quando a moda voltar. Só vai ficar tudo mal estocado, o que já tira um bocado do prazer.
Mas a pior armadilha é o tal valor emocional da roupa. Está bem, eu admito que guardei o par de sapatos da minha formatura. Mas não dá para guardar o passado todo no closet. Nem sei se é saudável. Algumas coisas são guardadas por sentimento de culpa. Essas devem ser as primeiras a ir para a pilha. A gente nem precisa se preocupar muito, o nosso passado não nos abandona assim, no mais. Segunda-feira ele está lá, na batalha, junto com a gente. Mas a roupa provavelmente não, então... empilha no chão! Há aquela roupa ou calçado maravilhoso, no qual você se achava linda, mas que você quase nem usou e agora está démodé, ou não serve direito, e você tem pena de dar. Bom, eu decidi que o testemunho da minha falta de auto-estima não deve ficar no meu guarda-roupa. Que me sirva de lição vê-lo ali, na pilha. Por quê? Vai me dizer que não é falta de auto-estima não ter usado uma roupa na qual você se achava lindíssima?!
As pessoas são diferentes e vai ver que sou uma das poucas mulheres que conheço cujos hábitos neuróticos proporcionariam um enfrentamento desses com seu closet. Mas há tempos entendi que não adianta guardar roupas para o caixão, seja qual for o estilo de vestir que se tenha. Dos enfrentamentos que podemos ter conosco esse é dos mais divertidos. Caso haja algo nesse relato com o qual você se identifique, recomendo a experiência, pois faz bem para outros e, com bom humor, para você também! :)
Artigo publicado no jornal O Nacional em 21/03/2010
quarta-feira, 17 de março de 2010
Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho
“Fulana está muito bem, noiva de um médico!”. Era o que eu costumava ouvir as tias falarem quando queriam dizer das realizações das filhas. Namorando firme um “doutor” também era uma variante do mesmo tema que enchia de orgulho as senhoras daquele tempo. Mas isso era antigamente, quando eu era pequena e as pressões sobre a existência feminina e o altar eram imensas, certo? Mais ou menos. Parece-me que as exigências sociais para que as mulheres – e os homens, também – se adéqüem a padrões generalistas e reducionistas não saiu completamente da pauta.
A coisa começa se você está namorando alguém há algum tempo e as perguntas de quando vai ser o casamento ou se estão pensando em morar juntos se tornam inevitáveis nas reuniões de família. Caso venham a se casar, no Natal seguinte você ouvirá algumas piadinhas e também perguntas diretas acerca de para quando você está planejando engravidar. Não espere demais, lhe dizem, de forma bem-intencionada. Okay, você se casou, tem um filho e pensa que não há mais nenhuma exigência pública nessa área. Talvez reclamem que você ainda não plantou uma árvore ou escreveu um livro. Mas aí começa a pressão pelo segundo filho. “Só vão ter esse?!” as pessoas perguntam espantadas e lhe contam histórias terríveis sobre solidão e velhice. É possível que alguém puxe a arenga da necessidade de ter uma menina, para que essa ampare os pais idosos. Quando ouço isso me pergunto se as obrigações femininas já vêm tatuadas invisivelmente na nossa pele quando nascemos e também por que não conseguimos (será mesmo?) criar filhos homens suficientemente íntimos e empáticos para com suas famílias.
Uma amiga que aparentemente teria completado o checklist da felicidade familiar aos olhos dos outros – isto é, casamento e dois filhos, um menino e uma menina – uma vez me disse que ainda lhe exigem mais um acréscimo familiar: um cachorro. Ou seja, se não estiver idêntica a propaganda do banco tal, nossa foto ainda não está boa! Esse tipo de pressão é muito chata, para usar um adjetivo suave, porque, definitivamente, ainda há muitas mulheres e homens respondendo a ela. E, na vida real, existem mulheres que acalantam a idéia de ter um companheiro de vida mas não querem, necessariamente, se casar. E muitos casais não querem ter filhos, o que é perfeitamente normal, pois existem muitas vantagens em não tê-los, e tê-los, sem querê-los, é de uma irresponsabilidade que beira a crueldade. Isso vale também para os cachorros.
Não existe receita de felicidade do tipo tamanho único: uma peça veste a todos os corpos. Existe, isso sim, muitas revistas femininas com receitas de onde encontrar a felicidade e um mito de família perfeita que perpassa o imaginário coletivo. Esse mito é particularmente danoso para as mulheres porque nele somos mães de família inigualáveis, profissionais bem sucedidas, amantes ardorosas, bem vestidas, bem penteadas, corpos esculpidos, posamos ao lado de filhos e marido sorridentes e enormes cachorros que nem cabem nos apartamentos modernos. Click. É só uma imagem. Quando se apaga o flash cada um sai para um lado. Talvez a mulher more sozinha e vá para a balada com as amigas. Talvez ele seja casado e não queira ter filhos, prefira a liberdade de viajar para lugares distantes sempre que possível. As crianças talvez morem com os avós, ou com a nova família do pai e o cachorro possivelmente volte para o canil de seu criador, que o aluga para peças publicitárias. E não necessariamente essas são cenas de infelicidade, incompletude e solidão. Deve haver tantas possibilidades de viver bem quanto existam pessoas na face da terra. Que cada um possa construir a sua, inclusive sem culpa por não plantar uma árvore em tempos ecologicamente corretos e sem se sentir ignorante por não escrever um livro.
Artigo publicado no jornal O Nacional em 14/03/2010
A coisa começa se você está namorando alguém há algum tempo e as perguntas de quando vai ser o casamento ou se estão pensando em morar juntos se tornam inevitáveis nas reuniões de família. Caso venham a se casar, no Natal seguinte você ouvirá algumas piadinhas e também perguntas diretas acerca de para quando você está planejando engravidar. Não espere demais, lhe dizem, de forma bem-intencionada. Okay, você se casou, tem um filho e pensa que não há mais nenhuma exigência pública nessa área. Talvez reclamem que você ainda não plantou uma árvore ou escreveu um livro. Mas aí começa a pressão pelo segundo filho. “Só vão ter esse?!” as pessoas perguntam espantadas e lhe contam histórias terríveis sobre solidão e velhice. É possível que alguém puxe a arenga da necessidade de ter uma menina, para que essa ampare os pais idosos. Quando ouço isso me pergunto se as obrigações femininas já vêm tatuadas invisivelmente na nossa pele quando nascemos e também por que não conseguimos (será mesmo?) criar filhos homens suficientemente íntimos e empáticos para com suas famílias.
Uma amiga que aparentemente teria completado o checklist da felicidade familiar aos olhos dos outros – isto é, casamento e dois filhos, um menino e uma menina – uma vez me disse que ainda lhe exigem mais um acréscimo familiar: um cachorro. Ou seja, se não estiver idêntica a propaganda do banco tal, nossa foto ainda não está boa! Esse tipo de pressão é muito chata, para usar um adjetivo suave, porque, definitivamente, ainda há muitas mulheres e homens respondendo a ela. E, na vida real, existem mulheres que acalantam a idéia de ter um companheiro de vida mas não querem, necessariamente, se casar. E muitos casais não querem ter filhos, o que é perfeitamente normal, pois existem muitas vantagens em não tê-los, e tê-los, sem querê-los, é de uma irresponsabilidade que beira a crueldade. Isso vale também para os cachorros.
Não existe receita de felicidade do tipo tamanho único: uma peça veste a todos os corpos. Existe, isso sim, muitas revistas femininas com receitas de onde encontrar a felicidade e um mito de família perfeita que perpassa o imaginário coletivo. Esse mito é particularmente danoso para as mulheres porque nele somos mães de família inigualáveis, profissionais bem sucedidas, amantes ardorosas, bem vestidas, bem penteadas, corpos esculpidos, posamos ao lado de filhos e marido sorridentes e enormes cachorros que nem cabem nos apartamentos modernos. Click. É só uma imagem. Quando se apaga o flash cada um sai para um lado. Talvez a mulher more sozinha e vá para a balada com as amigas. Talvez ele seja casado e não queira ter filhos, prefira a liberdade de viajar para lugares distantes sempre que possível. As crianças talvez morem com os avós, ou com a nova família do pai e o cachorro possivelmente volte para o canil de seu criador, que o aluga para peças publicitárias. E não necessariamente essas são cenas de infelicidade, incompletude e solidão. Deve haver tantas possibilidades de viver bem quanto existam pessoas na face da terra. Que cada um possa construir a sua, inclusive sem culpa por não plantar uma árvore em tempos ecologicamente corretos e sem se sentir ignorante por não escrever um livro.
Artigo publicado no jornal O Nacional em 14/03/2010
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