Li no blog de um pai o conselho para que não se deixasse passar a oportunidade de conversar com os filhos, diariamente. Esse pai preconizava que, nem que fosse antes de dormir, os pais sentassem à beira da cama e conversassem com os filhos sobre as coisas importantes da vida, aconselhando-os. Legal. Nem sempre possível de colocar em prática, mas bem pertinente o conselho. Se rolar umas quatro vezes por semana, a conversa essa, a beira da cama, já é uma enorme aproximação entre pais e filhos que muitas vezes são pessoas que moram na mesma casa, mas não conseguem estabelecer um diálogo. Mas, embora concordando em tese com esse pai, algo me incomodou.
Início dos anos oitenta. Estou sentada sozinha no chão do quarto que divido com minhas irmãs, manuseando meus poucos e preciosos LPs. A porta de repente se abre de chofre e meu pai me observa com uma feição meio esquisita. Permanece alguns segundos em silêncio e me pergunta o que estou fazendo. – Nada, respondo. É claro que estou fazendo algo importante para uma adolescente, mas essa é a resposta padrão, a que oferece um salvo conduto meio precário, uma vez que estabelecido que você não está fazendo alguma coisa uma tarefa lhe será imediatamente impingida, como secar a louça ou estudar. Ainda assim, é uma resposta que lhe resguarda de ter que começar uma conversa. É boa o bastante.
Mas ele não vai embora, nem me manda fazer algo “de útil”. Observo seu rosto contorcido quando me pergunta já meio exasperado: “você precisa de alguma coisa?!” Ih, definitivamente essa conversa vai render em chateação, então respondo “não”, rapidamente. Agora estou em território minado. Então, num esforço inesperado meu pai atropela uma frase mais ou menos como “Bom, se você precisar falar alguma coisa, pode falar!” e se vai. Enquanto tento compreender o que diabos foi aquilo, decido que o curso de ação mais seguro é ir assistir TV na sala com a família. Nada como adotar a atitude dos demais quando você quer passar despercebida.
Hoje, adulta, é com um misto de carinho e dó que reconheço a angústia de meu pai tentando estabelecer um diálogo com a filha adolescente, se lançando em uma tarefa da qual ele desconhecia as características mais básicas, por nunca tê-las vivenciado. Tendo ficado órfão ainda criança, conhecia muito da vida e sempre foi farto em conselhos, afinal, tinha muito o que contar. Mas não necessariamente abundava em espaço de escuta.
E é isso que me incomoda no aconselhamento à beira da cama preconizado pelo bom pai – como o meu – do blog lido a partir de uma postagem no Twitter. Por isso, ouso um pequeno adendo. Aos pais, nessa conversa, caberia mais ouvir do que falar e reagir com brandura aos pensamentos e acontecimentos apresentados que lhe fossem inesperados e incômodos. Talvez então o aconselhamento pudesse florescer no pantanoso terreno do crescimento, no qual a admoestação dificilmente vinga.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
domingo, 2 de outubro de 2011
Uma porta para dentro
Ante-sala de consultório médico. Depois de certa idade você começa a passar mais tempo nesse tipo de lugar e consequentemente a valorizar mais o material de leitura lá disponibilizado. Quando a angústia é grande, as revistas de conteúdo leve são mais procuradas do que, digamos, aquelas que se destinam a fazer propagandas de remédios para doenças que você teme apresentando imagens de idosos felizes. Ou das que tentam convencer você a fazer sexo selvagem por meio de questionário sobre suas preferências. Perdão, mas não tem clima. Eu realmente apreciaria que os médicos pensassem mais no tipo de público que atendem e buscassem materiais de leitura adequados a esses clientes. Questionário sobre preferências sexuais em ante-sala de ginecologista, por exemplo, não animam para a realização do exame. Quem diria.
Folheando uma publicação sobre celebridades leio uma entrevista do tipo bate bola, ou seja, perguntas toscas e respostas curtas. Ou o inverso. Mas vá lá, a ideia é de um perfil rápido e raso do entrevistado, nada muito complexo. Mesmo assim me parece cretino solicitar a pessoa que defina a si mesma numa frase. Como se essa tarefa fosse possível. Como se a definição que uma pessoa cria acerca dela mesma pudesse açambarcar mais do que meias verdades e, em uma única frase, quiçá um quarto de verdades. Fico imaginando alternativas para melhorar aquele tipo de entrevista. Difícil, dado que o objetivo não é aprofundar nada. Contudo me ocorre que uma experiência interessante seria definir a nós mesmos com base naquilo que tememos.
Nossos medos, que dizemos ser algo do qual gostaríamos de nos livrar, também são parte daquilo que nos define e, assim, não são artigos dos quais realmente desejemos nos separar. Quem sabe nosso maior desejo resida em não ter de enfrentá-los. Eu tenho medo de dentista, portanto, contanto que eu não vá ao dentista, meu medo não me incomoda. Claro que é uma decisão de avestruz, pois mais cedo ou mais tarde todos nos defrontamos com nossos medos, inclusive o principal, da finitude. Mas adiamos esse encontro o mais que pudermos.
Todos temos medo e tememos muito, inclusive a celebridade bola da vez, que nas páginas das revistas parece exibir a capacidade de dar conta de tudo o que vier. Acredite, ela não tem esse dom. Entre o presente momento de qualquer ser humano – por mais maravilhoso que seja – e o próximo passo a ser dado em termos pessoais, profissionais ou em qualquer outro campo, paira o medo. E não há como não dar o próximo passo, pois mesmo o permanecer imóvel é também uma decisão. O medo de decidir pode ser paralisante ou não, mas ele se faz presente. No mais das vezes nosso esforço consiste em não olharmos de frente para o medo, mas sim de canto de olho, enquanto nos movimentamos dolorosamente. Nossos temores maiores embaçam nossa visão de nós mesmos e defini-los, nomeá-los, requer grande coragem, embora eles coubessem em frases bastante objetivas. Isso, se conseguíssemos encará-los de frente. Se vocalizássemos suas existências para além da bruma que se forma na mente no momento em que abraçamos essa tarefa.
Ao conseguirmos identificar e vocalizar um medo profundo sem atenuá-lo, justificá-lo ou nos culparmos, abrimos uma pequena mas poderosa porta para dentro. Uma fresta para o eu através da qual muito pode escapulir. Muitos novos passos. Uma vida nova talvez.
Abre-se a porta do consultório. Minha coragem, agora, se resume a comandar meus passos na direção de enfrentar sorridente o dentista, embora mil vezes preferisse alçar voo pela porta que dá para a rua, para fora de mim.
Folheando uma publicação sobre celebridades leio uma entrevista do tipo bate bola, ou seja, perguntas toscas e respostas curtas. Ou o inverso. Mas vá lá, a ideia é de um perfil rápido e raso do entrevistado, nada muito complexo. Mesmo assim me parece cretino solicitar a pessoa que defina a si mesma numa frase. Como se essa tarefa fosse possível. Como se a definição que uma pessoa cria acerca dela mesma pudesse açambarcar mais do que meias verdades e, em uma única frase, quiçá um quarto de verdades. Fico imaginando alternativas para melhorar aquele tipo de entrevista. Difícil, dado que o objetivo não é aprofundar nada. Contudo me ocorre que uma experiência interessante seria definir a nós mesmos com base naquilo que tememos.
Nossos medos, que dizemos ser algo do qual gostaríamos de nos livrar, também são parte daquilo que nos define e, assim, não são artigos dos quais realmente desejemos nos separar. Quem sabe nosso maior desejo resida em não ter de enfrentá-los. Eu tenho medo de dentista, portanto, contanto que eu não vá ao dentista, meu medo não me incomoda. Claro que é uma decisão de avestruz, pois mais cedo ou mais tarde todos nos defrontamos com nossos medos, inclusive o principal, da finitude. Mas adiamos esse encontro o mais que pudermos.
Todos temos medo e tememos muito, inclusive a celebridade bola da vez, que nas páginas das revistas parece exibir a capacidade de dar conta de tudo o que vier. Acredite, ela não tem esse dom. Entre o presente momento de qualquer ser humano – por mais maravilhoso que seja – e o próximo passo a ser dado em termos pessoais, profissionais ou em qualquer outro campo, paira o medo. E não há como não dar o próximo passo, pois mesmo o permanecer imóvel é também uma decisão. O medo de decidir pode ser paralisante ou não, mas ele se faz presente. No mais das vezes nosso esforço consiste em não olharmos de frente para o medo, mas sim de canto de olho, enquanto nos movimentamos dolorosamente. Nossos temores maiores embaçam nossa visão de nós mesmos e defini-los, nomeá-los, requer grande coragem, embora eles coubessem em frases bastante objetivas. Isso, se conseguíssemos encará-los de frente. Se vocalizássemos suas existências para além da bruma que se forma na mente no momento em que abraçamos essa tarefa.
Ao conseguirmos identificar e vocalizar um medo profundo sem atenuá-lo, justificá-lo ou nos culparmos, abrimos uma pequena mas poderosa porta para dentro. Uma fresta para o eu através da qual muito pode escapulir. Muitos novos passos. Uma vida nova talvez.
Abre-se a porta do consultório. Minha coragem, agora, se resume a comandar meus passos na direção de enfrentar sorridente o dentista, embora mil vezes preferisse alçar voo pela porta que dá para a rua, para fora de mim.
Assinar:
Postagens (Atom)