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segunda-feira, 12 de março de 2012

Miragem

Byron, a quem secretamente apelidei Lord Byron, tem vinte e dois anos de idade e é Chefe de Trapézio num hotel da Bahia pertencente a uma grande rede de resorts. Parte das responsabilidades de chefe inclui dançar e representar todas as noites nos pequenos shows que o Village obrigatoriamente deve oferecer, além de zelar pela segurança de adultos e crianças que buscam aulas de trapézio e afins. Há dias observo o infatigável jovem australiano formado em Circo, Teatro e Dança desempenhar de forma competente e madura tudo o que lhe é solicitado, mesmo estando cansado. Trabalhando há três anos nessa rede internacional, ele já passou por três países, ou seja, três villages, e sua meta é essa, conhecer o mundo trabalhando enquanto jovem. Curiosa, não pude deixar de lhe perguntar como pode ser tão independente e responsável com apenas vinte e dois anos.

Caçula numa família de classe média com três filhos homens, Byron começou no trapézio aos cinco anos de idade. Aos quatorze já era instrutor. Durante o último ano do equivalente ao nosso Ensino Médio percebeu que realmente desejava trabalhar em circo e conhecer muitos países. Sua primeira providência foi conseguir um emprego nos Estados Unidos e ir para lá, ao completar dezoito anos. Um ano depois voltou e ingressou na empresa onde hoje trabalha, tendo galgado o posto de Chefe de Trapézio e sendo um dos homens de confiança de seu superior imediato, o atual Chefe do Village, um canadense na casa dos quarenta anos.

Durante nossa conversa comento que muitos de nós, brasileiros, talvez nos apeguemos demais aos nossos filhos roubando-lhes a construção da independência, embora sejamos amorosos e bem intencionados. Ele parece concordar e afirma que os pais o ensinaram a desempenhar quaisquer atividades com seriedade e apóiam suas decisões profissionais. Está claro que realizaram um bom trabalho. Brinco sobre a situação da mãe, única mulher numa casa cheia de homens. Ele então me conta que os pais, ambos professores do Ensino Superior, saíam para trabalhar deixando-o ao encargo dos irmãos mais velhos que não raro lhe agrediam fisicamente por se recusar a obedecê-los. Acha natural e culpa a si mesmo por ter sido “irritante” quando pequeno. Reflito, silenciosamente, sobre a influência das experiências que levaram esse australiano de olhos azuis a querer provar-se forte, inclusive fisicamente.

Deixo minha filha na fila da corda bamba e saio caminhando na corda bamba dos pensamentos de mãe: será que é apenas na adversidade que o ser humano cresce? Pois se assim for, a amorosidade pode ser vista como impeditiva. Os que acreditam que “antigamente é que era bom” sem dúvida afirmarão que sim, que atualmente as crianças crescem cercadas de cuidados excessivos e que nem se pode dar-lhes umas boas palmadas para corrigi-las. Estamos criando uma geração de incapazes. É isso, então. Simples. Basta fazer da casa dos pais um ambiente desagradável o suficiente para que a criança ou o adolescente não queira permanecer ali de jeito nenhum e ele será obrigado a amadurecer. Caberia ajustar os níveis de maus tratos para evitar que, ao invés de ajudar no crescimento, se criasse um adulto alquebrado e incapacitado emocionalmente. Fácil, não?

Ou, talvez, em algum oásis escondido por um véu de enganos, bem no meio do caminho entre o apego infantilizador e o apelo da surra, haja um espaço para a criação afetuosa dos filhos num ambiente familiar seguro e respeitoso de suas individualidades que os tornem, oxalá, maduros e independentes. Miragem? O tempo no-lo dirá.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Raiva de mãe

A raiva que ela tem guardada dentro de si é enorme. Um Aconcágua de mágoas. De memórias mesquinhas, de desaforos não ditos, de raiva contra o destino que não obedeceu seus ditames um tanto quanto infantis, de ódio do ex-marido e do rumo que a vida do filho tomou, penalizando a sua própria. Então ela resolve escrever suas dores em cartas dirigidas ao ex-marido, missivas repletas de dor e muita, muita raiva. Embora esteja longe do desfecho da história, o que mais me mobiliza na leitura de Precisamos Falar Sobre o Kevin (Lionel Shriver, editora Intrínseca) é a demolição metódica do passado familiar realizado pela personagem mãe, a autora da correspondência, regada a muita raiva e profunda incapacidade de apego ao filho, um estranho saído, ironicamente, de suas entranhas. Não chega a ser um caso raro.

“Não está nada bem, essa mãe”, nos dizemos. “Sem dúvida é louca”, é a afirmação mais frequente nos fóruns de debate sobre o livro, possivelmente por ser a que mais traz alívio imediato. Trata-se de uma leitura perturbadora precisamente por provocar clarões de empatia em qualquer mãe que venha a lê-la com honestidade. Por isso acorremos em nos diferenciar dessa mãe monstruosa, desequilibrada, raivosa, para garantirmos a nós mesmas que jamais seriamos assim. Mas temo que nos iludamos com muito fervor. A raiva não é um sentimento ausente no exercício da maternidade. A frustração, a mágoa, o entorpecimento que faz esvanecer os gestos de carinho são mais frequentes do que gostaríamos de admitir, mesmo em mães de classe média que, aparentemente, não teriam maiores preocupações como a da garantia da sobrevivência.

O isolamento e a frustração decorrentes da maternidade, e a demanda permanente de atenção que raramente é dispensada a si própria (elevada ao cubo quando a mulher trabalha fora de casa) podem ser devastadoras para a mulher. E aquela mãe sorridente na saída da escola do filho, carregando mochilas, sacolas de supermercado e o mundo nos ombros pode estar prestes a explodir. E pode inclusive não explodir, mas certamente acabará em lágrimas. A raiva é, muitas vezes, a antessala da depressão.

Para tentarmos compreender um sentimento tão forte como a raiva, podemos atribuir aos outros, aos que nos cercam, problemas que estão no cerne de quem nós realmente somos, das escolhas de vida que fizemos e das quais podemos estar arrependidas. Nessas situações diálogo é um bote salva vidas. E diálogo é um luxo ao qual muitas mães não tem acesso. Qual é a saída? Escrever, como faz a mãe do livro que estou lendo, é uma possibilidade. Talvez um blog com pseudônimo seja uma porta para estabelecer um diálogo com outras pessoas em situação semelhante. Há quem sugira acalmar a mente com técnicas meditativas. É uma boa ideia. Até kickboxing é uma ideia mais produtiva do que destilar a raiva sobre os familiares. E, em tendo chance, um bom terapeuta fará toda a diferença na vida não só da mãe, mas de todos os que dependem emocionalmente dela. O melhor presente que se pode dar aos filhos, creio.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Aconselhamento

Li no blog de um pai o conselho para que não se deixasse passar a oportunidade de conversar com os filhos, diariamente. Esse pai preconizava que, nem que fosse antes de dormir, os pais sentassem à beira da cama e conversassem com os filhos sobre as coisas importantes da vida, aconselhando-os. Legal. Nem sempre possível de colocar em prática, mas bem pertinente o conselho. Se rolar umas quatro vezes por semana, a conversa essa, a beira da cama, já é uma enorme aproximação entre pais e filhos que muitas vezes são pessoas que moram na mesma casa, mas não conseguem estabelecer um diálogo. Mas, embora concordando em tese com esse pai, algo me incomodou.

Início dos anos oitenta. Estou sentada sozinha no chão do quarto que divido com minhas irmãs, manuseando meus poucos e preciosos LPs. A porta de repente se abre de chofre e meu pai me observa com uma feição meio esquisita. Permanece alguns segundos em silêncio e me pergunta o que estou fazendo. – Nada, respondo. É claro que estou fazendo algo importante para uma adolescente, mas essa é a resposta padrão, a que oferece um salvo conduto meio precário, uma vez que estabelecido que você não está fazendo alguma coisa uma tarefa lhe será imediatamente impingida, como secar a louça ou estudar. Ainda assim, é uma resposta que lhe resguarda de ter que começar uma conversa. É boa o bastante.

Mas ele não vai embora, nem me manda fazer algo “de útil”. Observo seu rosto contorcido quando me pergunta já meio exasperado: “você precisa de alguma coisa?!” Ih, definitivamente essa conversa vai render em chateação, então respondo “não”, rapidamente. Agora estou em território minado. Então, num esforço inesperado meu pai atropela uma frase mais ou menos como “Bom, se você precisar falar alguma coisa, pode falar!” e se vai. Enquanto tento compreender o que diabos foi aquilo, decido que o curso de ação mais seguro é ir assistir TV na sala com a família. Nada como adotar a atitude dos demais quando você quer passar despercebida.

Hoje, adulta, é com um misto de carinho e dó que reconheço a angústia de meu pai tentando estabelecer um diálogo com a filha adolescente, se lançando em uma tarefa da qual ele desconhecia as características mais básicas, por nunca tê-las vivenciado. Tendo ficado órfão ainda criança, conhecia muito da vida e sempre foi farto em conselhos, afinal, tinha muito o que contar. Mas não necessariamente abundava em espaço de escuta.

E é isso que me incomoda no aconselhamento à beira da cama preconizado pelo bom pai – como o meu – do blog lido a partir de uma postagem no Twitter. Por isso, ouso um pequeno adendo. Aos pais, nessa conversa, caberia mais ouvir do que falar e reagir com brandura aos pensamentos e acontecimentos apresentados que lhe fossem inesperados e incômodos. Talvez então o aconselhamento pudesse florescer no pantanoso terreno do crescimento, no qual a admoestação dificilmente vinga.

terça-feira, 3 de maio de 2011

À deriva

Quando olhei meu rosto no retrovisor fiquei chocada. Era segunda-feira de manhã e eu estava observando o portão da garagem fechando-se atrás de mim, ou seja, começava ali um dia cheio de tarefas. Eu saía para o mundo. E não havia no meu rosto nem um pingo de maquiagem. Nem sequer protetor solar. Um gloss. Nada.
Eles não teriam como entender a minha dor. Mas a culpa era deles, eu tinha certeza. Os dois tinham horários a cumprir, compromissos fora de casa. A uma me cabia levá-la ao seu compromisso, lá permanecer e trazê-la de volta. Ao outro era preciso que eu retirasse meu carro para que o dele pudesse sair. (Há dias em que suspeito, não, tenho quase certeza, que as garagens são projetadas por arquitetos e engenheiros sádicos que planejam semear o mau humor e a discórdia entre as famílias.)

De olho neles, nos horários deles, nas roupas deles (afinal, ela eu precisava ajudar a vestir-se e mesmo ele me pediu ajuda com os botões da gola da camisa), eu sai sem me maquiar. Não que eu me maquie de verdade, nem sei bem como fazer isso, mas um rímel, um protetor solar, um gloss, por favor. São os segundos de um carinho mínimo para consigo mesma no espelho. Você declara para si “meus olhos ainda são bonitos”, ou seja o que for que você diga que ofereça à imagem no espelho um pequeno sorriso imediatamente retribuído e voilà, aí está um alento à segunda-feira que se inicia.

Não, saí sem meu pequeno encontro íntimo. A mente em todo lugar, menos em mim. A culpa só podia ser deles, desses que queremos em nossas vidas acima de tudo, mas, se possível, com um controle remoto. Ou um botãozinho escrito Pause, se não for pedir muito.

A autoestima de uma mulher também é feita de pequenos gestos dela para consigo mesma, gestos íntimos que não nos devem faltar. São pequenas bóias flutuando na correnteza dos afazeres diários. Como passar um rímel nos olhos que ainda amamos.
Felizmente havia um batom na bolsa. Recorri a ele e me maldisse pela incapacidade de carregar uma nécessaire com maquiagem básica na bolsa, além de outros itens “basiquinhos”. Jurei montar uma ainda hoje. Será que me lembro? Será que me permito esse coletinho salva-vidas no rio que navego? Ou opto pelo afogamento? Ou ainda, pior, talvez me regozije em atirar toras em frágeis embarcações alheias que trafegam pelo mesmo rio.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O filho que eu quero ter

Na última terça-feira foi o Dia da Criança. Um dia no qual você acaba refletindo sobre a infância, inevitavelmente. Sobre a sua infância, sobre a infância dos filhos ou das crianças do país e do mundo, sobre o que você gostaria que tivesse sido e sobre como você gostaria que as coisas fossem dali por diante. Funciona um pouco como um Ano Novo porque as reflexões acabam levando a conclusões sobre o que melhorar e sobre como podemos colaborar naquilo que gostaríamos de ver mudado. Alguma coisa, ainda que pequena, todos podemos fazer, começando por nos educarmos acerca das necessidades da infância.

Eu li um bocado de livros sobre criação de filhos. Uns me ajudaram, uns atrapalharam e de alguns poucos discordei veementemente. Há livros no mercado para todos os gostos. Desde aqueles para justificar que o mal comportamento de um filho são sinais de que ele é especial, portador de algum sinal divino, como também para incentivar uma má vontade coletiva que vê a nova geração como incompetente e preguiçosa, para a qual apenas a boa e velha “linha dura” é a solução. Exageros vendem bem, como já sabemos. Aprendi com os livros e a filha ajudou a solidificar a sabedoria de que a teoria, na prática, é outra mesmo e difícil para caramba.
Mas há uma coisa que me incomoda um pouco, algo que acredito que os livros sobre educação de crianças nunca dizem com clareza e que me parece fundamental. A primeira “grande providência” que você tem que tomar se vai ter ou teve um filho, é esta: procure se tornar a melhor pessoa que você pode ser, nesse mundo. Não a mais perfeita, por favor, não é isso. Aliás, se você vai ter um filho seria muito legal começar a abrir mão da busca da perfeição. Não, não é com o seu estresse em conciliar tudo, em ser a super-mãe da capa das revistas femininas, que estou preocupada. É com o estresse da criança, em ter que crescer à sombra de alguém em busca da perfeição.

Funciona mais ou menos assim: os pais são a fonte de formação do psiquismo infantil e o são naquilo que fazem conscientemente, sabedores de si mesmos e naquilo que são inconscientemente, naquilo de si que nem sequer reconhecem, mas que se traduz na vida, de forma imperceptível, talvez. A criança, no entanto, percebe o imperceptível. Não de forma absolutamente racionalizada, mas através do afeto que na primeira infância parece ter a forma de uma grande esponja absorvente de tudo o que se passa ao redor. Se isso estiver certo – e há dados científicos indicando que está – a melhor coisa que podemos fazer para termos filhos do jeito que nós sonhamos, é ser esse sonho. Filhos calmos? Seja calmo. Gente honesta, correta, coisa que está faltando neste país? Seja honesto, procure fazer o que você acredita que é certo. “Queremos crianças felizes”, dizem todos os pais em coro? Seja feliz, você mesmo. A sua cara de infelicidade na mesa de jantar não está ajudando. E se os filhos lhe fazem infeliz, porque tomam muito do seu tempo e dão despesas grandes, por favor, interrompa a produção imediatamente. E lembre-se que não foi solicitação deles fazerem-se irremediavelmente presentes em sua vida.

É uma máxima comum esta, de ser a mudança que você deseja, oriunda de ensinamentos orientais e reproduzida em muitos manuais de auto-ajuda. Só precisamos lembrar de a transpormos para o campo da infância. Será que há em mim, a despeito do muito ou do pouco que a vida possa ter me oferecido, a criança que eu desejaria que meu filho fosse?

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Das interrupções no dia-a-dia de uma mulher

A vida de uma mulher que é mãe e casada é uma vida de interrupções. Alguém já escreveu sobre isso na internet com mais beleza, mas, certamente, não necessariamente com mais propriedade do que eu. A vida de uma mulher que trabalha, é mãe, casada e tem cachorros, acrescento eu, é uma vida de muitas interrupções. Ofereço um exemplo para aqueles que não sabem bem do que se trata (houve épocas em que eu também não sabia, lá, no meu apartamento de solteira). Ir ao banheiro, um gesto de solidão tão prosaico, pessoal e intransferível, o ato que mais une a humanidade além do nascimento e da morte, é uma decisão que será interrompida, atrapalhada, adiada, se você se encaixa nas categorias acima listadas. Não se trata apenas do velho “é certo que o telefone tocará”, não. Além do telefone, as crianças cairão, brigarão, gritarão, chorarão, o interfone tocará, o cachorro latirá, seu marido perguntará algo a você – após horas de quietude em frente ao computador, você nem lembrava mais que ele estava em casa – começando por “Querida onde está...” e terminando em tom inaudível.

É a de Lei de Murphy aplicada a esse caso específico, a interrupção ocorrerá principalmente naqueles momentos em que você deseja ardentemente ter um tempo só para você. Uma idéia que você quer anotar para o texto que está escrevendo (se não anotar agora certamente vai esquecer), o desfecho inacreditável da história que está lendo, o item que você precisa escrever na lista de supermercado, o telefonema de uma amiga com quem você gostaria de conversar: tudo isso será interrompido pelas pessoas e criaturas que você mais ama no mundo mas que, dia sim, dia não, tem ímpetos de matar. Você explica que vai tomar café e que detesta café frio, que te dêem um tempo, ninguém te interrompa, é um ritual sagrado, hora de acalentar pensamentos e devaneios com o cheiro gostoso do café, o pão quentinho com manteiga. Cada um cria seus rituais zen, de acordo com sua loucura. Se, um pouquinho antes de terminar o café você for interrompida do claustro e solidão que criou lá no seu cérebro, já dá para ficar contente e voltar com alegria ao convívio da família.
O que acontece é que mesmo as mulheres que gostam de encher a casa de pessoas amadas, bichos adoráveis e plantas que precisam de cuidados complicados, necessitam muito, também, ficar sozinhas com seus pensamentos. Os seres humanos são assim, cheios de (aparentes) contradições.

Na casa dos quarenta anos, não são poucas as mulheres que equilibram o trabalho e a vida doméstica da família que gerenciam com as inevitáveis demandas de cuidados de saúde de pais idosos. É um período em que nós, mulheres, temos o privilégio de observar atentamente a tessitura da vida, o que realmente compõe sua trama e o que é apenas adereço, onde esse tecido se esgarça e em que pontos ele resiste. E é por isso mesmo que a reflexão solitária se faz mais necessária do que, digamos, na casa dos vinte anos e a “fuga premeditada” do convívio familiar, ainda que por poucas horinhas semanais, também.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A função paterna

Observo o semblante de minha filha e percebo que ela está perdidamente apaixonada. Está inquieta e insatisfeita. É que quando seu amor demora a chegar ela se ressente e, então, quando ele finalmente chega, ela opta por fingir que não se importa muito com sua presença. Procura disfarçar o quanto o ama, receosa do que essa entrega possa significar. Mas basta uma insistência da parte dele e logo estão juntos, os dois pombinhos, jogando bola no corredor do apartamento. Nessas horas, trato de me recolher a minha insignificância. Minha filha ainda não tem quatro anos completos e o pai é o primeiro homem de sua vida. Caso eu participe de um faz-de-conta em que o pai esteja presente, não raro ela me delega o papel de bruxa e, a ela mesma, o de princesa. Nem é preciso dizer que ao pai cabe o de príncipe. Tudo bem, penso, mãe é meio bruxa mesmo.

A relação dos meninos com o pai é diferente, me ensinam os que sabem. Não há esse amor romântico, mas sim uma ansiedade de reconhecimento, igualmente profunda. É amor, sem dúvida, que solicita, “me permita amar você e, por favor, se orgulhe de mim. O que eu mais desejo na vida é ser como eu vejo você”.

É por conta do amor em nós depositado que os filhos nos obrigam a sermos melhores pessoas. Ninguém quer, em sã consciência, ser o responsável pelas más escolhas amorosas de uma filha adulta. Nenhum pai deseja que a filha se relacione com um homem que a maltrate e menospreze. Tampouco há pais que conscientemente esperam de seu filho que se torne um fracassado, um bêbado, traficante ou agressor. Todos os pais temem a adesão às drogas. E, no entanto, esse caminho é muitas vezes cimentado com palavras e gestos cruéis contra as crianças, atitudes que lhes comunicam claramente que elas são um estorvo e que não se espera nada de positivo de seus futuros. As palavras agressivas e as surras, diriam os pais, têm a intenção de educar, de salvaguardar o futuro. No entanto se esquecem que é impossível construir futuro massacrando o presente. O resultado de muita violência impressa é, inevitavelmente, detrito, sucata de ego. Será um trabalho quase impossível colar pedacinhos para se fazer um adulto feliz ou bem-sucedido (de acordo com os padrões familiares) alguém enfim, de quem a família possa se orgulhar.

Há alguns meses atrás traduzi um ótimo artigo do psicólogo norte-americano Michael Thompson, que trabalha especificamente com meninos.Esse pesquisador acredita que o caminho mais seguro para a construção de uma civilização onde as pessoas se importem umas com as outras, que ele chama de civilização empática, é fazer cessar o espancamento, o sarcasmo e outras formas de violência infligidas aos meninos quando pequenos. O psicólogo alerta que garotos oriundos de ambientes traumatizantes com pais brutais podem crescer para se tornarem tiranos e assassinos.
Durante a infância e a adolescência precisamos de homens cujo comportamento sirva de modelo para os meninos como cuidadores, insiste ele, sem que isso signifique reprimir suas manifestações masculinas e tentar transformar o comportamento das meninas em modelo a ser seguido. Achei sua proposta de ensinar os meninos a serem cuidadores, inclusive de crianças pequenas, revolucionária.

Bons pais, afirma Thompson, transmitem seus melhores valores e instintos de geração a geração. Homens mais seguros, valorizados desde pequenos pelo homem que mais admiram, seu próprio pai, resultariam eles mesmos em pais empáticos aptos a construir uma sociedade menos agressiva. Eu apoio essa idéia.

(A tradução completa do artigo de Michael Thompson se encontra neste blog. Clique no menu à direita, em 05/30)

sábado, 24 de julho de 2010

A mãe estóica

Não tenho a intenção de menosprezar as mães que são donas de casa. De jeito nenhum. É um trabalho insano, fundamental para o funcionamento da unidade familiar, em especial nas famílias que não tem como pagar uma empregada doméstica, e muito raramente reconhecido de verdade. Geladeira de presente no Dia das Mães, para mim, é piada de muito mau gosto. Faço “campanha” para que as famílias de classe média percebam a importância de se recolher o INSS para a mãe dona de casa de forma que ela possa vir a se aposentar um dia, depois de muitos anos trabalhando sem nenhuma remuneração. Acho que deve ser justamente em virtude da pouca valorização do seu trabalho que algumas mães insistem em buscar o reconhecimento do seu sacrifício junto aos familiares, na base da chantagem. Chamo esse fenômeno de “A mãe estóica”, me apropriando do sentido vulgar da palavra estoicismo, de não temor ao sofrimento. Sei que é meio redundante porque ser mãe e dona de casa de mangas arregaçadas requer um bocado de estoicismo, se compreendido como busca da virtude. Mas desse barco chamado estóico, para o chamado masoquista, para o chantagista, os pulos são pequenos no rio da frustração e os sofrimentos acabam por alcançar o mar. Tudo fica contaminado.
A titulo de exemplificação pensemos no famoso doce gaúcho chamado chimia ao qual só tínhamos acesso na infância se alguém da família se dispusesse a fazê-lo. Dá um trabalhão danado, especialmente se for de figo. Então, se alguém deseja fazer tachos de chimia além de todas as outras tarefas domésticas que lhe cabem, que faça porque gosta, por terapia, por diversão, pelo desafio do novo, mas não por obrigação. Afinal, há chimia pronta no supermercado, ainda por cima com muita variedade. Provavelmente mais barata do que a feita em casa, se somados inclusive o fator mão-de-obra, que infelizmente não é pago. Não faça chimia porque acha que é seu dever, porque na verdade não acredita que tenha direito a umas horas na poltrona em frente a TV e depois fique reclamando com os filhos e o marido que está com as mãos queimadas de mexer no tacho. Conheço cenas de tachos de chimia onde fervem mágoas de anos de não reconhecimento mais tarde espalhadas no pão nosso de cada dia dos familiares. As fatias engolidas com a culpa mal mastigada.
Há quem queira quarar roupa (e no inverno!) porque não se conforma enquanto o branco não ficar bem branquinho mesmo? Está bem, é um direito que assiste a quem curte o “branco mais branco”. Lembre-se apenas que esse é um prazer seu e bastante solitário, ok? Vai ser difícil emplacar essa conversa com os outros membros da família – “Olha só como esse lençol clareou depois de quarar!” – e eles acompanharem com o mesmo grau de entusiasmo que você. Seu filho adolescente possivelmente não vai nem prestar atenção se a camiseta está mais branca ou mais amarelada. Não espere que ele lhe agradeça pelo alvor de seu uniforme escolar. Essa é uma necessidade sua. Não exija de suas filhas que a imitem. A escolha de pegar o caminho mais complicado para lavar as roupas, colocar comida na mesa, limpar a casa, acompanhar os familiares em suas demandas, é, na verdade, bastante pessoal.
Nem estoicistas nem hedonistas, o bom mesmo seria que as mães e donas de casa pudessem criar espaços de conforto para si mesmas nos seus cotidianos atribulados de muito trabalho incluindo a possibilidade de poder, na velhice, encontrar a sua espera uma remuneração e alguma garantia de descanso.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A desordem da felicidade

Não se preocupe demais com a desordem em sua casa. Embora você se esforce, a sala nunca parece pronta para sair na capa da Casa Cláudia ou de outra revista de decoração? O quarto, então, nem pensar porque a bela poltrona escolhida a dedo está soterrada embaixo de roupas e leituras? Há calçados espalhados pelo chão? Não faz mal. As belas fotos que vemos nessas revistas não são de casas de verdade. Não no exato momento em que as fotos foram tiradas e havia uma equipe observando o enquadramento, a iluminação e colocando o vaso com rosas perfeitas um pouco mais para a direita. Umas quantas pessoas observando a casa, milimetricamente estudando os objetos para compor um ambiente vendido para ser o seu. Só que essas fotos não representam cenas de uma casa de verdade. Pelo menos não da minha, onde a casa é mais vivida do que estudada. E a gente sabe que quando a equipe da revista vai embora, depois de uns momentos de admiração pelo trabalho realizado – quando talvez as pessoas tentem nem parecer presentes para não tirar nada do lugar – a vida invade o ambiente e as rosas maravilhosas eventualmente vão parar no lixo e são substituídas, ou não. Às vezes o vaso fica vazio.
Claro que quando a gente reforma, se muda, compra móveis ou quadros, observa e estuda o ambiente para saber se ficará bom, se estará confortável e acolhedor para as pessoas morarem lá. Pessoas essas que vão tirar os sapatos e colocar os pés em cima do sofá, que largarão copos e canecas pelas mesas, que deixarão jornais pelas poltronas todas e empilharão livros em cima do criado mudo. Isso sem contar os brinquedos bem no meio da sala, para quem tem crianças ou mesmo certos bichos de estimação. Uma casa de verdade fervilha de vida, ainda que seja uma moradia de solteiro, e a vida é movimento. Dificilmente uma casa é estática, parecendo permanente capa de revista e, ainda assim, espelhando felicidade.
Uma das tarefas mais árduas na vida é designar novos lugares para os pertences de quem morreu. Fazemos isso por nossos falecidos, procurando escolher o que fica com quem e o que será doado, encontrando atordoadamente pedaços de nós mesmos em meio às louças, camisas, armários, tapetes. Sabemos que o mesmo será feito por nós – o mais importante: não sabemos quando – e nossos vestígios pela casa terão de ser dramaticamente reduzidos para que os vivos possam continuar a viver.
É por isso que ao final de domingo, quando vejo os rastros dos habitantes da minha casa espalhados por todos os cômodos, não me incomodo muito. Já estou na fase em que prefiro ver minha casa cheia e em desordem, do que vazia, pôster de possibilidades ainda não realizadas ou já finitas.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Laços de família

Se você cresceu em uma família de hierarquia perene, como eu, não deixe de ler O clube do filme de David Gilmour (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009). Por hierarquia perene eu me refiro aquelas famílias, como a minha, em que não importa a idade que você tenha sempre será considerado "uma criança" para os pais. Claro que no caso da minha família, tendo inclusive meu pai já falecido, essa hierarquia se evaporou por conta das necessidades da vida e da morte. Mas, naqueles tempos a vida nas famílias era assim. “Você sempre será uma criança aos meus olhos” é uma frase que muita gente já ouviu. Isso parece muito bonito para ser dito, mas, na prática não é tão bonito nem constrói muito a auto-estima. Pode, inclusive, ser um pouco perverso.

Crescer em ambientes onde seu (inevitável) crescimento é negado é como se esgueirar por uma fresta. Primeiro você tem que achar a fresta, depois se metamorfosear em algo kafkiano para poder passar pela fresta. Uma vez do lado de lá, você estará sozinho para encher seu balão/ego, que se encontrará um tanto quanto murcho e possivelmente um bocado culpado por ter fugido às normas familiares, aos contratos não ditos, mas em plena vigência, que explicitam aquilo que a família espera de você. Sustentar-se bem em suas próprias pernas de adulto pode ser um trabalho de uma vida inteira.

No relacionamento entre pai e filho no tal livro as coisas são diferentes. O pai não é nenhum gênio da pedagogia, a bem da verdade, não é nenhum gênio de nada. Parece, inclusive, por vezes um cara bastante atrapalhado com questões "obrigatórias" do mundo masculino adulto, como sustentar a própria família. Mas o olhar que ele tem para esse filho é raro. É um olhar cheio de amor e cheio de espaço, criando um local em seu afeto onde o filho pode crescer, mais do que isso, onde ele espera e deseja que o filho cresça, se torne homem, e ele seja "derrotado". Ou seja, nesse relacionamento espera-se que a vida tome seu curso normal e as pessoas não sejam obrigadas a permanecer na posição de escada para que o mundo de outro (pais, mães, irmãos, esposos) não se desmorone.
Um trechinho da sabedoria desse pai: "Definitivamente as coisas estavam mudando entre nós dois. Eu sabia que, ao final do caminho, não muito longe, haveria um confronto e eu sairia perdendo. Exatamente como aconteceu com todos os outros pais na história." Acrescentaria eu: estejam eles cientes dessa mudança, ou não. A leitura é linda e incrivelmente atual porque, acreditem, não são muitos os pais que têm essa clareza, não importa o quão estudados sejamos.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Aqui está uma tradução livre de minha parte. Trata-se de um excelente artigo do psicólogo norte-americano Michael Thompson, que concedeu a devida permissão para essa versão em português.



A CIVILIZAÇÃO EMPÁTICA: OS MENINOS SÃO A CHAVE PARA UM FUTURO DE EMPATIA

Michael Thompson, Ph. D.

Como psicólogo de crianças, está claro para mim que a rota mais rápida para uma civilização mais empática é fazer cessar o espancamento, o sarcasmo e outras formas de mágoa infligidas aos meninos quando eles são pequenos. Garotos oriundos de ambientes traumatizantes com pais brutais podem crescer para se tornarem tiranos e assassinos – pense em Adolf Hitler e Slobodan Milosevic da Sérvia – ao passo que aqueles que foram criados com apoio emocional certamente não o serão. Precisamos criar meninos amados e amáveis que têm a capacidade de crescer para se tornarem líderes empáticos e companheiros. Em todas as culturas, se queremos mudar o mundo rapidamente, nossa melhor opção é criar meninos emocionalmente alfabetizados que valorizam a compreensão. Pais e professores bem intencionados com freqüência me dizem que estão tentando criar homens “sensíveis” ou “não-violentos” que possam reconhecer seu lado “feminino” e que venham a crescer em condições de “respeitar as mulheres”. Contudo, esses esforços para criar garotos sensíveis podem ser contraproducentes. Quando perguntei a uma professora de segunda série o motivo de ela ter proibido as brincadeiras de luta durante o intervalo, bem como a chamada “escrita violenta” em sala de aula, ela me disse: “porque eu não quero que um dos meus meninos venha a se tornar presidente quando crescer e decida invadir o Iraque.” Compreendo o sentimento dela, mas seu ponto de vista é parcial e nada científico. As brincadeiras infantis não levam à violência do mundo adulto. Eu sei que os meninos na aula dela percebem que ela vê a eles e a sua escrita como sendo potencialmente perigosos. Isso não é bom para eles. Nós temos que compreender a maneira como os garotos aprendem. Eles são, em média, mais ativos fisicamente que as meninas, mais impulsivos e competitivos, mais interessados em escrever histórias de conflito e morte, mais propensos a trabalhar duro quando cercados por grupos de meninos. Abordagens punitivas na criação de meninos não funcionam. Pais que batem em seus filhos do sexo masculino em casa apenas produzem meninos obedientes que chegam à escola prontos para usar a agressão física contra os seus pares.
Um relatório da Associação Americana de Psicologia demonstrou que a adoção de políticas de tolerância zero nas escolas não mudou o comportamento dos meninos, apenas os distanciou das mesmas. Punir os meninos constantemente retirando seus intervalos ou proibindo os seus jogos, também não funciona. Forçar os garotos a sempre cooperar e nunca competir em aula apenas os faz sentir que a escola não foi feita para eles. Se os meninos se sentem cronicamente mal compreendidos, se sofrem interferências constantes em sua forma de brincar, eles simplesmente seguem seu caminho, desistindo da escola ou se alienando dos valores do mundo adulto. Eles passam a procurar, fora da escola, experiências significativas para a afirmação de si mesmos como garotos fortes e homens saudáveis. Para muitos garotos isso significa idolatrar o líder da gangue local, o atleta popular embora anti-social, o pai abusivo. Minha experiência como psicólogo para uma escola apenas para garotos e como consultor para ambos os tipos – escolas para ambos os gêneros ou somente para meninos – me ensinou algumas importantes lições sobre o que os meninos precisam. Os meninos estão sempre famintos por modelos masculinos responsáveis e por mulheres que realmente “saquem” como eles são. Os meninos estão sempre procurando rotas que os levem a ser homens adultos respeitáveis, admirados por seus professores de ambos os sexos. Na infância, os meninos choram mais e são mais vulneráveis a perturbações em seu elo com as mães do que as meninas. Muitos deles expressam ansiedade através da raiva e do distanciamento. Precisamos compreender que a raiva dos meninos pequenos é, frequentemente, uma manifestação de medo e ansiedade.
No nível Fundamental, nas escolas, precisamos compreender que os meninos são extraordinariamente suscetíveis à vergonha. O arco de desenvolvimento dos meninos é diferente – e mais lento – do que o arco das meninas. Não devemos comparar constantemente os meninos, desfavoravelmente a estes, com as meninas ou fazer do comportamento destas o padrão ouro das escolas. Durante toda a infância, precisamos que os homens apresentem comportamentos que sirvam de modelo para os meninos como cuidadores e precisamos oferecer aos garotos a chance de cuidar de crianças mais novas.
Tom Lickona, o autor de Educando para o Caráter, disse que todas as crianças precisam querer o bem, conhecer o bem e praticar o bem. Eu acredito que dar aos meninos a chance de cuidar de crianças mais novas – praticando o bem – pode ser o mais importante passo individual no sentido de auxiliá-los no desenvolvimento da empatia. Se nós percebemos os rapazes adolescentes como sendo perigosos ou molestadores em potencial, se nós só damos a eles válvulas de escape competitivas, nunca estaremos lhes oferecendo a chance de desenvolverem sua empatia em potencial. Finalmente, na adolescência devemos ir ao encontro dos anseios morais e espirituais dos garotos. Se há uma lição para ser aprendida nas atividades violentas, terroristas de rapazes em todo o mundo, é a de que homens jovens estão sempre em busca de significado, mesmo que de formas terríveis. Se nós traumatizarmos os meninos, iremos produzir homens violentos. Se não oferecermos aos rapazes rituais significativos que façam sua passagem da meninice à vida adulta, eles inventarão suas próprias e cruéis formas de iniciação. Se apenas procurarmos controlá-los e não nos comunicarmos com suas almas, eles nos retribuirão com violência. Os meninos precisam experienciar a empatia quando são jovens, eles precisam aprender a reconhecer um comportamento empático e precisam praticá-lo.
A antropóloga Margaret Mead uma vez expressou sua admiração pelas sociedades que criam seus filhos para serem “bons pais”. Eu concordo com ela. Se nós continuarmos perseverando no objetivo de criar bons pais, os melhores instintos dos meninos serão transmitidos de geração para geração.

Publicado originalmente no Huffington Post em 3 de março de 2010. http://www.huffingtonpost.com/michael-thompson-phd/the-empathic-civilization_b_483068.html

Site do autor: http://www.michaelthompson-phd.com/

sábado, 8 de maio de 2010

Uma mãe suficientemente boa

Cuidado, sua mãe pode comer a sua vida. Ela faz todas as suas vontades, te dá tudo o que você pede, está sempre presente e disponível, ela se dedica a você, somente a você, todas as horas do dia. Sem você, a vida dela seria muito vazia e tudo que ela espera é que você seja uma boa filha, ou um bom filho. Nada que uma chantagem (zinha?) não resolva em momentos de discórdia no mundo idílico do relacionamento de vocês. Essa mãe maravilhosa só tem um detalhe que a distingue das demais. Seus olhos, chamados popularmente de espelho da alma, são, na verdade, apenas botões.


Essa é uma das mães que com que se defronta a menina Coraline, no genial filme homônimo de Henry Selick baseado no romance do inventivo Neil Gaiman, um verdadeiro autor de contos de fadas.

Há, é claro, sua mãe verdadeira, cuja atenção à menina infelizmente não chega aos pés da dedicação que lhe oferece a outra mãe, naquele mundo paralelo que gira ao redor dos desejos de Coraline. A mãe verdadeira, para mal dos males, se vê envolvida em pagar contas, cuidar da casa, trabalhar e realmente não é, nesse caso específico, a mais divertida e companheira das mães. Mas com ela Coraline tem a chance de brincar sem ser muito controlada e não chega a ser negligenciada nem por falta, nem por excesso. Essa mãe que nem sequer sabe cozinhar uma comida gostosa parece amar muito a filha, mas – que absurdo! – tem uma vida sua para cuidar também e Coraline está longe de ser um bebê, que necessita de atenção em tempo integral.

A escolha da menina é complicada. Ficar com uma mãe que se dedica somente a ela significa ser devorada viva, não poder crescer, não acalentar sonhos seus, segredos e nichos de desejos onde a personalidade se desdobra para depois florescer em aventuras pelo mundo. O que lhe reservará a vida lá fora? Com certeza nada tão aconchegante como o ninho materno que, no entanto, é pequeno para suportar seu crescimento e onde permanecerá imóvel. Talvez como a Carolina da canção, com seus olhos que guardam tanta dor (feitos de botões?) a olhar pela janela o grande e vasto mundo em movimento lá fora, tão distante de suas possibilidades. Ficar com a mãe verdadeira significa não ter seus desejos realizados prontamente, empenhar-se sozinha em tarefas que preferiria delegar a terceiros e ainda ter que aturar diariamente a tessitura dessa delicada teia que une mãe e filha, na qual se misturam amor e impaciência em doses por vezes quase que iguais.

Contudo a mãe imperfeita – que não é má e quando consegue equilibrar as contas da casa se lembra de lhe dar um presente, ou seja, não está assim tão desatenta aos desejos seus – tem um grande trunfo: oferecerá a Coraline um lar também imperfeito e, com ele, a aventura de estar viva nesse mundo, com seus defeitos e delícias. Um bom filme para o Dia das Mães.

domingo, 2 de maio de 2010

Crescer é chato

Para alguns pais o propósito da vida de um filho seria o de não os incomodar. Se ele só viver lá, na dele, e fizer o favor de não chatear, a família agradece. Item cumprido na lista de obrigações na vida, o filho está presente para completar a família, quem sabe até dividir bons momentos, mas não deve trazer problemas para casa porque o pai e a mãe já estão, eles mesmos, cheios de problemas. Ou, pelo menos, é a explicação que dão. Acontece que criança é chata. Não sei se é permitido escrever isso no jornal, mas, depois que Laura Guimarães e Juliana Sampaio abriram no livro “Mothern – manual da mãe moderna”, que parir é uma experiência punk, ouso achar que algumas outras verdades já podem ser impressas sem que sejamos tachadas de “sem coração”. Sim, eu sei que chatos são os filhos dos outros, o nosso apenas está com sono. Atender as demandas de um filho, seja ele pequeno ou grande, requer muito do espaço temporal interno e externo que poderíamos estar dedicando a nós mesmos. Isso é chato. O coração da gente também fica pequenino quando o filho está com problemas, enfim, é uma montanha russa de emoções. Será que não saber é uma boa saída, no longo prazo, para não se incomodar?

Às vezes também acontece de os pais estarem tão apaixonados um pelo outro que não há espaço para o filho irromper, como deveria, em meio a essa relação. O fato é que, seja estress ou seja, digamos, excessivo amor próprio, em certas famílias prevalece um nível de egoísmo que se furta a estabelecer contato com a chatice dos filhos. Cada um deve cuidar de si, a convivência apenas se dá pelas necessidades financeiras, compartilhamento de moradia e datas comemorativas, especialmente na presença de terceiros.

Para outros pais, não chatear não basta. O propósito de se ter um filho é aumentar o orgulho que se tem acerca da própria família. É responsabilidade dos filhos trazer elogios para casa, se possível em formato de troféus, mas também conta pontos as notas altas, os cumprimentos dos conhecidos, a excelência no rendimento em qualquer área a qual o filho venha a se dedicar. Ele é visto como uma representação da família, dos pais enquanto indivíduos e como casal e resultado direto da educação destes. Um produto da empresa, enfim. E ninguém quer colocar seu nome num produto com defeito, muito menos lançá-lo no mercado, digo, sociedade. E dê-lhe troféus na sala e fotos gigantescas que ocupam todas as paredes. Uma vez comemorada uma conquista, recomeça a angústia com a preparação para o próximo desafio. Me pergunto se alguém aceitaria tamanha pressão durante as 24 horas dos sete dias da semana, mesmo que fosse remunerado, ou seja, se fosse um emprego. Acho que não haveria filas de candidatos para esse posto. Para esses filhos, a família dos que “apenas” não querem se envolver com os problemas da prole deve parecer o paraíso.

Qual seria, então, o propósito de se ter um filho? Acho que o primeiro propósito, ou efeito colateral, é o de crescer. Não, isso não significa que quem opta por não ter filhos é necessariamente um infantilizado com síndrome de Cinderela ou Peter Pan. Mas são tantas as demandas que a criança traz, são tantas as frustrações que sofremos por ter de abrir mão da vida como ela era sem filhos para poder abraçar essa nova fase, que está correta a compreensão de que há um luto a ser realizado. Perder, para ganhar. Passa-se a olhar o mundo sob duas novas perspectivas, a de pai ou de mãe e a do ponto de vista da criança, que, por ser infantil, não tem condições de olhar o mundo de nenhum outro ponto de vista que não o seu próprio. Essa é uma condição importante que distingue um adulto de uma criança: empatia.

Há certa infantilidade naquele olhar paterno ou materno que não reconhece o desejo do filho, como uma criança que se frustra com o brinquedo que não a obedece. Ter filhos é uma condição biológica que mesmo crianças em idade púbere podem realizar. Mas, para que os filhos tenham espaço de crescimento como indivíduos, é preciso que os pais amadureçam. E amadurecer é, no mínimo, chato. Ah, mas chatos são os outros pais, nós estamos apenas estressados.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho

“Fulana está muito bem, noiva de um médico!”. Era o que eu costumava ouvir as tias falarem quando queriam dizer das realizações das filhas. Namorando firme um “doutor” também era uma variante do mesmo tema que enchia de orgulho as senhoras daquele tempo. Mas isso era antigamente, quando eu era pequena e as pressões sobre a existência feminina e o altar eram imensas, certo? Mais ou menos. Parece-me que as exigências sociais para que as mulheres – e os homens, também – se adéqüem a padrões generalistas e reducionistas não saiu completamente da pauta.


A coisa começa se você está namorando alguém há algum tempo e as perguntas de quando vai ser o casamento ou se estão pensando em morar juntos se tornam inevitáveis nas reuniões de família. Caso venham a se casar, no Natal seguinte você ouvirá algumas piadinhas e também perguntas diretas acerca de para quando você está planejando engravidar. Não espere demais, lhe dizem, de forma bem-intencionada. Okay, você se casou, tem um filho e pensa que não há mais nenhuma exigência pública nessa área. Talvez reclamem que você ainda não plantou uma árvore ou escreveu um livro. Mas aí começa a pressão pelo segundo filho. “Só vão ter esse?!” as pessoas perguntam espantadas e lhe contam histórias terríveis sobre solidão e velhice. É possível que alguém puxe a arenga da necessidade de ter uma menina, para que essa ampare os pais idosos. Quando ouço isso me pergunto se as obrigações femininas já vêm tatuadas invisivelmente na nossa pele quando nascemos e também por que não conseguimos (será mesmo?) criar filhos homens suficientemente íntimos e empáticos para com suas famílias.

Uma amiga que aparentemente teria completado o checklist da felicidade familiar aos olhos dos outros – isto é, casamento e dois filhos, um menino e uma menina – uma vez me disse que ainda lhe exigem mais um acréscimo familiar: um cachorro. Ou seja, se não estiver idêntica a propaganda do banco tal, nossa foto ainda não está boa! Esse tipo de pressão é muito chata, para usar um adjetivo suave, porque, definitivamente, ainda há muitas mulheres e homens respondendo a ela. E, na vida real, existem mulheres que acalantam a idéia de ter um companheiro de vida mas não querem, necessariamente, se casar. E muitos casais não querem ter filhos, o que é perfeitamente normal, pois existem muitas vantagens em não tê-los, e tê-los, sem querê-los, é de uma irresponsabilidade que beira a crueldade. Isso vale também para os cachorros.

Não existe receita de felicidade do tipo tamanho único: uma peça veste a todos os corpos. Existe, isso sim, muitas revistas femininas com receitas de onde encontrar a felicidade e um mito de família perfeita que perpassa o imaginário coletivo. Esse mito é particularmente danoso para as mulheres porque nele somos mães de família inigualáveis, profissionais bem sucedidas, amantes ardorosas, bem vestidas, bem penteadas, corpos esculpidos, posamos ao lado de filhos e marido sorridentes e enormes cachorros que nem cabem nos apartamentos modernos. Click. É só uma imagem. Quando se apaga o flash cada um sai para um lado. Talvez a mulher more sozinha e vá para a balada com as amigas. Talvez ele seja casado e não queira ter filhos, prefira a liberdade de viajar para lugares distantes sempre que possível. As crianças talvez morem com os avós, ou com a nova família do pai e o cachorro possivelmente volte para o canil de seu criador, que o aluga para peças publicitárias. E não necessariamente essas são cenas de infelicidade, incompletude e solidão. Deve haver tantas possibilidades de viver bem quanto existam pessoas na face da terra. Que cada um possa construir a sua, inclusive sem culpa por não plantar uma árvore em tempos ecologicamente corretos e sem se sentir ignorante por não escrever um livro.

Artigo publicado no jornal O Nacional em 14/03/2010

Maria, escrava doméstica

Há um curta de animação chamado Vida Maria, de autoria de Márcio Ramos, que deveria ser material obrigatório para psicólogos, professores, e toda a espécie de cuidadores da infância. Deveria, sobretudo, ser material de divulgação ampla entre as mulheres, não importa de qual classe social, afinal somos nós, mulheres, as grandes cuidadoras da infância, as molas mestras pelas quais passa a saúde física e emocional da família.
A animação em questão é de cortar o coração. É uma história de poda de asas quando essas mal começam a apontar. Tendo o sertão do Ceará como pano de fundo – e o governo daquele estado como promotor através da lei estadual de incentivo à cultura – , nos traços dos personagens vemos transparecer a aridez da vida das Marias que apresenta, todas pertencentes a uma mesma família de mulheres, definhando sob o sol, laborando incansavelmente pelo bem da família. Há um caderninho na casa, um só, onde cada uma, na infância, desenhou seu nome, numa tentativa solitária e vã de alfabetização. Logo os afazeres domésticos as chamam, mesmo pequeninas. Lá se vão elas a lavar, limpar, cozinhar, cuidar dos irmãos pequenos e dos homens que chegam do trabalho, e o caderninho fica abandonado, mal bordado com suas letrinhas infantis. Outra Maria virá, de uma nova geração, e irá também fazer ali sua tentativa de realização da infância: brincar, descobrir, aprender.
Assistimos os sonhos dessas moças Marias serem enterrados, transgeracionalmente, sem que nenhuma mãe interrompa o ciclo para que a geração seguinte tenha uma chance de escapar ao destino de envelhecimento precoce, analfabetismo e parição excessiva. A única fala no filme é a da primeira mãe retratada, a chamar a menina que vê “à toa”, debruçada sobre o caderninho no batente da janela e diz tudo: “Em vez de ficar perdendo tempo desenhando o nome, vá lá pra fora arranjar o que fazer, vá. Tem um pátio pra varrer, tem que levar água pros bichos. Vai menina! Vê se tu me ajuda, Maria!”
Diz o dito popular que a fruta não cai longe do pé. Pessoalmente acredito que o pé não gosta que a fruta role para longe. É, talvez, da natureza do pé. O pé tem braços invisíveis, palavras que não são audíveis aos ouvidos humanos, mas que conseguem, esses braços e essas falas, penetrar no cerne da fruta e segurá-la para que permaneça presa a um caminho conhecido, portanto, seguro. Ainda que medíocre, ainda que castrador e mesmo chegando a ser um fardo, de maneira geral o conhecido é tido como mais seguro e, consequentemente, a melhor indicação que podemos fazer para nossos filhos. Afinal, nenhuma mãe amorosa lançaria seus filhos rumo à escuridão, certo? Até a mãe da Chapeuzinho Vermelho lhe disse que não fosse à floresta! Ela é que desobedeceu e nós sabemos no que deu.
Mas a questão é que o cuidar, o educar – essa tarefa tão complexa que na verdade é impossível – não deveria ser simplesmente repetir destinos. Na nutrição que nós, mães, oferecemos às famílias e, fundamentalmente a nossos filhos, deveriam estar presentes as muitas possibilidades de se evadir para longe das tradições das gerações passadas. Não temos como saber que novos caminhos serão esses e nem sequer onde podem levar, para o bem e para o mal, mas a possibilidade de que se faça diferente, de que os filhos possam se realizar enquanto indivíduos, criando asas que os levem para paragens muito diferentes daquelas que havíamos imaginado para eles, tem que estar lá. Creio que é preciso manter uma porta aberta por onde os filhos fujam dos destinos e tradições das famílias. Não se deve fechá-la. É por essa mesma porta que eles retornarão anos mais tarde, trazendo novos perfumes e cores e abraçando o lado bom da família que se renova e, assim, se afasta da raiz latina onde “famulus” designa, dentre outros, “escravo doméstico”.
Publicado no jornal O Nacional em 21/02/2010