Quando entrei na rua Morom, no meu passinho meio manco, dei de cara com as costas de duas moças. Nunca vi seus rostos. Mas chamaram minha atenção da mesma forma que chamavam a atenção de quem por elas passava e, como aparentemente íamos ao mesmo destino, fiz questão de andar atrás delas observando a reação das pessoas a sua passagem.
Não havia nada errado com as moças, com exceção de estarem em desacordo com aquilo que é qualificado de bom gosto dentro de certos parâmetros. Caminhavam muito bem dispostas em seus altos saltos, exibindo quadris e seios volumosos em calças e blusas apertadas, balançando longos cabelos com evidentes apliques e demonstrando uma sensualidade exuberante planejada para assim o parecer. De tanto em tanto uma delas, mais pudica talvez, procurava puxar o cós da calça para cima e o pequeno top para baixo, numa tentativa vã de cobrir a área propositadamente exposta entre o início do fim dos quadris e o início das costas. Depois que a gente se veste para chamar a atenção para certos atributos bate um arrependimentozinho, quem nunca passou uma festa arrumando o decote, uma alcinha que teima em não parar no lugar ou uma barra de vestido que não esperávamos que estivesse tão curto? Pode acontecer com todo mundo.
Também não havia nada de ilegal, de imoral ou que engordasse na aparência das moças, nem em sua conduta. Mas elas estavam numa rua conhecida por seu comércio e serviços voltados para as classes médias e, embora essas classes médias apreciem quadros como o da “Mulher Melancia” e congêneres, há dentre as fileiras das transeuntes da tal rua inclusive aquelas que se preocupam com o que estão vestindo ao caminhar por aquela meia dúzia de quadras. Ou seja, aquele ambiente exigiria outro tipo de vestimenta e possivelmente uma conduta mais discreta, como parece constar no contrato comportamental não escrito da região. Cada área de um conglomerado urbano tem o seu, constando o que pode, o que não pode e o que se espera de quem adentra a vizinhança. Não estão escritos e muito menos registrados, mas esses contratos existem.
De forma que não me espantei dos risinhos, das invocações religiosas, das viradas de cabeça e olhares compridos, dos “pouca vergonha” e “que descaramento” provocados pela passagem das moças. Mas me assustei um pouco quando um senhor protestou dirigindo-se a um amigo: “aqui não é lugar para esse tipo!”. E o lugar era a rua. Passeio público. Acredito que fosse qual fosse o tipo a que as vestes e o comportamento das moças pudesse aludir, o passeio das suas individualidades pelo o que é público não poderia lhes ser negado.
Há dias em que me alegro imensamente com o crescimento – desordenado, dizem muitos – da cidade. Sorrio ao ver tipos diferentes nas ruas, observar a quebra dos códigos culturais que procuram identificar quem é o certo e o errado na vida, saborear o nascimento de uma pequena multidão de anônimos, personagens de histórias tão próprias que jamais lhes passaria pela cabeça escolher um traje com base no poder aquisitivo do local pelo qual transitam. Gente ocupada demais com a própria vida para reparar o que estão pensando a seu respeito. Creio que a cidade ganha com a quebra de certos contratos comportamentais que podem oprimir dois quesitos gêmeos que são fundamentais para uma vida bem desfrutada: o da liberdade e o da criatividade. E a rua é para todos.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
sábado, 23 de julho de 2011
Dor do cão
Recentemente um de meus irmãos perdeu seu cachorro de estimação. Tinha um tumor e não resistiu, morreu quando ainda estava sendo preparado para uma cirurgia de risco. Conversei com meu irmão por telefone, pois já tendo perdido muitos cães na vida sabia da seriedade dessa dor. É a perda de um ser amado, de alguém que pertencia a família, que foi companheiro em nossa vida e compará-la a perda de um ser humano amado (É só um cachorro!) não ajuda a aliviar a dor de forma alguma, só acrescenta culpa e isolamento em quem já está passando por uma situação angustiante.
Então disse-lhe poucas palavras e ouvi bastante, sobre as providências que tomou para que o corpo do cão tivesse um final digno e ele pudesse vivenciar alguma espécie de desfecho que o auxiliasse no luto. Na nossa infância esse desfecho normalmente ocorria no pátio de casa com o auxílio de uma pá e lágrimas, mas essa não é uma alternativa viável onde meu irmão atualmente reside, até pela ausência de dois elementos centrais, a casa e o pátio. Não pude me furtar a um sorriso meio amargo ao ouvi-lo afirmar energicamente que seu cachorro não era um cão qualquer, era absolutamente especial. É o que todos dizemos ao perder o cão, o gato, o cavalo, ou qualquer outro animal que amemos. É como se justificássemos nossa dor, amenizássemos o sentimento de culpa por sofrer assim por um ser vivo que não pertence a nossa espécie. E, contudo, independente da espécie a que pertença, o amamos sinceramente.
Entristeci-me ao ouvi-lo ser a milésima pessoa nessa situação a me dizer “Nunca mais quero outro cachorro.” Acho que ele irá mudar de idéia noutro momento de sua vida. Assim espero. Sempre me parte o coração ver que a perda de um amado causou nas pessoas a rejeição a vivência de um novo amor. Dizemos coisas semelhantes quando de cabeça quente ao terminarmos um relacionamento amoroso, jurando que não queremos outro namorado, marido ou congênere “nunca mais”, mas dificilmente alguém leva isso ao pé da letra. No entanto, em relação aos animais acontece um fenômeno curioso. Não são raras as pessoas que desistem completamente da perspectiva de adotar outro bicho de estimação ao sofrerem com a morte de um. É como se não esperassem uma dor tão grande. Como se não tivessem plena consciência da quantidade de afeto que haviam investido no animal. Como se aquele sofrimento todo fosse quase uma deslealdade de parte do bicho ou de seus sentimentos, que o colocaram em situação tão frágil. Asseguram não terem condições de passar tamanho luto novamente e abdicam da convivência amorosa com um novo bichinho, cientes de que provavelmente viverão mais do que ele e chegará a hora de o enterrarem. É compreensível, mas é triste.
Dois dos meus cães estão envelhecendo. Observando-os me apanho pensando que chegará o momento de os enterrarmos, minha filha possivelmente nova demais para digerir o ciclo inevitável da vida (nós, os adultos, por acaso o digerimos?). Nessas ocasiões fico ensaiando mentalmente quais palavras direi a ela para que não desista de amar, não desista da vida apesar da dor, não se furte de investir em afeto mesmo sabendo de antemão o desfecho (não o sabemos, todos os dias?), não perca nunca a chance de viver a felicidade imediata, barata, intensa e pura que há no balançar da cauda de um cão que corre em sua direção.
Então disse-lhe poucas palavras e ouvi bastante, sobre as providências que tomou para que o corpo do cão tivesse um final digno e ele pudesse vivenciar alguma espécie de desfecho que o auxiliasse no luto. Na nossa infância esse desfecho normalmente ocorria no pátio de casa com o auxílio de uma pá e lágrimas, mas essa não é uma alternativa viável onde meu irmão atualmente reside, até pela ausência de dois elementos centrais, a casa e o pátio. Não pude me furtar a um sorriso meio amargo ao ouvi-lo afirmar energicamente que seu cachorro não era um cão qualquer, era absolutamente especial. É o que todos dizemos ao perder o cão, o gato, o cavalo, ou qualquer outro animal que amemos. É como se justificássemos nossa dor, amenizássemos o sentimento de culpa por sofrer assim por um ser vivo que não pertence a nossa espécie. E, contudo, independente da espécie a que pertença, o amamos sinceramente.
Entristeci-me ao ouvi-lo ser a milésima pessoa nessa situação a me dizer “Nunca mais quero outro cachorro.” Acho que ele irá mudar de idéia noutro momento de sua vida. Assim espero. Sempre me parte o coração ver que a perda de um amado causou nas pessoas a rejeição a vivência de um novo amor. Dizemos coisas semelhantes quando de cabeça quente ao terminarmos um relacionamento amoroso, jurando que não queremos outro namorado, marido ou congênere “nunca mais”, mas dificilmente alguém leva isso ao pé da letra. No entanto, em relação aos animais acontece um fenômeno curioso. Não são raras as pessoas que desistem completamente da perspectiva de adotar outro bicho de estimação ao sofrerem com a morte de um. É como se não esperassem uma dor tão grande. Como se não tivessem plena consciência da quantidade de afeto que haviam investido no animal. Como se aquele sofrimento todo fosse quase uma deslealdade de parte do bicho ou de seus sentimentos, que o colocaram em situação tão frágil. Asseguram não terem condições de passar tamanho luto novamente e abdicam da convivência amorosa com um novo bichinho, cientes de que provavelmente viverão mais do que ele e chegará a hora de o enterrarem. É compreensível, mas é triste.
Dois dos meus cães estão envelhecendo. Observando-os me apanho pensando que chegará o momento de os enterrarmos, minha filha possivelmente nova demais para digerir o ciclo inevitável da vida (nós, os adultos, por acaso o digerimos?). Nessas ocasiões fico ensaiando mentalmente quais palavras direi a ela para que não desista de amar, não desista da vida apesar da dor, não se furte de investir em afeto mesmo sabendo de antemão o desfecho (não o sabemos, todos os dias?), não perca nunca a chance de viver a felicidade imediata, barata, intensa e pura que há no balançar da cauda de um cão que corre em sua direção.
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