Ah, dizem todos, chegaram as tão esperadas férias de verão! Iremos descansar, não teremos aulas e sim lindos e longos dias de sol, as crianças brincarão, os cachorros passearão, pegaremos uma cor, caminharemos para emagrecer. Tomaremos sorvetes, iremos à piscina, organizaremos a casa, colocaremos o sono e a vida em dia. Nossa saúde será poupada das intempéries do frio e até para tomarmos banho estaremos mais bem dispostos. Mesmo quem trabalha em janeiro e fevereiro acha que vai levar uma vida mais tranqüila e aguarda de bom humor a chegada do calor que convida a passear depois do trabalho – diferentemente do frio, que remete todos de volta à “toca” a zelar por suas vidas.
É o que todo mundo acha quando começa o verão. Ou na primeira semana do verão. Depois os humores começam a se modificar, sutilmente a princípio, desbragadamente quando o mau humor se instala. Está quente demais. Não dá para sair nesse sol, que está “pelando”. O clube está muito cheio e não se sabe se as crianças não fizeram xixi na água. A pele descascou, ou não bronzeou como se desejava, ou bronzeou e o medo do envelhecimento precoce tomou conta e trouxe a culpa. O corpo não está no formato que se desejava (como pena o pobre corpo, sempre objeto de aversão) e colocar sunga ou biquíni resultou numa experiência bem menos excitante do que se esperava. Há pernilongos à noite e o calor não deixa ninguém dormir bem. O uso do ar condicionado pode ter causado um resfriado ou crise de rinite. O mormaço baixa a pressão e tira a vontade de caminhar ou passear. A cidade está vazia e as vendas não são boas. Não anoitece nunca e as crianças se tornam birrentas. O tédio se instalou e alguns sentem falta das aulas ou do trabalho, de saber o que fazer do tempo, basicamente. Outros sentem falta da vida social que possuem nesses círculos.
Ai, ai, as expectativas de vida perfeita, como elas nos limitam. Nada, mas nada mesmo, sai exatamente como se imaginou. Mas das coisas sobre as quais não temos controle (já reparou que é praticamente nossa vida toda?), o tempo meteorológico é dos que mais testa a capacidade de suportar frustração de parte dos humanos. Acima dele só o tempo cronológico, contra o qual travamos lutas tolas. Há os que odeiam o verão, há os que odeiam o inverno.
O Verão e o Inverno, juntamente com a Primavera das Rinites e o Outono dos Resfriados, parecem desconhecer solenemente nossas expectativas e desilusões. Marcham ao compasso imposto pelo tempo cronológico, misturam-se por vezes num dia só e cabe a nós, solitariamente conscientes de nossa existência e da deles, achar resignação, audácia, beleza e propósito em nossos dias, faça chuva ou faça sol.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Para ganhar um ano novo
Chegou o final do ano e com ele a esperança de que um ano novo signifique, para a maioria das pessoas, mudanças. Há aquelas que tiveram um bom ano e esperam que ele se repita, é claro. Mas a maioria absoluta deseja mudanças, grandes ou pequenas. Esse parece ser o momento certo para acreditar em renovação, como escreveu Carlos Drummond de Andrade em Cortar o Tempo:
Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número, e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente.
Drummond sabia do que estava falando. É preciso acreditar que as coisas vão se modificar, não há vida que se sustente por muito tempo quando a esperança mingua. Ela está lá, na virada do ano, na contagem regressiva e na comemoração do fim de um ciclo. Doze meses, apenas isso. Mas desejamos crer que agora que o calendário foi zerado é possível que nós também tenhamos sido e, assim, se inicie uma fase completamente nova da vida.
Lembro que quando tinha por volta de seis ou sete anos de idade passei a compreender verdadeiramente o Ano Novo, ou, pelo menos, achei que tinha compreendido. Um ano estava acabando, todos estavam comemorando, uma grande mudança estava para acontecer. Quando o relógio bateu meia-noite corri para a enorme sacada típica dos apartamentos funcionais da década de setenta, e olhei para o céu. Esperei. Nada aconteceu. Era uma noite escura sem estrelas. Lá de cima esquadrinhei as redondezas, mas também não vi nada de novo. Vi as pessoas celebrando, isso sim, mas a mudança que eu esperava – por que será que achei que estaria no céu? – não veio. Um dos irmãos apareceu para me chamar para entrar. Expliquei que estava esperando que algo visível, a cor do céu pelo menos, se modificasse. Afinal começava um ano novo, certo? Ouvi suas abstrações a guisa de explicações, mas me senti profundamente decepcionada. Foi um daqueles momentos de perda da ingenuidade, no qual a criança olha com feroz criticidade o mundo dos adultos. O Ano Novo, de verdade, não existia.
Desde então, vejo com certa desconfiança a histeria coletiva em torno do suposto zerar dos cronômetros, balancetes, prazos, cronogramas e calendários, sejam internos ou externos, pelo milagre da chegada de um Ano Novo. Mas, em retrospecto, acho que compreendi. É preciso acreditar, é preciso superar a exaustão da esperança. Comemorar, sorrir, brindar e dizer: “Agora será diferente”. Ou seria: “Agora farei diferente”? É novamente Drummond quem fornece o mapa para a mudança desejada em seu Receita de Ano Novo, que vale a pena ler na íntegra:
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número, e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente.
Drummond sabia do que estava falando. É preciso acreditar que as coisas vão se modificar, não há vida que se sustente por muito tempo quando a esperança mingua. Ela está lá, na virada do ano, na contagem regressiva e na comemoração do fim de um ciclo. Doze meses, apenas isso. Mas desejamos crer que agora que o calendário foi zerado é possível que nós também tenhamos sido e, assim, se inicie uma fase completamente nova da vida.
Lembro que quando tinha por volta de seis ou sete anos de idade passei a compreender verdadeiramente o Ano Novo, ou, pelo menos, achei que tinha compreendido. Um ano estava acabando, todos estavam comemorando, uma grande mudança estava para acontecer. Quando o relógio bateu meia-noite corri para a enorme sacada típica dos apartamentos funcionais da década de setenta, e olhei para o céu. Esperei. Nada aconteceu. Era uma noite escura sem estrelas. Lá de cima esquadrinhei as redondezas, mas também não vi nada de novo. Vi as pessoas celebrando, isso sim, mas a mudança que eu esperava – por que será que achei que estaria no céu? – não veio. Um dos irmãos apareceu para me chamar para entrar. Expliquei que estava esperando que algo visível, a cor do céu pelo menos, se modificasse. Afinal começava um ano novo, certo? Ouvi suas abstrações a guisa de explicações, mas me senti profundamente decepcionada. Foi um daqueles momentos de perda da ingenuidade, no qual a criança olha com feroz criticidade o mundo dos adultos. O Ano Novo, de verdade, não existia.
Desde então, vejo com certa desconfiança a histeria coletiva em torno do suposto zerar dos cronômetros, balancetes, prazos, cronogramas e calendários, sejam internos ou externos, pelo milagre da chegada de um Ano Novo. Mas, em retrospecto, acho que compreendi. É preciso acreditar, é preciso superar a exaustão da esperança. Comemorar, sorrir, brindar e dizer: “Agora será diferente”. Ou seria: “Agora farei diferente”? É novamente Drummond quem fornece o mapa para a mudança desejada em seu Receita de Ano Novo, que vale a pena ler na íntegra:
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
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