Os dois Natais mais memoráveis que já passei como adulta não envolveram grandes festejos até porque, para ser sincera, o número de participantes era bem reduzido. No primeiro só havia eu. Eu, um copo de vinho, uma comida de minha preferência e música e televisão do meu agrado. Eu e uma enorme sensação de liberdade. Eu e um aconchego que construí para mim mesma, uma paz interior, a sensação de que estava no lugar certo, num momento bom, fazendo a coisa certa para mim.
No segundo Natal já éramos cinco. Dois humanos adultos, uma trochinha em meus braços, também conhecida como bebê, e dois cachorros. Uma família recém formada, sentada na sacada, no silêncio da noite (embora sempre haja a televisão ao fundo), observando a cidade. Mais uma vez senti uma grande paz interior, daquele tipo que te diz que você está fazendo a coisa certa e te conecta com o presente, eliminando mágoas do passado e anseios futuros. Não dura muitíssimo esse momento, essa conexão com você mesma e com o presente, logo o cérebro vagueia. Mas a sensação de felicidade permanece de tal forma que é sempre rememorada.
Há uma música em inglês, cantada pela Judy Garland em um musical dos anos quarenta e subsequentemente gravada por Frank Sinatra e muitos outros ótimos intérpretes chamada Have yourself a merry little Christmas, algo que poderíamos traduzir muito livremente como Tenha um feliz e pequeno Natal para você. A letra diz: tenha um feliz e pequeno Natal; Permita que seu coração esteja leve; Ano que vem todos os nossos problemas terão desaparecido. Trata-se de um pequeno e propositado autoengano, da escolha por um momento de felicidade que independe de estarmos rodeados de muitos amigos e familiares ou não, de estarmos bem vestidos em uma festa chiquérrima, de pijama em casa ou ainda no avião ou na estrada, sonhando com a chegada. Independe porque é uma construção interna e é no interior da gente que a paz pode ser verdadeiramente construída, antes de alçar asas para o mundo exterior.
Tendo crescido numa família numerosa, onde sempre nos reuníamos, enfeitávamos o pinheiro de Natal (alguém mais colocava algodão nas pontas dos galhos para imitar neve?) e fazíamos ceia, pode parecer estranho que me agrade um pequeno e feliz Natal, mas é esse que gostaria de desejar a você, leitor. Se você comunga de uma fé, desejo que em algum momento do seu Natal você possa encontrar-se sozinho com ela e que isso lhe traga grande harmonia. Se você não comunga de fé alguma, desejo que em algum momento do seu Natal você possa encontrar-se sozinho consigo e que isso lhe traga grande paz interior.
E desejo que todos tenham um grande, inusitado, tradicional, farto, simples, agitado, tranquilo, acompanhado ou só, pequeno e feliz Natal, que possa inclusive iluminar o ano que virá.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
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sábado, 24 de dezembro de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Para ganhar um ano novo
Chegou o final do ano e com ele a esperança de que um ano novo signifique, para a maioria das pessoas, mudanças. Há aquelas que tiveram um bom ano e esperam que ele se repita, é claro. Mas a maioria absoluta deseja mudanças, grandes ou pequenas. Esse parece ser o momento certo para acreditar em renovação, como escreveu Carlos Drummond de Andrade em Cortar o Tempo:
Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número, e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente.
Drummond sabia do que estava falando. É preciso acreditar que as coisas vão se modificar, não há vida que se sustente por muito tempo quando a esperança mingua. Ela está lá, na virada do ano, na contagem regressiva e na comemoração do fim de um ciclo. Doze meses, apenas isso. Mas desejamos crer que agora que o calendário foi zerado é possível que nós também tenhamos sido e, assim, se inicie uma fase completamente nova da vida.
Lembro que quando tinha por volta de seis ou sete anos de idade passei a compreender verdadeiramente o Ano Novo, ou, pelo menos, achei que tinha compreendido. Um ano estava acabando, todos estavam comemorando, uma grande mudança estava para acontecer. Quando o relógio bateu meia-noite corri para a enorme sacada típica dos apartamentos funcionais da década de setenta, e olhei para o céu. Esperei. Nada aconteceu. Era uma noite escura sem estrelas. Lá de cima esquadrinhei as redondezas, mas também não vi nada de novo. Vi as pessoas celebrando, isso sim, mas a mudança que eu esperava – por que será que achei que estaria no céu? – não veio. Um dos irmãos apareceu para me chamar para entrar. Expliquei que estava esperando que algo visível, a cor do céu pelo menos, se modificasse. Afinal começava um ano novo, certo? Ouvi suas abstrações a guisa de explicações, mas me senti profundamente decepcionada. Foi um daqueles momentos de perda da ingenuidade, no qual a criança olha com feroz criticidade o mundo dos adultos. O Ano Novo, de verdade, não existia.
Desde então, vejo com certa desconfiança a histeria coletiva em torno do suposto zerar dos cronômetros, balancetes, prazos, cronogramas e calendários, sejam internos ou externos, pelo milagre da chegada de um Ano Novo. Mas, em retrospecto, acho que compreendi. É preciso acreditar, é preciso superar a exaustão da esperança. Comemorar, sorrir, brindar e dizer: “Agora será diferente”. Ou seria: “Agora farei diferente”? É novamente Drummond quem fornece o mapa para a mudança desejada em seu Receita de Ano Novo, que vale a pena ler na íntegra:
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número, e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente.
Drummond sabia do que estava falando. É preciso acreditar que as coisas vão se modificar, não há vida que se sustente por muito tempo quando a esperança mingua. Ela está lá, na virada do ano, na contagem regressiva e na comemoração do fim de um ciclo. Doze meses, apenas isso. Mas desejamos crer que agora que o calendário foi zerado é possível que nós também tenhamos sido e, assim, se inicie uma fase completamente nova da vida.
Lembro que quando tinha por volta de seis ou sete anos de idade passei a compreender verdadeiramente o Ano Novo, ou, pelo menos, achei que tinha compreendido. Um ano estava acabando, todos estavam comemorando, uma grande mudança estava para acontecer. Quando o relógio bateu meia-noite corri para a enorme sacada típica dos apartamentos funcionais da década de setenta, e olhei para o céu. Esperei. Nada aconteceu. Era uma noite escura sem estrelas. Lá de cima esquadrinhei as redondezas, mas também não vi nada de novo. Vi as pessoas celebrando, isso sim, mas a mudança que eu esperava – por que será que achei que estaria no céu? – não veio. Um dos irmãos apareceu para me chamar para entrar. Expliquei que estava esperando que algo visível, a cor do céu pelo menos, se modificasse. Afinal começava um ano novo, certo? Ouvi suas abstrações a guisa de explicações, mas me senti profundamente decepcionada. Foi um daqueles momentos de perda da ingenuidade, no qual a criança olha com feroz criticidade o mundo dos adultos. O Ano Novo, de verdade, não existia.
Desde então, vejo com certa desconfiança a histeria coletiva em torno do suposto zerar dos cronômetros, balancetes, prazos, cronogramas e calendários, sejam internos ou externos, pelo milagre da chegada de um Ano Novo. Mas, em retrospecto, acho que compreendi. É preciso acreditar, é preciso superar a exaustão da esperança. Comemorar, sorrir, brindar e dizer: “Agora será diferente”. Ou seria: “Agora farei diferente”? É novamente Drummond quem fornece o mapa para a mudança desejada em seu Receita de Ano Novo, que vale a pena ler na íntegra:
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
O filho que eu quero ter
Na última terça-feira foi o Dia da Criança. Um dia no qual você acaba refletindo sobre a infância, inevitavelmente. Sobre a sua infância, sobre a infância dos filhos ou das crianças do país e do mundo, sobre o que você gostaria que tivesse sido e sobre como você gostaria que as coisas fossem dali por diante. Funciona um pouco como um Ano Novo porque as reflexões acabam levando a conclusões sobre o que melhorar e sobre como podemos colaborar naquilo que gostaríamos de ver mudado. Alguma coisa, ainda que pequena, todos podemos fazer, começando por nos educarmos acerca das necessidades da infância.
Eu li um bocado de livros sobre criação de filhos. Uns me ajudaram, uns atrapalharam e de alguns poucos discordei veementemente. Há livros no mercado para todos os gostos. Desde aqueles para justificar que o mal comportamento de um filho são sinais de que ele é especial, portador de algum sinal divino, como também para incentivar uma má vontade coletiva que vê a nova geração como incompetente e preguiçosa, para a qual apenas a boa e velha “linha dura” é a solução. Exageros vendem bem, como já sabemos. Aprendi com os livros e a filha ajudou a solidificar a sabedoria de que a teoria, na prática, é outra mesmo e difícil para caramba.
Mas há uma coisa que me incomoda um pouco, algo que acredito que os livros sobre educação de crianças nunca dizem com clareza e que me parece fundamental. A primeira “grande providência” que você tem que tomar se vai ter ou teve um filho, é esta: procure se tornar a melhor pessoa que você pode ser, nesse mundo. Não a mais perfeita, por favor, não é isso. Aliás, se você vai ter um filho seria muito legal começar a abrir mão da busca da perfeição. Não, não é com o seu estresse em conciliar tudo, em ser a super-mãe da capa das revistas femininas, que estou preocupada. É com o estresse da criança, em ter que crescer à sombra de alguém em busca da perfeição.
Funciona mais ou menos assim: os pais são a fonte de formação do psiquismo infantil e o são naquilo que fazem conscientemente, sabedores de si mesmos e naquilo que são inconscientemente, naquilo de si que nem sequer reconhecem, mas que se traduz na vida, de forma imperceptível, talvez. A criança, no entanto, percebe o imperceptível. Não de forma absolutamente racionalizada, mas através do afeto que na primeira infância parece ter a forma de uma grande esponja absorvente de tudo o que se passa ao redor. Se isso estiver certo – e há dados científicos indicando que está – a melhor coisa que podemos fazer para termos filhos do jeito que nós sonhamos, é ser esse sonho. Filhos calmos? Seja calmo. Gente honesta, correta, coisa que está faltando neste país? Seja honesto, procure fazer o que você acredita que é certo. “Queremos crianças felizes”, dizem todos os pais em coro? Seja feliz, você mesmo. A sua cara de infelicidade na mesa de jantar não está ajudando. E se os filhos lhe fazem infeliz, porque tomam muito do seu tempo e dão despesas grandes, por favor, interrompa a produção imediatamente. E lembre-se que não foi solicitação deles fazerem-se irremediavelmente presentes em sua vida.
É uma máxima comum esta, de ser a mudança que você deseja, oriunda de ensinamentos orientais e reproduzida em muitos manuais de auto-ajuda. Só precisamos lembrar de a transpormos para o campo da infância. Será que há em mim, a despeito do muito ou do pouco que a vida possa ter me oferecido, a criança que eu desejaria que meu filho fosse?
Eu li um bocado de livros sobre criação de filhos. Uns me ajudaram, uns atrapalharam e de alguns poucos discordei veementemente. Há livros no mercado para todos os gostos. Desde aqueles para justificar que o mal comportamento de um filho são sinais de que ele é especial, portador de algum sinal divino, como também para incentivar uma má vontade coletiva que vê a nova geração como incompetente e preguiçosa, para a qual apenas a boa e velha “linha dura” é a solução. Exageros vendem bem, como já sabemos. Aprendi com os livros e a filha ajudou a solidificar a sabedoria de que a teoria, na prática, é outra mesmo e difícil para caramba.
Mas há uma coisa que me incomoda um pouco, algo que acredito que os livros sobre educação de crianças nunca dizem com clareza e que me parece fundamental. A primeira “grande providência” que você tem que tomar se vai ter ou teve um filho, é esta: procure se tornar a melhor pessoa que você pode ser, nesse mundo. Não a mais perfeita, por favor, não é isso. Aliás, se você vai ter um filho seria muito legal começar a abrir mão da busca da perfeição. Não, não é com o seu estresse em conciliar tudo, em ser a super-mãe da capa das revistas femininas, que estou preocupada. É com o estresse da criança, em ter que crescer à sombra de alguém em busca da perfeição.
Funciona mais ou menos assim: os pais são a fonte de formação do psiquismo infantil e o são naquilo que fazem conscientemente, sabedores de si mesmos e naquilo que são inconscientemente, naquilo de si que nem sequer reconhecem, mas que se traduz na vida, de forma imperceptível, talvez. A criança, no entanto, percebe o imperceptível. Não de forma absolutamente racionalizada, mas através do afeto que na primeira infância parece ter a forma de uma grande esponja absorvente de tudo o que se passa ao redor. Se isso estiver certo – e há dados científicos indicando que está – a melhor coisa que podemos fazer para termos filhos do jeito que nós sonhamos, é ser esse sonho. Filhos calmos? Seja calmo. Gente honesta, correta, coisa que está faltando neste país? Seja honesto, procure fazer o que você acredita que é certo. “Queremos crianças felizes”, dizem todos os pais em coro? Seja feliz, você mesmo. A sua cara de infelicidade na mesa de jantar não está ajudando. E se os filhos lhe fazem infeliz, porque tomam muito do seu tempo e dão despesas grandes, por favor, interrompa a produção imediatamente. E lembre-se que não foi solicitação deles fazerem-se irremediavelmente presentes em sua vida.
É uma máxima comum esta, de ser a mudança que você deseja, oriunda de ensinamentos orientais e reproduzida em muitos manuais de auto-ajuda. Só precisamos lembrar de a transpormos para o campo da infância. Será que há em mim, a despeito do muito ou do pouco que a vida possa ter me oferecido, a criança que eu desejaria que meu filho fosse?
sexta-feira, 2 de julho de 2010
A desordem da felicidade
Não se preocupe demais com a desordem em sua casa. Embora você se esforce, a sala nunca parece pronta para sair na capa da Casa Cláudia ou de outra revista de decoração? O quarto, então, nem pensar porque a bela poltrona escolhida a dedo está soterrada embaixo de roupas e leituras? Há calçados espalhados pelo chão? Não faz mal. As belas fotos que vemos nessas revistas não são de casas de verdade. Não no exato momento em que as fotos foram tiradas e havia uma equipe observando o enquadramento, a iluminação e colocando o vaso com rosas perfeitas um pouco mais para a direita. Umas quantas pessoas observando a casa, milimetricamente estudando os objetos para compor um ambiente vendido para ser o seu. Só que essas fotos não representam cenas de uma casa de verdade. Pelo menos não da minha, onde a casa é mais vivida do que estudada. E a gente sabe que quando a equipe da revista vai embora, depois de uns momentos de admiração pelo trabalho realizado – quando talvez as pessoas tentem nem parecer presentes para não tirar nada do lugar – a vida invade o ambiente e as rosas maravilhosas eventualmente vão parar no lixo e são substituídas, ou não. Às vezes o vaso fica vazio.
Claro que quando a gente reforma, se muda, compra móveis ou quadros, observa e estuda o ambiente para saber se ficará bom, se estará confortável e acolhedor para as pessoas morarem lá. Pessoas essas que vão tirar os sapatos e colocar os pés em cima do sofá, que largarão copos e canecas pelas mesas, que deixarão jornais pelas poltronas todas e empilharão livros em cima do criado mudo. Isso sem contar os brinquedos bem no meio da sala, para quem tem crianças ou mesmo certos bichos de estimação. Uma casa de verdade fervilha de vida, ainda que seja uma moradia de solteiro, e a vida é movimento. Dificilmente uma casa é estática, parecendo permanente capa de revista e, ainda assim, espelhando felicidade.
Uma das tarefas mais árduas na vida é designar novos lugares para os pertences de quem morreu. Fazemos isso por nossos falecidos, procurando escolher o que fica com quem e o que será doado, encontrando atordoadamente pedaços de nós mesmos em meio às louças, camisas, armários, tapetes. Sabemos que o mesmo será feito por nós – o mais importante: não sabemos quando – e nossos vestígios pela casa terão de ser dramaticamente reduzidos para que os vivos possam continuar a viver.
É por isso que ao final de domingo, quando vejo os rastros dos habitantes da minha casa espalhados por todos os cômodos, não me incomodo muito. Já estou na fase em que prefiro ver minha casa cheia e em desordem, do que vazia, pôster de possibilidades ainda não realizadas ou já finitas.
Claro que quando a gente reforma, se muda, compra móveis ou quadros, observa e estuda o ambiente para saber se ficará bom, se estará confortável e acolhedor para as pessoas morarem lá. Pessoas essas que vão tirar os sapatos e colocar os pés em cima do sofá, que largarão copos e canecas pelas mesas, que deixarão jornais pelas poltronas todas e empilharão livros em cima do criado mudo. Isso sem contar os brinquedos bem no meio da sala, para quem tem crianças ou mesmo certos bichos de estimação. Uma casa de verdade fervilha de vida, ainda que seja uma moradia de solteiro, e a vida é movimento. Dificilmente uma casa é estática, parecendo permanente capa de revista e, ainda assim, espelhando felicidade.
Uma das tarefas mais árduas na vida é designar novos lugares para os pertences de quem morreu. Fazemos isso por nossos falecidos, procurando escolher o que fica com quem e o que será doado, encontrando atordoadamente pedaços de nós mesmos em meio às louças, camisas, armários, tapetes. Sabemos que o mesmo será feito por nós – o mais importante: não sabemos quando – e nossos vestígios pela casa terão de ser dramaticamente reduzidos para que os vivos possam continuar a viver.
É por isso que ao final de domingo, quando vejo os rastros dos habitantes da minha casa espalhados por todos os cômodos, não me incomodo muito. Já estou na fase em que prefiro ver minha casa cheia e em desordem, do que vazia, pôster de possibilidades ainda não realizadas ou já finitas.
terça-feira, 8 de junho de 2010
Você tem fome de quê?
“Não tenho nada para vestir” é uma afirmação tola, eu sei, mas que também me assalta, como a quase todas as mulheres, com mais freqüência em determinado período do mês. E embora eu esteja vendo as roupas penduradas no closet, não as enxergo e repito mentalmente que “não há nada que eu possa vestir”.
Hormônios à parte, muitas vezes me pergunto quantas roupas, quantos calçados, quantas echarpes, quantos brincos, quantos, enfim, “tudo” eu realmente preciso para me sentir bem e bonita. E acabo concluindo que não preciso de muita coisa. Acho que passei da idade de necessitar de um closet entulhado de peças para acreditar que tenho roupas em número suficiente. Ou será que não são roupas e acessórios que tenho em minhas mãos? Seriam projeções de mim mesma, fantasias não realizadas, que busco lá, dentre os cabides e botas?
É claro que as roupas têm mais significação do que simplesmente vestir o corpo, principalmente no caso das mulheres. As roupas são, como me disse um psiquiatra certa feita, representações de quem podemos vir a ser. Pequenas fantasias que vestimos, como fazem as crianças pequenas com seus super-heróis, princesas e bailarinas. Por essa razão temos mais roupas do que precisamos, porque há diversão no vestir-se, sonhos e projeções de como seremos naquele dia, naquele período da vida.
No entanto, há uma certa idade em que parece que nunca temos o suficiente, seja em bolsas e sapatos, seja em moradia, aparelhos eletrônicos ou quaisquer dos lançamentos de compra “obrigatória” por parte das classes médias. Algo nos falta. Uma fome nos consome. A grama do vizinho parece sempre mais verde e o cabelo mais bem tingido. Compramos gigantescos televisores para recepção de sinal em alta resolução, embora essa tecnologia ainda não esteja disponível em nossas casas, porque, bem, é a última tecnologia. É o que está todo mundo comprando. Assalta-nos a angústia de pertencer e de demonstrar em itens visíveis aos olhos de todos, que pertencemos. A que pertencemos? Talvez a uma classe social abastada ou a um grupo intelectualmente seleto, enfim, provavelmente a algo que pareça melhor do que aquilo que imaginamos sobre nós mesmos.
Acredito que mais tarde na vida chega-se uma idade em que se deseja muitas coisas, mas não necessariamente o que todos querem. Tendo realizado algumas fantasias, trocamos quantidade por qualidade e a opinião pessoal prevalece acerca do que se consome, relegando as propagandas e os frenesis da imprensa e das classes médias a um segundo plano. A fome passa quando temos maior clareza da finitude, pois que ela se torna mais próxima, e ficamos mais serenos em relação aos bens que possuímos inclusive desfrutando deles com mais presença. Isso porque talvez a felicidade seja mesmo, como apregoam muitos, irmã da simplicidade.
Hormônios à parte, muitas vezes me pergunto quantas roupas, quantos calçados, quantas echarpes, quantos brincos, quantos, enfim, “tudo” eu realmente preciso para me sentir bem e bonita. E acabo concluindo que não preciso de muita coisa. Acho que passei da idade de necessitar de um closet entulhado de peças para acreditar que tenho roupas em número suficiente. Ou será que não são roupas e acessórios que tenho em minhas mãos? Seriam projeções de mim mesma, fantasias não realizadas, que busco lá, dentre os cabides e botas?
É claro que as roupas têm mais significação do que simplesmente vestir o corpo, principalmente no caso das mulheres. As roupas são, como me disse um psiquiatra certa feita, representações de quem podemos vir a ser. Pequenas fantasias que vestimos, como fazem as crianças pequenas com seus super-heróis, princesas e bailarinas. Por essa razão temos mais roupas do que precisamos, porque há diversão no vestir-se, sonhos e projeções de como seremos naquele dia, naquele período da vida.
No entanto, há uma certa idade em que parece que nunca temos o suficiente, seja em bolsas e sapatos, seja em moradia, aparelhos eletrônicos ou quaisquer dos lançamentos de compra “obrigatória” por parte das classes médias. Algo nos falta. Uma fome nos consome. A grama do vizinho parece sempre mais verde e o cabelo mais bem tingido. Compramos gigantescos televisores para recepção de sinal em alta resolução, embora essa tecnologia ainda não esteja disponível em nossas casas, porque, bem, é a última tecnologia. É o que está todo mundo comprando. Assalta-nos a angústia de pertencer e de demonstrar em itens visíveis aos olhos de todos, que pertencemos. A que pertencemos? Talvez a uma classe social abastada ou a um grupo intelectualmente seleto, enfim, provavelmente a algo que pareça melhor do que aquilo que imaginamos sobre nós mesmos.
Acredito que mais tarde na vida chega-se uma idade em que se deseja muitas coisas, mas não necessariamente o que todos querem. Tendo realizado algumas fantasias, trocamos quantidade por qualidade e a opinião pessoal prevalece acerca do que se consome, relegando as propagandas e os frenesis da imprensa e das classes médias a um segundo plano. A fome passa quando temos maior clareza da finitude, pois que ela se torna mais próxima, e ficamos mais serenos em relação aos bens que possuímos inclusive desfrutando deles com mais presença. Isso porque talvez a felicidade seja mesmo, como apregoam muitos, irmã da simplicidade.
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