Concordo com a Nina Lemos, que assina o divertido e sagaz blog “02 Neurônio” e uma coluna na Folha de São Paulo: o cartunista Laerte é um dos caras mais livres deste país. Para quem não sabe, Laerte, gênio (mesmo!) dos quadrinhos brasileiros, está empreendendo uma jornada como cross-dresser, atividade em que um homem ou uma mulher se veste como o sexo oposto. É claro que muita gente está pensando que o cartunista endoidou de vez ou “virou” gay. Não é o caso, embora ambas alternativas sejam direito dele, bem como a de se vestir de mulher, se assim o quiser. Ele admite que está passando por uma crise existencial, fala aberta e tranquilamente sobre isso como só os lúcidos sabem fazer e afirma: “Estou no completo controle de minhas faculdades mentais.”
O fato é que Laerte, vestido de mulher, prestou um favor a todas nós ao difundir suas impressões sobre o vestuário feminino. Ele fez descobertas interessantes sobre a vivência das mulheres ao se vestirem na nossa sociedade, verdades alheias ao conhecimento dos homens que nos cercam, como a de que é preciso gastar muito mais tempo e dinheiro em cabeleireiro, manicure e na escolha do próprio vestuário feminino em si, embora, por outro lado, as opções sejam muitas, mais interessantes e divertidas do que as do vestuário masculino. E essas declarações do Laerte, que eu prontamente imprimi e dei para o marido ler, colocaram minha imaginação em órbita. Não pude parar de pensar, durante dias, quando via os homens que conheço (e alguns que desconheço): se este homem parado na minha frente agora fosse se vestir de mulher com seriedade (não de forma carnavalesca) durante uma semana, como será que ele se sairia?
Será que teria preocupação em disfarçar sua barriga? Faria o gênero perua, elevando sua vaidade ao cubo diante de tantas possibilidades? Vestir-se-ia formalmente, terninho de trabalho com riscas de giz, embora calçando um sapato preto brilhante de salto altíssimo? Bancaria o estilo bohemian, optando por vestidões e colares? Será que a natureza de um homem se modificaria na experiência de vestir-se de mulher ou, na verdade, se revelaria? Acredito na segunda opção. Posso imaginar os extremamente organizados arrumando o guarda-roupa com exasperação porque há peças que não combinam com outras, escolhendo cuidadosamente o que irão vestir no dia seguinte e separando as roupas de forma a não amassarem. Haveria os que usariam todas as cores, estampas e tamanhos ao mesmo tempo, sem nenhum critério, apenas pelo deleite de sair da mesmice, desejo represado. E os criativos mas desorganizados, que nunca encontrariam nada no roupeiro por falta de planejamento e viveriam atrasados para seus compromissos. Chegando ao escritório, diriam ao colega ao lado, na mesa de reuniões: “Cara, não tenho nada para vestir!”
E se numa cerimônia de casamento envolvendo vestuário tradicional os papéis se invertessem e seu marido tivesse que escolher o vestido de noiva, que modelo seria do agrado dele? Suspeito que as longas caudas sairiam de moda e os arranjos de cabelo pinicantes também. Talvez as barras dos vestidos subissem. Não sei se o branco permaneceria como cor predominante.
Mas de uma coisa eu tenho certeza: se homens usassem meia-calça, dessas que desfiam por qualquer coisinha, as cadeiras e mesas do local onde você trabalha seriam todas lisinhas e a indústria das “meias-que-puxam-fio” já teriam sofrido muitos processos judiciais por venda de produto com padrão aquém do aceitável!
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
O filho que eu quero ter
Na última terça-feira foi o Dia da Criança. Um dia no qual você acaba refletindo sobre a infância, inevitavelmente. Sobre a sua infância, sobre a infância dos filhos ou das crianças do país e do mundo, sobre o que você gostaria que tivesse sido e sobre como você gostaria que as coisas fossem dali por diante. Funciona um pouco como um Ano Novo porque as reflexões acabam levando a conclusões sobre o que melhorar e sobre como podemos colaborar naquilo que gostaríamos de ver mudado. Alguma coisa, ainda que pequena, todos podemos fazer, começando por nos educarmos acerca das necessidades da infância.
Eu li um bocado de livros sobre criação de filhos. Uns me ajudaram, uns atrapalharam e de alguns poucos discordei veementemente. Há livros no mercado para todos os gostos. Desde aqueles para justificar que o mal comportamento de um filho são sinais de que ele é especial, portador de algum sinal divino, como também para incentivar uma má vontade coletiva que vê a nova geração como incompetente e preguiçosa, para a qual apenas a boa e velha “linha dura” é a solução. Exageros vendem bem, como já sabemos. Aprendi com os livros e a filha ajudou a solidificar a sabedoria de que a teoria, na prática, é outra mesmo e difícil para caramba.
Mas há uma coisa que me incomoda um pouco, algo que acredito que os livros sobre educação de crianças nunca dizem com clareza e que me parece fundamental. A primeira “grande providência” que você tem que tomar se vai ter ou teve um filho, é esta: procure se tornar a melhor pessoa que você pode ser, nesse mundo. Não a mais perfeita, por favor, não é isso. Aliás, se você vai ter um filho seria muito legal começar a abrir mão da busca da perfeição. Não, não é com o seu estresse em conciliar tudo, em ser a super-mãe da capa das revistas femininas, que estou preocupada. É com o estresse da criança, em ter que crescer à sombra de alguém em busca da perfeição.
Funciona mais ou menos assim: os pais são a fonte de formação do psiquismo infantil e o são naquilo que fazem conscientemente, sabedores de si mesmos e naquilo que são inconscientemente, naquilo de si que nem sequer reconhecem, mas que se traduz na vida, de forma imperceptível, talvez. A criança, no entanto, percebe o imperceptível. Não de forma absolutamente racionalizada, mas através do afeto que na primeira infância parece ter a forma de uma grande esponja absorvente de tudo o que se passa ao redor. Se isso estiver certo – e há dados científicos indicando que está – a melhor coisa que podemos fazer para termos filhos do jeito que nós sonhamos, é ser esse sonho. Filhos calmos? Seja calmo. Gente honesta, correta, coisa que está faltando neste país? Seja honesto, procure fazer o que você acredita que é certo. “Queremos crianças felizes”, dizem todos os pais em coro? Seja feliz, você mesmo. A sua cara de infelicidade na mesa de jantar não está ajudando. E se os filhos lhe fazem infeliz, porque tomam muito do seu tempo e dão despesas grandes, por favor, interrompa a produção imediatamente. E lembre-se que não foi solicitação deles fazerem-se irremediavelmente presentes em sua vida.
É uma máxima comum esta, de ser a mudança que você deseja, oriunda de ensinamentos orientais e reproduzida em muitos manuais de auto-ajuda. Só precisamos lembrar de a transpormos para o campo da infância. Será que há em mim, a despeito do muito ou do pouco que a vida possa ter me oferecido, a criança que eu desejaria que meu filho fosse?
Eu li um bocado de livros sobre criação de filhos. Uns me ajudaram, uns atrapalharam e de alguns poucos discordei veementemente. Há livros no mercado para todos os gostos. Desde aqueles para justificar que o mal comportamento de um filho são sinais de que ele é especial, portador de algum sinal divino, como também para incentivar uma má vontade coletiva que vê a nova geração como incompetente e preguiçosa, para a qual apenas a boa e velha “linha dura” é a solução. Exageros vendem bem, como já sabemos. Aprendi com os livros e a filha ajudou a solidificar a sabedoria de que a teoria, na prática, é outra mesmo e difícil para caramba.
Mas há uma coisa que me incomoda um pouco, algo que acredito que os livros sobre educação de crianças nunca dizem com clareza e que me parece fundamental. A primeira “grande providência” que você tem que tomar se vai ter ou teve um filho, é esta: procure se tornar a melhor pessoa que você pode ser, nesse mundo. Não a mais perfeita, por favor, não é isso. Aliás, se você vai ter um filho seria muito legal começar a abrir mão da busca da perfeição. Não, não é com o seu estresse em conciliar tudo, em ser a super-mãe da capa das revistas femininas, que estou preocupada. É com o estresse da criança, em ter que crescer à sombra de alguém em busca da perfeição.
Funciona mais ou menos assim: os pais são a fonte de formação do psiquismo infantil e o são naquilo que fazem conscientemente, sabedores de si mesmos e naquilo que são inconscientemente, naquilo de si que nem sequer reconhecem, mas que se traduz na vida, de forma imperceptível, talvez. A criança, no entanto, percebe o imperceptível. Não de forma absolutamente racionalizada, mas através do afeto que na primeira infância parece ter a forma de uma grande esponja absorvente de tudo o que se passa ao redor. Se isso estiver certo – e há dados científicos indicando que está – a melhor coisa que podemos fazer para termos filhos do jeito que nós sonhamos, é ser esse sonho. Filhos calmos? Seja calmo. Gente honesta, correta, coisa que está faltando neste país? Seja honesto, procure fazer o que você acredita que é certo. “Queremos crianças felizes”, dizem todos os pais em coro? Seja feliz, você mesmo. A sua cara de infelicidade na mesa de jantar não está ajudando. E se os filhos lhe fazem infeliz, porque tomam muito do seu tempo e dão despesas grandes, por favor, interrompa a produção imediatamente. E lembre-se que não foi solicitação deles fazerem-se irremediavelmente presentes em sua vida.
É uma máxima comum esta, de ser a mudança que você deseja, oriunda de ensinamentos orientais e reproduzida em muitos manuais de auto-ajuda. Só precisamos lembrar de a transpormos para o campo da infância. Será que há em mim, a despeito do muito ou do pouco que a vida possa ter me oferecido, a criança que eu desejaria que meu filho fosse?
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