Chegou o final do ano e com ele a esperança de que um ano novo signifique, para a maioria das pessoas, mudanças. Há aquelas que tiveram um bom ano e esperam que ele se repita, é claro. Mas a maioria absoluta deseja mudanças, grandes ou pequenas. Esse parece ser o momento certo para acreditar em renovação, como escreveu Carlos Drummond de Andrade em Cortar o Tempo:
Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número, e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente.
Drummond sabia do que estava falando. É preciso acreditar que as coisas vão se modificar, não há vida que se sustente por muito tempo quando a esperança mingua. Ela está lá, na virada do ano, na contagem regressiva e na comemoração do fim de um ciclo. Doze meses, apenas isso. Mas desejamos crer que agora que o calendário foi zerado é possível que nós também tenhamos sido e, assim, se inicie uma fase completamente nova da vida.
Lembro que quando tinha por volta de seis ou sete anos de idade passei a compreender verdadeiramente o Ano Novo, ou, pelo menos, achei que tinha compreendido. Um ano estava acabando, todos estavam comemorando, uma grande mudança estava para acontecer. Quando o relógio bateu meia-noite corri para a enorme sacada típica dos apartamentos funcionais da década de setenta, e olhei para o céu. Esperei. Nada aconteceu. Era uma noite escura sem estrelas. Lá de cima esquadrinhei as redondezas, mas também não vi nada de novo. Vi as pessoas celebrando, isso sim, mas a mudança que eu esperava – por que será que achei que estaria no céu? – não veio. Um dos irmãos apareceu para me chamar para entrar. Expliquei que estava esperando que algo visível, a cor do céu pelo menos, se modificasse. Afinal começava um ano novo, certo? Ouvi suas abstrações a guisa de explicações, mas me senti profundamente decepcionada. Foi um daqueles momentos de perda da ingenuidade, no qual a criança olha com feroz criticidade o mundo dos adultos. O Ano Novo, de verdade, não existia.
Desde então, vejo com certa desconfiança a histeria coletiva em torno do suposto zerar dos cronômetros, balancetes, prazos, cronogramas e calendários, sejam internos ou externos, pelo milagre da chegada de um Ano Novo. Mas, em retrospecto, acho que compreendi. É preciso acreditar, é preciso superar a exaustão da esperança. Comemorar, sorrir, brindar e dizer: “Agora será diferente”. Ou seria: “Agora farei diferente”? É novamente Drummond quem fornece o mapa para a mudança desejada em seu Receita de Ano Novo, que vale a pena ler na íntegra:
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Um exército de branco
Uma amiga me chamou a atenção para a declaração de uma famosa apresentadora de televisão na capa de uma revista de celebridades. A frase era: “Depois que fui mãe entendi porque vim ao mundo.” Ficamos pensativas. É que não dava para ignorar o ato falho e olha que nós não precisamos incorporar o pai da psicanálise para percebê-lo. A moça em questão, que aparece em foto posadinha (como devem ser todas as fotos comerciais, compreendo) com o filho – na qual os rostos nem se tocam – já foi mãe. A tarefa dela já acabou. Engravidou, gestou e pariu, o que, convenhamos, não é pouco em termos de experiência de vida e de doação. Agora, acredito eu, deve haver profissionais de gabarito contratadas para cuidar do pequenote e assegurar que a vida dele vá em frente. Essa mãe pagará por todas essas despesas o que também, reconheço, não é pouco, materialmente falando. Materialmente.
Há um exército de branco em marcha nas classes médias e nas classes altas do país. São as babás, que vão desde as que moram nas residências, as que passam o dia ou a noite junto da criança, as que trabalham em sistema de revezamento e as absolutamente desconhecidas, cujo trabalho é oferecido em resorts para que o casal que viajou sem sua babá possa receber o merecido descanso. É um serviço que não tem preço. Ou tem e baixo em muitas ocasiões, embora, se pararmos para pensar, substituir uma mãe seja algo de absolutamente precioso. Desejo muito que as recrutas desse exército estejam devidamente preparadas para uma tarefa tão importante, que influi nos fundamentos da sociedade.
O que está sendo substituído não é o trocar de fraldas, não é o embalar para dormir, não é o dar banho ou dar papinha. O que as babás realizam vai muito além dessas tarefas embora esteja embutido na própria realização delas. É através do olhar e do toque de quem o cuida, da maneira mesmo como é manipulado e de como se conversa com ele que o bebê vai desenvolver seu psiquismo, ou seja, vai desenvolver o mais fundamental manacial de emoções ao qual recorrerá a vida inteira, nas mais diversas situações que enfrentar. Crianças mais velhas já o tem formado, mas todos sabemos o que comparações entre irmãos, palavras duras e escárnio, só para citar alguns exemplos, podem fazer no desenvolvimento de uma criança ou mesmo de um adolescente.
Seria bom que não houvesse um mercado tão grande para as celebridades que se parecem “gente como a gente”, só que melhorada. Gente que faz compras no supermercado, mas usando salto agulha. Gente que trabalha muito e se alimenta “corretamente”, por isso não adoece. Gente que dá à luz como você, leitora, mas que em menos de um mês depois está de volta à forma ou, quem sabe, em melhor forma! Esse produto que chamo “celebridade que você pode imitar” tem um preço alto e é invariavelmente fadado ao fracasso. Me recuso a comprar.
****************************************
Em tempo, não me apedrejem: não sou contra a recorrer à ajuda de babás na criação dos filhos. Especialmente em famílias pequenas, cada vez mais comuns. Sei que é preciso muita ajuda e aprendi um bocado ouvindo mulheres simples, mas sábias nos seus palpites e experiências.
Há um exército de branco em marcha nas classes médias e nas classes altas do país. São as babás, que vão desde as que moram nas residências, as que passam o dia ou a noite junto da criança, as que trabalham em sistema de revezamento e as absolutamente desconhecidas, cujo trabalho é oferecido em resorts para que o casal que viajou sem sua babá possa receber o merecido descanso. É um serviço que não tem preço. Ou tem e baixo em muitas ocasiões, embora, se pararmos para pensar, substituir uma mãe seja algo de absolutamente precioso. Desejo muito que as recrutas desse exército estejam devidamente preparadas para uma tarefa tão importante, que influi nos fundamentos da sociedade.
O que está sendo substituído não é o trocar de fraldas, não é o embalar para dormir, não é o dar banho ou dar papinha. O que as babás realizam vai muito além dessas tarefas embora esteja embutido na própria realização delas. É através do olhar e do toque de quem o cuida, da maneira mesmo como é manipulado e de como se conversa com ele que o bebê vai desenvolver seu psiquismo, ou seja, vai desenvolver o mais fundamental manacial de emoções ao qual recorrerá a vida inteira, nas mais diversas situações que enfrentar. Crianças mais velhas já o tem formado, mas todos sabemos o que comparações entre irmãos, palavras duras e escárnio, só para citar alguns exemplos, podem fazer no desenvolvimento de uma criança ou mesmo de um adolescente.
Seria bom que não houvesse um mercado tão grande para as celebridades que se parecem “gente como a gente”, só que melhorada. Gente que faz compras no supermercado, mas usando salto agulha. Gente que trabalha muito e se alimenta “corretamente”, por isso não adoece. Gente que dá à luz como você, leitora, mas que em menos de um mês depois está de volta à forma ou, quem sabe, em melhor forma! Esse produto que chamo “celebridade que você pode imitar” tem um preço alto e é invariavelmente fadado ao fracasso. Me recuso a comprar.
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Em tempo, não me apedrejem: não sou contra a recorrer à ajuda de babás na criação dos filhos. Especialmente em famílias pequenas, cada vez mais comuns. Sei que é preciso muita ajuda e aprendi um bocado ouvindo mulheres simples, mas sábias nos seus palpites e experiências.
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