A raiva que ela tem guardada dentro de si é enorme. Um Aconcágua de mágoas. De memórias mesquinhas, de desaforos não ditos, de raiva contra o destino que não obedeceu seus ditames um tanto quanto infantis, de ódio do ex-marido e do rumo que a vida do filho tomou, penalizando a sua própria. Então ela resolve escrever suas dores em cartas dirigidas ao ex-marido, missivas repletas de dor e muita, muita raiva. Embora esteja longe do desfecho da história, o que mais me mobiliza na leitura de Precisamos Falar Sobre o Kevin (Lionel Shriver, editora Intrínseca) é a demolição metódica do passado familiar realizado pela personagem mãe, a autora da correspondência, regada a muita raiva e profunda incapacidade de apego ao filho, um estranho saído, ironicamente, de suas entranhas. Não chega a ser um caso raro.
“Não está nada bem, essa mãe”, nos dizemos. “Sem dúvida é louca”, é a afirmação mais frequente nos fóruns de debate sobre o livro, possivelmente por ser a que mais traz alívio imediato. Trata-se de uma leitura perturbadora precisamente por provocar clarões de empatia em qualquer mãe que venha a lê-la com honestidade. Por isso acorremos em nos diferenciar dessa mãe monstruosa, desequilibrada, raivosa, para garantirmos a nós mesmas que jamais seriamos assim. Mas temo que nos iludamos com muito fervor. A raiva não é um sentimento ausente no exercício da maternidade. A frustração, a mágoa, o entorpecimento que faz esvanecer os gestos de carinho são mais frequentes do que gostaríamos de admitir, mesmo em mães de classe média que, aparentemente, não teriam maiores preocupações como a da garantia da sobrevivência.
O isolamento e a frustração decorrentes da maternidade, e a demanda permanente de atenção que raramente é dispensada a si própria (elevada ao cubo quando a mulher trabalha fora de casa) podem ser devastadoras para a mulher. E aquela mãe sorridente na saída da escola do filho, carregando mochilas, sacolas de supermercado e o mundo nos ombros pode estar prestes a explodir. E pode inclusive não explodir, mas certamente acabará em lágrimas. A raiva é, muitas vezes, a antessala da depressão.
Para tentarmos compreender um sentimento tão forte como a raiva, podemos atribuir aos outros, aos que nos cercam, problemas que estão no cerne de quem nós realmente somos, das escolhas de vida que fizemos e das quais podemos estar arrependidas. Nessas situações diálogo é um bote salva vidas. E diálogo é um luxo ao qual muitas mães não tem acesso. Qual é a saída? Escrever, como faz a mãe do livro que estou lendo, é uma possibilidade. Talvez um blog com pseudônimo seja uma porta para estabelecer um diálogo com outras pessoas em situação semelhante. Há quem sugira acalmar a mente com técnicas meditativas. É uma boa ideia. Até kickboxing é uma ideia mais produtiva do que destilar a raiva sobre os familiares. E, em tendo chance, um bom terapeuta fará toda a diferença na vida não só da mãe, mas de todos os que dependem emocionalmente dela. O melhor presente que se pode dar aos filhos, creio.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
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quarta-feira, 30 de novembro de 2011
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
A fuga da torre
A mãe/madrasta/bruxa de Branca de Neve inveja a beleza da jovem em crescimento e se desespera frente a um espelho que indica seu envelhecimento enquanto a menina floresce. A mãe/bruxa de Rapunzel tranca a menina numa torre ao primeiro sinal de puberdade, temerosa do desabrochar da sexualidade desta e os conseqüentes vôos para o conhecimento e a vida adulta. A Outra Mãe (uma bruxa, na verdade) de Coraline deseja substituir os olhos da pré adolescente por botões, sugando-lhe a alma e a vida que está prestes a desabrochar. Mães que invejam suas crias e desejam engolir suas vidas, sua beleza, sua juventude. Por que será que este tema é recorrente na literatura?
O filme Enrolados, da Disney, não perde de vista a essência do conto original de Rapunzel, embora, como de hábito nas produções daquele estúdio, lhe ofereça uma releitura suave e com final feliz. No original a menina é seduzida por um príncipe que sobre a torre e a engravida. Furiosa com a traição, a bruxa corta seus cabelos e a condena a viver no deserto, onde Rapunzel, sozinha, dá à luz gêmeos. A bruxa ainda cega o príncipe que é condenado a vagar pelo mundo em busca de sua amada. Algumas versões contam que ao finalmente se reencontrarem, muitos anos depois, as lágrimas de Rapunzel curam o rapaz da cegueira.
Em Enrolados, embora o roteirista tenha criado uma trama diferente – delicada e divertida com personagens secundários inesquecíveis, como o cavalo Maximus – a cena em que a mãe amedronta, ridiculariza e solapa a auto-estima de uma temerosa Rapunzel que lhe pede permissão para, em seu aniversário, sair da torre, é fenomenal. Não sobraria pedra sobre pedra dos desejos individuais da jovem Rapunzel após a mãe lhe convencer de que ela não tem inteligência ou habilidades para sobreviver fora da torre sem seus “cuidados”, de que é feia e desajeitada e de que o mundo é um lugar terrível e apenas a mãe possui os talentos necessários para viver nele, talentos que a jovem jamais alcançará. No filme, mesmo após anos sob tal abuso Rapunzel não desiste em sair da torre e, quando o faz, descobre que a suposta mãe necessita de sua magia – leia-se juventude e beleza – como antídoto a sua feiúra e velhice. Na vida real, como dolorosamente retratado no filme Preciosa, seria impossível permanecer com o ego inteiro frente a ataques dessa natureza por parte da própria mãe. Mães que temem o crescimento da filha, que invejam a juventude e beleza desta e que confundem seu papel de apoiadoras e incentivadoras com o de concorrentes darwinianas em situação de busca de macho para acasalamento não são, infelizmente, uma raridade absoluta.
Os filhos, ao crescerem, de certa forma descortinam definitivamente aos pais sua decadência e finitude. Perceber o declínio de seu poder sexual, de sua beleza e mesmo a morte inevitável em uma curva do tempo mais adiante, ao mesmo tempo que aplaude, apóia e orienta o desabrochar da sexualidade, da beleza e os primeiros passos para a vida adulta que se inicia para uma filha é a prova definitiva da maturidade de uma mãe. A progenitora invejosa e predadora não é circunscrita à literatura e as filhas vítimas dessas concorrentes desleais precisam de ajuda externa ao elo com a mãe – de parentes, professores, amigas e terapeutas – para construírem a saída da torre onde estiveram trancafiadas.
O filme Enrolados, da Disney, não perde de vista a essência do conto original de Rapunzel, embora, como de hábito nas produções daquele estúdio, lhe ofereça uma releitura suave e com final feliz. No original a menina é seduzida por um príncipe que sobre a torre e a engravida. Furiosa com a traição, a bruxa corta seus cabelos e a condena a viver no deserto, onde Rapunzel, sozinha, dá à luz gêmeos. A bruxa ainda cega o príncipe que é condenado a vagar pelo mundo em busca de sua amada. Algumas versões contam que ao finalmente se reencontrarem, muitos anos depois, as lágrimas de Rapunzel curam o rapaz da cegueira.
Em Enrolados, embora o roteirista tenha criado uma trama diferente – delicada e divertida com personagens secundários inesquecíveis, como o cavalo Maximus – a cena em que a mãe amedronta, ridiculariza e solapa a auto-estima de uma temerosa Rapunzel que lhe pede permissão para, em seu aniversário, sair da torre, é fenomenal. Não sobraria pedra sobre pedra dos desejos individuais da jovem Rapunzel após a mãe lhe convencer de que ela não tem inteligência ou habilidades para sobreviver fora da torre sem seus “cuidados”, de que é feia e desajeitada e de que o mundo é um lugar terrível e apenas a mãe possui os talentos necessários para viver nele, talentos que a jovem jamais alcançará. No filme, mesmo após anos sob tal abuso Rapunzel não desiste em sair da torre e, quando o faz, descobre que a suposta mãe necessita de sua magia – leia-se juventude e beleza – como antídoto a sua feiúra e velhice. Na vida real, como dolorosamente retratado no filme Preciosa, seria impossível permanecer com o ego inteiro frente a ataques dessa natureza por parte da própria mãe. Mães que temem o crescimento da filha, que invejam a juventude e beleza desta e que confundem seu papel de apoiadoras e incentivadoras com o de concorrentes darwinianas em situação de busca de macho para acasalamento não são, infelizmente, uma raridade absoluta.
Os filhos, ao crescerem, de certa forma descortinam definitivamente aos pais sua decadência e finitude. Perceber o declínio de seu poder sexual, de sua beleza e mesmo a morte inevitável em uma curva do tempo mais adiante, ao mesmo tempo que aplaude, apóia e orienta o desabrochar da sexualidade, da beleza e os primeiros passos para a vida adulta que se inicia para uma filha é a prova definitiva da maturidade de uma mãe. A progenitora invejosa e predadora não é circunscrita à literatura e as filhas vítimas dessas concorrentes desleais precisam de ajuda externa ao elo com a mãe – de parentes, professores, amigas e terapeutas – para construírem a saída da torre onde estiveram trancafiadas.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Um exército de branco
Uma amiga me chamou a atenção para a declaração de uma famosa apresentadora de televisão na capa de uma revista de celebridades. A frase era: “Depois que fui mãe entendi porque vim ao mundo.” Ficamos pensativas. É que não dava para ignorar o ato falho e olha que nós não precisamos incorporar o pai da psicanálise para percebê-lo. A moça em questão, que aparece em foto posadinha (como devem ser todas as fotos comerciais, compreendo) com o filho – na qual os rostos nem se tocam – já foi mãe. A tarefa dela já acabou. Engravidou, gestou e pariu, o que, convenhamos, não é pouco em termos de experiência de vida e de doação. Agora, acredito eu, deve haver profissionais de gabarito contratadas para cuidar do pequenote e assegurar que a vida dele vá em frente. Essa mãe pagará por todas essas despesas o que também, reconheço, não é pouco, materialmente falando. Materialmente.
Há um exército de branco em marcha nas classes médias e nas classes altas do país. São as babás, que vão desde as que moram nas residências, as que passam o dia ou a noite junto da criança, as que trabalham em sistema de revezamento e as absolutamente desconhecidas, cujo trabalho é oferecido em resorts para que o casal que viajou sem sua babá possa receber o merecido descanso. É um serviço que não tem preço. Ou tem e baixo em muitas ocasiões, embora, se pararmos para pensar, substituir uma mãe seja algo de absolutamente precioso. Desejo muito que as recrutas desse exército estejam devidamente preparadas para uma tarefa tão importante, que influi nos fundamentos da sociedade.
O que está sendo substituído não é o trocar de fraldas, não é o embalar para dormir, não é o dar banho ou dar papinha. O que as babás realizam vai muito além dessas tarefas embora esteja embutido na própria realização delas. É através do olhar e do toque de quem o cuida, da maneira mesmo como é manipulado e de como se conversa com ele que o bebê vai desenvolver seu psiquismo, ou seja, vai desenvolver o mais fundamental manacial de emoções ao qual recorrerá a vida inteira, nas mais diversas situações que enfrentar. Crianças mais velhas já o tem formado, mas todos sabemos o que comparações entre irmãos, palavras duras e escárnio, só para citar alguns exemplos, podem fazer no desenvolvimento de uma criança ou mesmo de um adolescente.
Seria bom que não houvesse um mercado tão grande para as celebridades que se parecem “gente como a gente”, só que melhorada. Gente que faz compras no supermercado, mas usando salto agulha. Gente que trabalha muito e se alimenta “corretamente”, por isso não adoece. Gente que dá à luz como você, leitora, mas que em menos de um mês depois está de volta à forma ou, quem sabe, em melhor forma! Esse produto que chamo “celebridade que você pode imitar” tem um preço alto e é invariavelmente fadado ao fracasso. Me recuso a comprar.
****************************************
Em tempo, não me apedrejem: não sou contra a recorrer à ajuda de babás na criação dos filhos. Especialmente em famílias pequenas, cada vez mais comuns. Sei que é preciso muita ajuda e aprendi um bocado ouvindo mulheres simples, mas sábias nos seus palpites e experiências.
Há um exército de branco em marcha nas classes médias e nas classes altas do país. São as babás, que vão desde as que moram nas residências, as que passam o dia ou a noite junto da criança, as que trabalham em sistema de revezamento e as absolutamente desconhecidas, cujo trabalho é oferecido em resorts para que o casal que viajou sem sua babá possa receber o merecido descanso. É um serviço que não tem preço. Ou tem e baixo em muitas ocasiões, embora, se pararmos para pensar, substituir uma mãe seja algo de absolutamente precioso. Desejo muito que as recrutas desse exército estejam devidamente preparadas para uma tarefa tão importante, que influi nos fundamentos da sociedade.
O que está sendo substituído não é o trocar de fraldas, não é o embalar para dormir, não é o dar banho ou dar papinha. O que as babás realizam vai muito além dessas tarefas embora esteja embutido na própria realização delas. É através do olhar e do toque de quem o cuida, da maneira mesmo como é manipulado e de como se conversa com ele que o bebê vai desenvolver seu psiquismo, ou seja, vai desenvolver o mais fundamental manacial de emoções ao qual recorrerá a vida inteira, nas mais diversas situações que enfrentar. Crianças mais velhas já o tem formado, mas todos sabemos o que comparações entre irmãos, palavras duras e escárnio, só para citar alguns exemplos, podem fazer no desenvolvimento de uma criança ou mesmo de um adolescente.
Seria bom que não houvesse um mercado tão grande para as celebridades que se parecem “gente como a gente”, só que melhorada. Gente que faz compras no supermercado, mas usando salto agulha. Gente que trabalha muito e se alimenta “corretamente”, por isso não adoece. Gente que dá à luz como você, leitora, mas que em menos de um mês depois está de volta à forma ou, quem sabe, em melhor forma! Esse produto que chamo “celebridade que você pode imitar” tem um preço alto e é invariavelmente fadado ao fracasso. Me recuso a comprar.
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Em tempo, não me apedrejem: não sou contra a recorrer à ajuda de babás na criação dos filhos. Especialmente em famílias pequenas, cada vez mais comuns. Sei que é preciso muita ajuda e aprendi um bocado ouvindo mulheres simples, mas sábias nos seus palpites e experiências.
sábado, 24 de julho de 2010
A mãe estóica
Não tenho a intenção de menosprezar as mães que são donas de casa. De jeito nenhum. É um trabalho insano, fundamental para o funcionamento da unidade familiar, em especial nas famílias que não tem como pagar uma empregada doméstica, e muito raramente reconhecido de verdade. Geladeira de presente no Dia das Mães, para mim, é piada de muito mau gosto. Faço “campanha” para que as famílias de classe média percebam a importância de se recolher o INSS para a mãe dona de casa de forma que ela possa vir a se aposentar um dia, depois de muitos anos trabalhando sem nenhuma remuneração. Acho que deve ser justamente em virtude da pouca valorização do seu trabalho que algumas mães insistem em buscar o reconhecimento do seu sacrifício junto aos familiares, na base da chantagem. Chamo esse fenômeno de “A mãe estóica”, me apropriando do sentido vulgar da palavra estoicismo, de não temor ao sofrimento. Sei que é meio redundante porque ser mãe e dona de casa de mangas arregaçadas requer um bocado de estoicismo, se compreendido como busca da virtude. Mas desse barco chamado estóico, para o chamado masoquista, para o chantagista, os pulos são pequenos no rio da frustração e os sofrimentos acabam por alcançar o mar. Tudo fica contaminado.
A titulo de exemplificação pensemos no famoso doce gaúcho chamado chimia ao qual só tínhamos acesso na infância se alguém da família se dispusesse a fazê-lo. Dá um trabalhão danado, especialmente se for de figo. Então, se alguém deseja fazer tachos de chimia além de todas as outras tarefas domésticas que lhe cabem, que faça porque gosta, por terapia, por diversão, pelo desafio do novo, mas não por obrigação. Afinal, há chimia pronta no supermercado, ainda por cima com muita variedade. Provavelmente mais barata do que a feita em casa, se somados inclusive o fator mão-de-obra, que infelizmente não é pago. Não faça chimia porque acha que é seu dever, porque na verdade não acredita que tenha direito a umas horas na poltrona em frente a TV e depois fique reclamando com os filhos e o marido que está com as mãos queimadas de mexer no tacho. Conheço cenas de tachos de chimia onde fervem mágoas de anos de não reconhecimento mais tarde espalhadas no pão nosso de cada dia dos familiares. As fatias engolidas com a culpa mal mastigada.
Há quem queira quarar roupa (e no inverno!) porque não se conforma enquanto o branco não ficar bem branquinho mesmo? Está bem, é um direito que assiste a quem curte o “branco mais branco”. Lembre-se apenas que esse é um prazer seu e bastante solitário, ok? Vai ser difícil emplacar essa conversa com os outros membros da família – “Olha só como esse lençol clareou depois de quarar!” – e eles acompanharem com o mesmo grau de entusiasmo que você. Seu filho adolescente possivelmente não vai nem prestar atenção se a camiseta está mais branca ou mais amarelada. Não espere que ele lhe agradeça pelo alvor de seu uniforme escolar. Essa é uma necessidade sua. Não exija de suas filhas que a imitem. A escolha de pegar o caminho mais complicado para lavar as roupas, colocar comida na mesa, limpar a casa, acompanhar os familiares em suas demandas, é, na verdade, bastante pessoal.
Nem estoicistas nem hedonistas, o bom mesmo seria que as mães e donas de casa pudessem criar espaços de conforto para si mesmas nos seus cotidianos atribulados de muito trabalho incluindo a possibilidade de poder, na velhice, encontrar a sua espera uma remuneração e alguma garantia de descanso.
A titulo de exemplificação pensemos no famoso doce gaúcho chamado chimia ao qual só tínhamos acesso na infância se alguém da família se dispusesse a fazê-lo. Dá um trabalhão danado, especialmente se for de figo. Então, se alguém deseja fazer tachos de chimia além de todas as outras tarefas domésticas que lhe cabem, que faça porque gosta, por terapia, por diversão, pelo desafio do novo, mas não por obrigação. Afinal, há chimia pronta no supermercado, ainda por cima com muita variedade. Provavelmente mais barata do que a feita em casa, se somados inclusive o fator mão-de-obra, que infelizmente não é pago. Não faça chimia porque acha que é seu dever, porque na verdade não acredita que tenha direito a umas horas na poltrona em frente a TV e depois fique reclamando com os filhos e o marido que está com as mãos queimadas de mexer no tacho. Conheço cenas de tachos de chimia onde fervem mágoas de anos de não reconhecimento mais tarde espalhadas no pão nosso de cada dia dos familiares. As fatias engolidas com a culpa mal mastigada.
Há quem queira quarar roupa (e no inverno!) porque não se conforma enquanto o branco não ficar bem branquinho mesmo? Está bem, é um direito que assiste a quem curte o “branco mais branco”. Lembre-se apenas que esse é um prazer seu e bastante solitário, ok? Vai ser difícil emplacar essa conversa com os outros membros da família – “Olha só como esse lençol clareou depois de quarar!” – e eles acompanharem com o mesmo grau de entusiasmo que você. Seu filho adolescente possivelmente não vai nem prestar atenção se a camiseta está mais branca ou mais amarelada. Não espere que ele lhe agradeça pelo alvor de seu uniforme escolar. Essa é uma necessidade sua. Não exija de suas filhas que a imitem. A escolha de pegar o caminho mais complicado para lavar as roupas, colocar comida na mesa, limpar a casa, acompanhar os familiares em suas demandas, é, na verdade, bastante pessoal.
Nem estoicistas nem hedonistas, o bom mesmo seria que as mães e donas de casa pudessem criar espaços de conforto para si mesmas nos seus cotidianos atribulados de muito trabalho incluindo a possibilidade de poder, na velhice, encontrar a sua espera uma remuneração e alguma garantia de descanso.
sábado, 8 de maio de 2010
Uma mãe suficientemente boa
Cuidado, sua mãe pode comer a sua vida. Ela faz todas as suas vontades, te dá tudo o que você pede, está sempre presente e disponível, ela se dedica a você, somente a você, todas as horas do dia. Sem você, a vida dela seria muito vazia e tudo que ela espera é que você seja uma boa filha, ou um bom filho. Nada que uma chantagem (zinha?) não resolva em momentos de discórdia no mundo idílico do relacionamento de vocês. Essa mãe maravilhosa só tem um detalhe que a distingue das demais. Seus olhos, chamados popularmente de espelho da alma, são, na verdade, apenas botões.
Essa é uma das mães que com que se defronta a menina Coraline, no genial filme homônimo de Henry Selick baseado no romance do inventivo Neil Gaiman, um verdadeiro autor de contos de fadas.
Há, é claro, sua mãe verdadeira, cuja atenção à menina infelizmente não chega aos pés da dedicação que lhe oferece a outra mãe, naquele mundo paralelo que gira ao redor dos desejos de Coraline. A mãe verdadeira, para mal dos males, se vê envolvida em pagar contas, cuidar da casa, trabalhar e realmente não é, nesse caso específico, a mais divertida e companheira das mães. Mas com ela Coraline tem a chance de brincar sem ser muito controlada e não chega a ser negligenciada nem por falta, nem por excesso. Essa mãe que nem sequer sabe cozinhar uma comida gostosa parece amar muito a filha, mas – que absurdo! – tem uma vida sua para cuidar também e Coraline está longe de ser um bebê, que necessita de atenção em tempo integral.
A escolha da menina é complicada. Ficar com uma mãe que se dedica somente a ela significa ser devorada viva, não poder crescer, não acalentar sonhos seus, segredos e nichos de desejos onde a personalidade se desdobra para depois florescer em aventuras pelo mundo. O que lhe reservará a vida lá fora? Com certeza nada tão aconchegante como o ninho materno que, no entanto, é pequeno para suportar seu crescimento e onde permanecerá imóvel. Talvez como a Carolina da canção, com seus olhos que guardam tanta dor (feitos de botões?) a olhar pela janela o grande e vasto mundo em movimento lá fora, tão distante de suas possibilidades. Ficar com a mãe verdadeira significa não ter seus desejos realizados prontamente, empenhar-se sozinha em tarefas que preferiria delegar a terceiros e ainda ter que aturar diariamente a tessitura dessa delicada teia que une mãe e filha, na qual se misturam amor e impaciência em doses por vezes quase que iguais.
Contudo a mãe imperfeita – que não é má e quando consegue equilibrar as contas da casa se lembra de lhe dar um presente, ou seja, não está assim tão desatenta aos desejos seus – tem um grande trunfo: oferecerá a Coraline um lar também imperfeito e, com ele, a aventura de estar viva nesse mundo, com seus defeitos e delícias. Um bom filme para o Dia das Mães.
Essa é uma das mães que com que se defronta a menina Coraline, no genial filme homônimo de Henry Selick baseado no romance do inventivo Neil Gaiman, um verdadeiro autor de contos de fadas.
Há, é claro, sua mãe verdadeira, cuja atenção à menina infelizmente não chega aos pés da dedicação que lhe oferece a outra mãe, naquele mundo paralelo que gira ao redor dos desejos de Coraline. A mãe verdadeira, para mal dos males, se vê envolvida em pagar contas, cuidar da casa, trabalhar e realmente não é, nesse caso específico, a mais divertida e companheira das mães. Mas com ela Coraline tem a chance de brincar sem ser muito controlada e não chega a ser negligenciada nem por falta, nem por excesso. Essa mãe que nem sequer sabe cozinhar uma comida gostosa parece amar muito a filha, mas – que absurdo! – tem uma vida sua para cuidar também e Coraline está longe de ser um bebê, que necessita de atenção em tempo integral.
A escolha da menina é complicada. Ficar com uma mãe que se dedica somente a ela significa ser devorada viva, não poder crescer, não acalentar sonhos seus, segredos e nichos de desejos onde a personalidade se desdobra para depois florescer em aventuras pelo mundo. O que lhe reservará a vida lá fora? Com certeza nada tão aconchegante como o ninho materno que, no entanto, é pequeno para suportar seu crescimento e onde permanecerá imóvel. Talvez como a Carolina da canção, com seus olhos que guardam tanta dor (feitos de botões?) a olhar pela janela o grande e vasto mundo em movimento lá fora, tão distante de suas possibilidades. Ficar com a mãe verdadeira significa não ter seus desejos realizados prontamente, empenhar-se sozinha em tarefas que preferiria delegar a terceiros e ainda ter que aturar diariamente a tessitura dessa delicada teia que une mãe e filha, na qual se misturam amor e impaciência em doses por vezes quase que iguais.
Contudo a mãe imperfeita – que não é má e quando consegue equilibrar as contas da casa se lembra de lhe dar um presente, ou seja, não está assim tão desatenta aos desejos seus – tem um grande trunfo: oferecerá a Coraline um lar também imperfeito e, com ele, a aventura de estar viva nesse mundo, com seus defeitos e delícias. Um bom filme para o Dia das Mães.
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