Os dois Natais mais memoráveis que já passei como adulta não envolveram grandes festejos até porque, para ser sincera, o número de participantes era bem reduzido. No primeiro só havia eu. Eu, um copo de vinho, uma comida de minha preferência e música e televisão do meu agrado. Eu e uma enorme sensação de liberdade. Eu e um aconchego que construí para mim mesma, uma paz interior, a sensação de que estava no lugar certo, num momento bom, fazendo a coisa certa para mim.
No segundo Natal já éramos cinco. Dois humanos adultos, uma trochinha em meus braços, também conhecida como bebê, e dois cachorros. Uma família recém formada, sentada na sacada, no silêncio da noite (embora sempre haja a televisão ao fundo), observando a cidade. Mais uma vez senti uma grande paz interior, daquele tipo que te diz que você está fazendo a coisa certa e te conecta com o presente, eliminando mágoas do passado e anseios futuros. Não dura muitíssimo esse momento, essa conexão com você mesma e com o presente, logo o cérebro vagueia. Mas a sensação de felicidade permanece de tal forma que é sempre rememorada.
Há uma música em inglês, cantada pela Judy Garland em um musical dos anos quarenta e subsequentemente gravada por Frank Sinatra e muitos outros ótimos intérpretes chamada Have yourself a merry little Christmas, algo que poderíamos traduzir muito livremente como Tenha um feliz e pequeno Natal para você. A letra diz: tenha um feliz e pequeno Natal; Permita que seu coração esteja leve; Ano que vem todos os nossos problemas terão desaparecido. Trata-se de um pequeno e propositado autoengano, da escolha por um momento de felicidade que independe de estarmos rodeados de muitos amigos e familiares ou não, de estarmos bem vestidos em uma festa chiquérrima, de pijama em casa ou ainda no avião ou na estrada, sonhando com a chegada. Independe porque é uma construção interna e é no interior da gente que a paz pode ser verdadeiramente construída, antes de alçar asas para o mundo exterior.
Tendo crescido numa família numerosa, onde sempre nos reuníamos, enfeitávamos o pinheiro de Natal (alguém mais colocava algodão nas pontas dos galhos para imitar neve?) e fazíamos ceia, pode parecer estranho que me agrade um pequeno e feliz Natal, mas é esse que gostaria de desejar a você, leitor. Se você comunga de uma fé, desejo que em algum momento do seu Natal você possa encontrar-se sozinho com ela e que isso lhe traga grande harmonia. Se você não comunga de fé alguma, desejo que em algum momento do seu Natal você possa encontrar-se sozinho consigo e que isso lhe traga grande paz interior.
E desejo que todos tenham um grande, inusitado, tradicional, farto, simples, agitado, tranquilo, acompanhado ou só, pequeno e feliz Natal, que possa inclusive iluminar o ano que virá.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
sábado, 24 de dezembro de 2011
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Propaganda Enganosa
O casal vai caminhando na minha frente num local superlotado que impõe a proximidade física. E eu ouço a conversa deles. Não é um grande diálogo, pois a moça fala muito e o rapaz silencia. Ela está falando muito mal de uma Fulana que, pelo que compreendi, tem uma vida sexual mais diversificada e, possivelmente, mais divertida que a dela. O ponto de vista da moça, uma jovem bonita, é incrivelmente machista e coroado por bordões desse tipo de discurso, como o de chamar uma mulher cuja vida sexual não se encaixa nos padrões de moralidade de quem a julga de “galinha”, para apresentar um exemplo ameno dentre os muito utilizados.
O que a moça estava fazendo naquele discurso/fofoca pormenorizado contra a Fulana era apresentar um propaganda, no meu entender bem ruinzinha, da sua pessoa para seu companheiro. Algo na linha do “eu não sou como a Fulana, lhe sou fiel e não acharás outra como eu”. De doer. Que tristeza uma mulher recorrer ao machismo para procurar ressaltar seus atributos a um homem. Que pobreza atacar a liberdade sexual que as mulheres tão duramente conseguiram conquistar na esperança de manter um companheiro junto a si.
Darwin explica, sem dúvida, esse comportamento que nos é tão natural: competir contra as demais mulheres. Nossas antepassadas tinham de escolher o homem mais apto a manter a prole ou não sobreviveriam nas cavernas e nas sociedades pós-cavernas. A contrapartida era garantir ao homem a paternidade dessa prole, ou ele não teria razão para sustentá-la. “Lhe sou fiel”, portanto, era condição fundamental de sobrevivência.
Hoje, no entanto, agredir outras mulheres e recriminar seu comportamento numa tentativa patética de se apresentar como a verdadeira “mulher de César” – aquela a qual não basta ser honesta, é preciso parecer honesta – é, no mínimo, uma técnica ultrapassada e prejudicial de “venda de um produto”, se me permitem a comparação. Talvez até funcione junto a muitos homens, mas é ruim para todas nós, mulheres.
Por que, ao invés de desancarmos a concorrência, não colocamos nossos esforços em nós mesmas? Não é melhor poder dizer “oi, sou bacana, bonita, inteligente, boa de cama, culta, leal (qualidade essencial que as pessoas reduzem a ‘monogâmica’) e não acharás outra como eu”, do que “as outras mulheres não prestam”? Assim poderíamos produzir um maior respeito de nossa parte para com as demais mulheres, quer sejam elas virgens, prostitutas, libertárias, monogâmicas, partidárias do relacionamento aberto, bissexuais, homossexuais, heterossexuais, jovens, velhas.
Vivemos numa sociedade altamente agressiva com as mulheres. Essa agressividade certamente diminuiria se nós não a incentivássemos através do preconceito. Todas as mulheres que estiverem vivenciando sua sexualidade consensualmente merecem nosso respeito. Discordância? Natural. Ataque? Nem pensar. A vida muda muito e mudamos com ela. Bobagem atirar a primeira pedra ou dizer “dessa água não beberei”. Recriminamos os homens quando assumem comportamentos que os aproximam dos primatas. Não sejamos nós, mulheres, o elo mais frágil da corrente, corresponsáveis por estimulá-los.
O que a moça estava fazendo naquele discurso/fofoca pormenorizado contra a Fulana era apresentar um propaganda, no meu entender bem ruinzinha, da sua pessoa para seu companheiro. Algo na linha do “eu não sou como a Fulana, lhe sou fiel e não acharás outra como eu”. De doer. Que tristeza uma mulher recorrer ao machismo para procurar ressaltar seus atributos a um homem. Que pobreza atacar a liberdade sexual que as mulheres tão duramente conseguiram conquistar na esperança de manter um companheiro junto a si.
Darwin explica, sem dúvida, esse comportamento que nos é tão natural: competir contra as demais mulheres. Nossas antepassadas tinham de escolher o homem mais apto a manter a prole ou não sobreviveriam nas cavernas e nas sociedades pós-cavernas. A contrapartida era garantir ao homem a paternidade dessa prole, ou ele não teria razão para sustentá-la. “Lhe sou fiel”, portanto, era condição fundamental de sobrevivência.
Hoje, no entanto, agredir outras mulheres e recriminar seu comportamento numa tentativa patética de se apresentar como a verdadeira “mulher de César” – aquela a qual não basta ser honesta, é preciso parecer honesta – é, no mínimo, uma técnica ultrapassada e prejudicial de “venda de um produto”, se me permitem a comparação. Talvez até funcione junto a muitos homens, mas é ruim para todas nós, mulheres.
Por que, ao invés de desancarmos a concorrência, não colocamos nossos esforços em nós mesmas? Não é melhor poder dizer “oi, sou bacana, bonita, inteligente, boa de cama, culta, leal (qualidade essencial que as pessoas reduzem a ‘monogâmica’) e não acharás outra como eu”, do que “as outras mulheres não prestam”? Assim poderíamos produzir um maior respeito de nossa parte para com as demais mulheres, quer sejam elas virgens, prostitutas, libertárias, monogâmicas, partidárias do relacionamento aberto, bissexuais, homossexuais, heterossexuais, jovens, velhas.
Vivemos numa sociedade altamente agressiva com as mulheres. Essa agressividade certamente diminuiria se nós não a incentivássemos através do preconceito. Todas as mulheres que estiverem vivenciando sua sexualidade consensualmente merecem nosso respeito. Discordância? Natural. Ataque? Nem pensar. A vida muda muito e mudamos com ela. Bobagem atirar a primeira pedra ou dizer “dessa água não beberei”. Recriminamos os homens quando assumem comportamentos que os aproximam dos primatas. Não sejamos nós, mulheres, o elo mais frágil da corrente, corresponsáveis por estimulá-los.
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