De vez em quando, numa mesa de jantar, acontece de um casal fazer o levantamento de suas perdas e ganhos. Raramente esse balancete se refere à vida do casal como um todo, sendo usualmente começado por um dos indivíduos que, seja por que motivo for, bebida inclusa, resolve deitar os olhos sobre o passado e refletir sobre sua vida. Inevitavelmente a relação entra nessa contabilidade. Quando a dupla tem um relacionamento de muitos anos a rememoração das perdas passadas não raro começa com um queixume do tipo “não fiz tal coisa porque ele/ela não deixou” e só tende a aumentar, superando em muito os ganhos. Se o déficit for grande, o negócio, ou a noite pelo menos, pode terminar mal.
Todo o relacionamento humano – o amoroso inclusive, para espanto de muitos – tem um custo embutido. Esse custo, sobre o qual geralmente não falamos em francas palavras a não ser em ruidosas ocasiões quando a relação corre o risco de se romper, vai acumulando e se modificado com o passar dos anos. Alguns itens saem da lista de débitos e passam a fazer parte da coluna de créditos, como aquela vez que deixei de fazer um voo de parapente com instrutor devido à insistência do marido. Depois vim a descobrir não apenas que o voo de parapente com instrutor é ilegal, mas também que são alarmantes as estatísticas de quedas em voos dessa natureza. Há, também, itens fazem o caminho inverso, quando descobrimos que talvez tenhamos partilhado de um desejo que nunca fora legitimamente nosso apenas para a manutenção do casal e que essa decisão nos custou afetivamente mais do que estaríamos dispostos a investir.
Um dos valores mais altos e dos mais comuns a ser pago dentro de um casamento longevo é a permanência enquanto congelamento do sujeito numa determinada época. Algumas pessoas reagem muito mal a mudanças e surpresas e encaram qualquer alteração nos interesses e no comportamento do companheiro ou companheira como uma ameaça de perda. Como se o engessamento da previsibilidade não fosse matar o envolvimento amoroso de qualquer forma. É a teoria do pássaro na mão, ao invés de voando. Ainda que triste, silencioso, morto mesmo, o pássaro está preso entre os dedos, é uma propriedade. Já um pássaro voando é uma liberdade e a liberdade do outro nos remete a nossa mesma. Liberdade que talvez nem queiramos por não sabermos o que fazer com ela. Então, embora pareça paradoxal, um membro de um casal pode tolher as asas do outro para evitar fazer uso de suas próprias. Fecha-se um círculo de proibições, de sonhos e fantasias não realizados, de mesmices e rotinas que podem vir a ser estranguladoras quando a velhice se aproxima e a frustração acumulada nos torna mais amargos.
É utópico um casal sentar e perguntar com franca gentileza se os custos do relacionamento não estão pesando demais para um ou outro? Aguentaríamos a sinceridade das respostas? Teríamos coragem de fazer o inventário dos nossos sonhos não realizados e contrapô-los aos ganhos que o convívio amoroso nos proporcionou? A mera ideia do arrolamento de perdas e ganhos arranha o ideal de amor romântico envergado por muitos no ocidente como uma espécie de burca emocional. Parece que nos inscrevemos num debate já em andamento: a burca, ao fim e ao cabo, protege ou limita?
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
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domingo, 15 de abril de 2012
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Propaganda Enganosa
O casal vai caminhando na minha frente num local superlotado que impõe a proximidade física. E eu ouço a conversa deles. Não é um grande diálogo, pois a moça fala muito e o rapaz silencia. Ela está falando muito mal de uma Fulana que, pelo que compreendi, tem uma vida sexual mais diversificada e, possivelmente, mais divertida que a dela. O ponto de vista da moça, uma jovem bonita, é incrivelmente machista e coroado por bordões desse tipo de discurso, como o de chamar uma mulher cuja vida sexual não se encaixa nos padrões de moralidade de quem a julga de “galinha”, para apresentar um exemplo ameno dentre os muito utilizados.
O que a moça estava fazendo naquele discurso/fofoca pormenorizado contra a Fulana era apresentar um propaganda, no meu entender bem ruinzinha, da sua pessoa para seu companheiro. Algo na linha do “eu não sou como a Fulana, lhe sou fiel e não acharás outra como eu”. De doer. Que tristeza uma mulher recorrer ao machismo para procurar ressaltar seus atributos a um homem. Que pobreza atacar a liberdade sexual que as mulheres tão duramente conseguiram conquistar na esperança de manter um companheiro junto a si.
Darwin explica, sem dúvida, esse comportamento que nos é tão natural: competir contra as demais mulheres. Nossas antepassadas tinham de escolher o homem mais apto a manter a prole ou não sobreviveriam nas cavernas e nas sociedades pós-cavernas. A contrapartida era garantir ao homem a paternidade dessa prole, ou ele não teria razão para sustentá-la. “Lhe sou fiel”, portanto, era condição fundamental de sobrevivência.
Hoje, no entanto, agredir outras mulheres e recriminar seu comportamento numa tentativa patética de se apresentar como a verdadeira “mulher de César” – aquela a qual não basta ser honesta, é preciso parecer honesta – é, no mínimo, uma técnica ultrapassada e prejudicial de “venda de um produto”, se me permitem a comparação. Talvez até funcione junto a muitos homens, mas é ruim para todas nós, mulheres.
Por que, ao invés de desancarmos a concorrência, não colocamos nossos esforços em nós mesmas? Não é melhor poder dizer “oi, sou bacana, bonita, inteligente, boa de cama, culta, leal (qualidade essencial que as pessoas reduzem a ‘monogâmica’) e não acharás outra como eu”, do que “as outras mulheres não prestam”? Assim poderíamos produzir um maior respeito de nossa parte para com as demais mulheres, quer sejam elas virgens, prostitutas, libertárias, monogâmicas, partidárias do relacionamento aberto, bissexuais, homossexuais, heterossexuais, jovens, velhas.
Vivemos numa sociedade altamente agressiva com as mulheres. Essa agressividade certamente diminuiria se nós não a incentivássemos através do preconceito. Todas as mulheres que estiverem vivenciando sua sexualidade consensualmente merecem nosso respeito. Discordância? Natural. Ataque? Nem pensar. A vida muda muito e mudamos com ela. Bobagem atirar a primeira pedra ou dizer “dessa água não beberei”. Recriminamos os homens quando assumem comportamentos que os aproximam dos primatas. Não sejamos nós, mulheres, o elo mais frágil da corrente, corresponsáveis por estimulá-los.
O que a moça estava fazendo naquele discurso/fofoca pormenorizado contra a Fulana era apresentar um propaganda, no meu entender bem ruinzinha, da sua pessoa para seu companheiro. Algo na linha do “eu não sou como a Fulana, lhe sou fiel e não acharás outra como eu”. De doer. Que tristeza uma mulher recorrer ao machismo para procurar ressaltar seus atributos a um homem. Que pobreza atacar a liberdade sexual que as mulheres tão duramente conseguiram conquistar na esperança de manter um companheiro junto a si.
Darwin explica, sem dúvida, esse comportamento que nos é tão natural: competir contra as demais mulheres. Nossas antepassadas tinham de escolher o homem mais apto a manter a prole ou não sobreviveriam nas cavernas e nas sociedades pós-cavernas. A contrapartida era garantir ao homem a paternidade dessa prole, ou ele não teria razão para sustentá-la. “Lhe sou fiel”, portanto, era condição fundamental de sobrevivência.
Hoje, no entanto, agredir outras mulheres e recriminar seu comportamento numa tentativa patética de se apresentar como a verdadeira “mulher de César” – aquela a qual não basta ser honesta, é preciso parecer honesta – é, no mínimo, uma técnica ultrapassada e prejudicial de “venda de um produto”, se me permitem a comparação. Talvez até funcione junto a muitos homens, mas é ruim para todas nós, mulheres.
Por que, ao invés de desancarmos a concorrência, não colocamos nossos esforços em nós mesmas? Não é melhor poder dizer “oi, sou bacana, bonita, inteligente, boa de cama, culta, leal (qualidade essencial que as pessoas reduzem a ‘monogâmica’) e não acharás outra como eu”, do que “as outras mulheres não prestam”? Assim poderíamos produzir um maior respeito de nossa parte para com as demais mulheres, quer sejam elas virgens, prostitutas, libertárias, monogâmicas, partidárias do relacionamento aberto, bissexuais, homossexuais, heterossexuais, jovens, velhas.
Vivemos numa sociedade altamente agressiva com as mulheres. Essa agressividade certamente diminuiria se nós não a incentivássemos através do preconceito. Todas as mulheres que estiverem vivenciando sua sexualidade consensualmente merecem nosso respeito. Discordância? Natural. Ataque? Nem pensar. A vida muda muito e mudamos com ela. Bobagem atirar a primeira pedra ou dizer “dessa água não beberei”. Recriminamos os homens quando assumem comportamentos que os aproximam dos primatas. Não sejamos nós, mulheres, o elo mais frágil da corrente, corresponsáveis por estimulá-los.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Nada a temer
Antigamente, mas não muito antigamente, as pessoas acreditavam que não se devia pronunciar a palavra câncer. Dizia-se “aquela doença”, temia-se que a invocação do nome trouxesse a “coisa ruim” para junto de quem a pronunciou. A mesma coisa ocorria – e ainda ocorre – com o vocábulo Diabo. Há até um produto utilizado para desentupir ralos e pias chamado Diabo Verde, cujo nome uma senhora que limpava a minha casa se recusava a falar. Da primeira vez eu custei um pouco para saber o que estava acontecendo, depois entendi e respeitei, mesmo achando que é ignorância atribuir a uma palavra poderes extras além da idéia que aquele conjunto de letras e sons representam. No entanto, compreendo que é justamente por representar idéias que as palavras impactam as pessoas com tanta força e é o imaginário de cada um que as torna positivas, negativas ou inócuas.
Fico triste ao perceber que feminismo é uma palavra que não anda com boa conotação no imaginário das classes médias. É uma pena. Devemos ao feminismo – um movimento que modificou o imaginário e, por isso, o mundo – muitos dos direitos que nós mulheres ocidentais desfrutamos, como o de sermos indivíduos com características próprias de nosso gênero e com aspirações outras que não necessariamente as mesmas que aquelas do sexo masculino sem que, em virtude dessa diferença, nossos Direitos Humanos possam ser de alguma forma pisoteados.
Nas rodinhas de amigos, contudo, se você se declara feminista o pessoal fica meio cabreiro. Temem discursos inflamados, rancores contra o masculino, recalques pessoais jogados na mesa de jantar. Acredito, sinceramente, que não há o que temer e que essa época de catarse das emoções aprisionadas já passou há muito tempo. Mas o feminismo, esse questionador do lugar e das necessidades das mulheres na sociedade, ainda tem muito que fazer.
Tomemos o caso de Eliza Samudio, por exemplo, que teve um filho com Bruno, o goleiro do Flamengo que está sendo investigado como provável mandante de seu assassinato. “Maria Chuteira”, acusam-na, como se o fato de manter relações com jogadores de futebol com vistas a ascensão social justificasse o crime cometido contra ela. Bruno, que ganha salários que seriam incompatíveis com a importância de sua atividade se vivêssemos numa sociedade saudável, desfruta da posição de herói popular nos meios que freqüenta. Muitos torcem sinceramente pela sua libertação, da mesma forma que outros torceram por Polanksi, o genial diretor de cinema que estuprou, aos 43 anos de idade, uma menina de 13. As chamadas celebridades, acreditam seus pares e admiradores, estão acima da sociedade e, portanto, das regras nela existentes para a proteção de mulheres e crianças, dentre outras.
Uma das tarefas mais importantes do feminismo no mundo atual está na educação de mulheres de todas as classes sociais para que compreendam em profundidade que não é aceitável serem agredidas verbal, física ou psicologicamente. Que entendam que um empurrão, um xingamento, uma ameaça, não é admissível. Que o não acesso aos bens da família, ao dinheiro do dia-a-dia, não está correto. Que uma adulta não deveria precisar de permissão para ir e vir, pois é direito garantido constitucionalmente a todos. Que as decisões nas famílias devem ser negociadas e que sexo não é moeda de troca fora dos círculos de prostituição. Essas mulheres educadas e conhecedoras de seus desejos são as que modificarão o estado das coisas, inclusive na forma de criar seus filhos e filhas. Uma vez tendo seus horizontes ampliados e sabendo-se detentoras de direitos, compreenderão que não reside em “Brunos” suas possibilidades de uma existência digna. Quando as mulheres detêm poder sobre suas próprias vidas a sociedade se eleva, os valores progridem e os “Brunos” do mundo são colocados em seus devidos lugares de importância. Por isso, caros leitores e leitoras, não há o que temer do feminismo. Certo?
Fico triste ao perceber que feminismo é uma palavra que não anda com boa conotação no imaginário das classes médias. É uma pena. Devemos ao feminismo – um movimento que modificou o imaginário e, por isso, o mundo – muitos dos direitos que nós mulheres ocidentais desfrutamos, como o de sermos indivíduos com características próprias de nosso gênero e com aspirações outras que não necessariamente as mesmas que aquelas do sexo masculino sem que, em virtude dessa diferença, nossos Direitos Humanos possam ser de alguma forma pisoteados.
Nas rodinhas de amigos, contudo, se você se declara feminista o pessoal fica meio cabreiro. Temem discursos inflamados, rancores contra o masculino, recalques pessoais jogados na mesa de jantar. Acredito, sinceramente, que não há o que temer e que essa época de catarse das emoções aprisionadas já passou há muito tempo. Mas o feminismo, esse questionador do lugar e das necessidades das mulheres na sociedade, ainda tem muito que fazer.
Tomemos o caso de Eliza Samudio, por exemplo, que teve um filho com Bruno, o goleiro do Flamengo que está sendo investigado como provável mandante de seu assassinato. “Maria Chuteira”, acusam-na, como se o fato de manter relações com jogadores de futebol com vistas a ascensão social justificasse o crime cometido contra ela. Bruno, que ganha salários que seriam incompatíveis com a importância de sua atividade se vivêssemos numa sociedade saudável, desfruta da posição de herói popular nos meios que freqüenta. Muitos torcem sinceramente pela sua libertação, da mesma forma que outros torceram por Polanksi, o genial diretor de cinema que estuprou, aos 43 anos de idade, uma menina de 13. As chamadas celebridades, acreditam seus pares e admiradores, estão acima da sociedade e, portanto, das regras nela existentes para a proteção de mulheres e crianças, dentre outras.
Uma das tarefas mais importantes do feminismo no mundo atual está na educação de mulheres de todas as classes sociais para que compreendam em profundidade que não é aceitável serem agredidas verbal, física ou psicologicamente. Que entendam que um empurrão, um xingamento, uma ameaça, não é admissível. Que o não acesso aos bens da família, ao dinheiro do dia-a-dia, não está correto. Que uma adulta não deveria precisar de permissão para ir e vir, pois é direito garantido constitucionalmente a todos. Que as decisões nas famílias devem ser negociadas e que sexo não é moeda de troca fora dos círculos de prostituição. Essas mulheres educadas e conhecedoras de seus desejos são as que modificarão o estado das coisas, inclusive na forma de criar seus filhos e filhas. Uma vez tendo seus horizontes ampliados e sabendo-se detentoras de direitos, compreenderão que não reside em “Brunos” suas possibilidades de uma existência digna. Quando as mulheres detêm poder sobre suas próprias vidas a sociedade se eleva, os valores progridem e os “Brunos” do mundo são colocados em seus devidos lugares de importância. Por isso, caros leitores e leitoras, não há o que temer do feminismo. Certo?
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Laços de família
Se você cresceu em uma família de hierarquia perene, como eu, não deixe de ler O clube do filme de David Gilmour (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009). Por hierarquia perene eu me refiro aquelas famílias, como a minha, em que não importa a idade que você tenha sempre será considerado "uma criança" para os pais. Claro que no caso da minha família, tendo inclusive meu pai já falecido, essa hierarquia se evaporou por conta das necessidades da vida e da morte. Mas, naqueles tempos a vida nas famílias era assim. “Você sempre será uma criança aos meus olhos” é uma frase que muita gente já ouviu. Isso parece muito bonito para ser dito, mas, na prática não é tão bonito nem constrói muito a auto-estima. Pode, inclusive, ser um pouco perverso.
Crescer em ambientes onde seu (inevitável) crescimento é negado é como se esgueirar por uma fresta. Primeiro você tem que achar a fresta, depois se metamorfosear em algo kafkiano para poder passar pela fresta. Uma vez do lado de lá, você estará sozinho para encher seu balão/ego, que se encontrará um tanto quanto murcho e possivelmente um bocado culpado por ter fugido às normas familiares, aos contratos não ditos, mas em plena vigência, que explicitam aquilo que a família espera de você. Sustentar-se bem em suas próprias pernas de adulto pode ser um trabalho de uma vida inteira.
No relacionamento entre pai e filho no tal livro as coisas são diferentes. O pai não é nenhum gênio da pedagogia, a bem da verdade, não é nenhum gênio de nada. Parece, inclusive, por vezes um cara bastante atrapalhado com questões "obrigatórias" do mundo masculino adulto, como sustentar a própria família. Mas o olhar que ele tem para esse filho é raro. É um olhar cheio de amor e cheio de espaço, criando um local em seu afeto onde o filho pode crescer, mais do que isso, onde ele espera e deseja que o filho cresça, se torne homem, e ele seja "derrotado". Ou seja, nesse relacionamento espera-se que a vida tome seu curso normal e as pessoas não sejam obrigadas a permanecer na posição de escada para que o mundo de outro (pais, mães, irmãos, esposos) não se desmorone.
Um trechinho da sabedoria desse pai: "Definitivamente as coisas estavam mudando entre nós dois. Eu sabia que, ao final do caminho, não muito longe, haveria um confronto e eu sairia perdendo. Exatamente como aconteceu com todos os outros pais na história." Acrescentaria eu: estejam eles cientes dessa mudança, ou não. A leitura é linda e incrivelmente atual porque, acreditem, não são muitos os pais que têm essa clareza, não importa o quão estudados sejamos.
Crescer em ambientes onde seu (inevitável) crescimento é negado é como se esgueirar por uma fresta. Primeiro você tem que achar a fresta, depois se metamorfosear em algo kafkiano para poder passar pela fresta. Uma vez do lado de lá, você estará sozinho para encher seu balão/ego, que se encontrará um tanto quanto murcho e possivelmente um bocado culpado por ter fugido às normas familiares, aos contratos não ditos, mas em plena vigência, que explicitam aquilo que a família espera de você. Sustentar-se bem em suas próprias pernas de adulto pode ser um trabalho de uma vida inteira.
No relacionamento entre pai e filho no tal livro as coisas são diferentes. O pai não é nenhum gênio da pedagogia, a bem da verdade, não é nenhum gênio de nada. Parece, inclusive, por vezes um cara bastante atrapalhado com questões "obrigatórias" do mundo masculino adulto, como sustentar a própria família. Mas o olhar que ele tem para esse filho é raro. É um olhar cheio de amor e cheio de espaço, criando um local em seu afeto onde o filho pode crescer, mais do que isso, onde ele espera e deseja que o filho cresça, se torne homem, e ele seja "derrotado". Ou seja, nesse relacionamento espera-se que a vida tome seu curso normal e as pessoas não sejam obrigadas a permanecer na posição de escada para que o mundo de outro (pais, mães, irmãos, esposos) não se desmorone.
Um trechinho da sabedoria desse pai: "Definitivamente as coisas estavam mudando entre nós dois. Eu sabia que, ao final do caminho, não muito longe, haveria um confronto e eu sairia perdendo. Exatamente como aconteceu com todos os outros pais na história." Acrescentaria eu: estejam eles cientes dessa mudança, ou não. A leitura é linda e incrivelmente atual porque, acreditem, não são muitos os pais que têm essa clareza, não importa o quão estudados sejamos.
domingo, 18 de abril de 2010
Me trata direito
Há alguns meses presenciei uma cena na saída de um restaurante em Passo Fundo, cidade onde moro, que nunca vou esquecer. Eu ia descendo as escadas em meio a muitas outras pessoas, que subiam e desciam. Era hora de movimento. Dentre os casais que subiam houve um em que a metade feminina parou, olhou na direção do namorado, marido, ou o que fosse, que já se encontrava alguns degraus à frente e falou, em alto e bom tom: “Fulano, ou você me espera e me trata direito, ou eu não vou!”. Não tenho a menor idéia do desfecho da cena. Não fiquei por ali, continuei andando no ritmo em que estava, mas adorei. A moça, uma jovem bonita, virou minha heroína pessoal.
Em que pese que não sei nada sobre o casal e provavelmente nunca os reconheceria se os visse novamente, a atitude dela me marcou porque foi de encontro a um paradigma muito comum entre nós, mulheres, que é o de não nos colocarmos em confronto com nossos homens, em público. Lançamos sobre eles o mesmo olhar que lançamos aos filhos, que parece dizer “vamos ter uma conversa em casa” e deixamos passar a descortesia, ou pior.
Claro que há os casais em que a mulher arma um barraco caso o sujeito olhe para alguma pessoa para a qual ele não tem autorização prévia de olhar – cena essa mais comum em bares – e também aqueles em que a reunião de amigos para, digamos, um jantar, se torna ocasião propícia para que a esposa apresente a todos um levantamento minucioso (e mui rancoroso) dos defeitos e das faltas cometidas pela sua cara metade. Os presentes nessas ocasiões ficam tão constrangidos que não sabem o que fazer e muito menos o que dizer e lá se vai um belo jantar à ruína, por falta de percepção do que é público acerca de um casal e do que deve ser privado.
Não estou, portanto, tomando o partido do “barraco”. Mas não me pareceu que fosse esse o objetivo da moça, aproveitar o público para começar um bate-boca. Ou, pelo menos, não foi assim que eu li a cena (interpretações são sempre muito pessoais, como sabemos). O que ela fez, eu acho, foi dar um ultimato ao rapaz naquele momento preciso, sem postergar a questão para uma possível infindável discussão em casa. Sua escolha econômica de palavras me leva a pensar assim. Ela não disse, “Fulano, precisamos conversar sobre nossa relação” nem deu chilique olhando para os lados e ameaçando chorar. Ela disse simplesmente “me espera”, o que remete ao estar junto, ser companhia e, mais importante, exigiu: “me trata direito”. Bom, aí poderíamos escrever um tratado sobre o que seria tratar uma mulher “direito” e haveria opiniões suficientes para editar volumes sobre o assunto. Mas, em se levando em conta a óbvia questão da dignidade inerente a qualquer ser humano e da amorosidade inerente às relações de um casal, o que é fundamental no caso desse “tratar direito” é o que importa para aquele casal especificamente. E importa, portanto, o fato de que se algo se tornou intolerável para aquela moça, ela falou, não postergou, não engoliu, não fingiu que não estava sentindo. E ela tinha uma saída bem à mão, para por fim ao seu desconforto: não ir juntamente com seu par. Repito, ela não se queixou dele e de como era tratada para os demais ouvirem, ela apenas determinou uma condição para sua permanência e, coisa que parece simples mas é mais complexa do que aparenta, apresentou sua retirada imediata de campo.
Admirei-a sim, pela postura, pela clareza, pela coragem, pela independência, ainda tão jovem. Na minha geração levamos mais anos para pôr em prática essas qualidades. Quero criar minha filha dessa forma, para que possa dizer de seu desejo sem dificuldades, de maneira a convidar para caminhar consigo apenas aqueles homens que não a temam, nem a manipulem, diferentemente dos covardes que esperam, pois que necessitam, que suas mulheres se calem em público para que possam fazer piadinhas infames que parecem grandes feitos aos olhos de seus amigos. Alguém aí conhece algum?
Fica então lançada a campanha, que bem pode ser para ambos os sexos: me trata direito, ou eu não vou!
Em que pese que não sei nada sobre o casal e provavelmente nunca os reconheceria se os visse novamente, a atitude dela me marcou porque foi de encontro a um paradigma muito comum entre nós, mulheres, que é o de não nos colocarmos em confronto com nossos homens, em público. Lançamos sobre eles o mesmo olhar que lançamos aos filhos, que parece dizer “vamos ter uma conversa em casa” e deixamos passar a descortesia, ou pior.
Claro que há os casais em que a mulher arma um barraco caso o sujeito olhe para alguma pessoa para a qual ele não tem autorização prévia de olhar – cena essa mais comum em bares – e também aqueles em que a reunião de amigos para, digamos, um jantar, se torna ocasião propícia para que a esposa apresente a todos um levantamento minucioso (e mui rancoroso) dos defeitos e das faltas cometidas pela sua cara metade. Os presentes nessas ocasiões ficam tão constrangidos que não sabem o que fazer e muito menos o que dizer e lá se vai um belo jantar à ruína, por falta de percepção do que é público acerca de um casal e do que deve ser privado.
Não estou, portanto, tomando o partido do “barraco”. Mas não me pareceu que fosse esse o objetivo da moça, aproveitar o público para começar um bate-boca. Ou, pelo menos, não foi assim que eu li a cena (interpretações são sempre muito pessoais, como sabemos). O que ela fez, eu acho, foi dar um ultimato ao rapaz naquele momento preciso, sem postergar a questão para uma possível infindável discussão em casa. Sua escolha econômica de palavras me leva a pensar assim. Ela não disse, “Fulano, precisamos conversar sobre nossa relação” nem deu chilique olhando para os lados e ameaçando chorar. Ela disse simplesmente “me espera”, o que remete ao estar junto, ser companhia e, mais importante, exigiu: “me trata direito”. Bom, aí poderíamos escrever um tratado sobre o que seria tratar uma mulher “direito” e haveria opiniões suficientes para editar volumes sobre o assunto. Mas, em se levando em conta a óbvia questão da dignidade inerente a qualquer ser humano e da amorosidade inerente às relações de um casal, o que é fundamental no caso desse “tratar direito” é o que importa para aquele casal especificamente. E importa, portanto, o fato de que se algo se tornou intolerável para aquela moça, ela falou, não postergou, não engoliu, não fingiu que não estava sentindo. E ela tinha uma saída bem à mão, para por fim ao seu desconforto: não ir juntamente com seu par. Repito, ela não se queixou dele e de como era tratada para os demais ouvirem, ela apenas determinou uma condição para sua permanência e, coisa que parece simples mas é mais complexa do que aparenta, apresentou sua retirada imediata de campo.
Admirei-a sim, pela postura, pela clareza, pela coragem, pela independência, ainda tão jovem. Na minha geração levamos mais anos para pôr em prática essas qualidades. Quero criar minha filha dessa forma, para que possa dizer de seu desejo sem dificuldades, de maneira a convidar para caminhar consigo apenas aqueles homens que não a temam, nem a manipulem, diferentemente dos covardes que esperam, pois que necessitam, que suas mulheres se calem em público para que possam fazer piadinhas infames que parecem grandes feitos aos olhos de seus amigos. Alguém aí conhece algum?
Fica então lançada a campanha, que bem pode ser para ambos os sexos: me trata direito, ou eu não vou!
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