Observo o semblante de minha filha e percebo que ela está perdidamente apaixonada. Está inquieta e insatisfeita. É que quando seu amor demora a chegar ela se ressente e, então, quando ele finalmente chega, ela opta por fingir que não se importa muito com sua presença. Procura disfarçar o quanto o ama, receosa do que essa entrega possa significar. Mas basta uma insistência da parte dele e logo estão juntos, os dois pombinhos, jogando bola no corredor do apartamento. Nessas horas, trato de me recolher a minha insignificância. Minha filha ainda não tem quatro anos completos e o pai é o primeiro homem de sua vida. Caso eu participe de um faz-de-conta em que o pai esteja presente, não raro ela me delega o papel de bruxa e, a ela mesma, o de princesa. Nem é preciso dizer que ao pai cabe o de príncipe. Tudo bem, penso, mãe é meio bruxa mesmo.
A relação dos meninos com o pai é diferente, me ensinam os que sabem. Não há esse amor romântico, mas sim uma ansiedade de reconhecimento, igualmente profunda. É amor, sem dúvida, que solicita, “me permita amar você e, por favor, se orgulhe de mim. O que eu mais desejo na vida é ser como eu vejo você”.
É por conta do amor em nós depositado que os filhos nos obrigam a sermos melhores pessoas. Ninguém quer, em sã consciência, ser o responsável pelas más escolhas amorosas de uma filha adulta. Nenhum pai deseja que a filha se relacione com um homem que a maltrate e menospreze. Tampouco há pais que conscientemente esperam de seu filho que se torne um fracassado, um bêbado, traficante ou agressor. Todos os pais temem a adesão às drogas. E, no entanto, esse caminho é muitas vezes cimentado com palavras e gestos cruéis contra as crianças, atitudes que lhes comunicam claramente que elas são um estorvo e que não se espera nada de positivo de seus futuros. As palavras agressivas e as surras, diriam os pais, têm a intenção de educar, de salvaguardar o futuro. No entanto se esquecem que é impossível construir futuro massacrando o presente. O resultado de muita violência impressa é, inevitavelmente, detrito, sucata de ego. Será um trabalho quase impossível colar pedacinhos para se fazer um adulto feliz ou bem-sucedido (de acordo com os padrões familiares) alguém enfim, de quem a família possa se orgulhar.
Há alguns meses atrás traduzi um ótimo artigo do psicólogo norte-americano Michael Thompson, que trabalha especificamente com meninos.Esse pesquisador acredita que o caminho mais seguro para a construção de uma civilização onde as pessoas se importem umas com as outras, que ele chama de civilização empática, é fazer cessar o espancamento, o sarcasmo e outras formas de violência infligidas aos meninos quando pequenos. O psicólogo alerta que garotos oriundos de ambientes traumatizantes com pais brutais podem crescer para se tornarem tiranos e assassinos.
Durante a infância e a adolescência precisamos de homens cujo comportamento sirva de modelo para os meninos como cuidadores, insiste ele, sem que isso signifique reprimir suas manifestações masculinas e tentar transformar o comportamento das meninas em modelo a ser seguido. Achei sua proposta de ensinar os meninos a serem cuidadores, inclusive de crianças pequenas, revolucionária.
Bons pais, afirma Thompson, transmitem seus melhores valores e instintos de geração a geração. Homens mais seguros, valorizados desde pequenos pelo homem que mais admiram, seu próprio pai, resultariam eles mesmos em pais empáticos aptos a construir uma sociedade menos agressiva. Eu apoio essa idéia.
(A tradução completa do artigo de Michael Thompson se encontra neste blog. Clique no menu à direita, em 05/30)
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
A mãe estóica
Não tenho a intenção de menosprezar as mães que são donas de casa. De jeito nenhum. É um trabalho insano, fundamental para o funcionamento da unidade familiar, em especial nas famílias que não tem como pagar uma empregada doméstica, e muito raramente reconhecido de verdade. Geladeira de presente no Dia das Mães, para mim, é piada de muito mau gosto. Faço “campanha” para que as famílias de classe média percebam a importância de se recolher o INSS para a mãe dona de casa de forma que ela possa vir a se aposentar um dia, depois de muitos anos trabalhando sem nenhuma remuneração. Acho que deve ser justamente em virtude da pouca valorização do seu trabalho que algumas mães insistem em buscar o reconhecimento do seu sacrifício junto aos familiares, na base da chantagem. Chamo esse fenômeno de “A mãe estóica”, me apropriando do sentido vulgar da palavra estoicismo, de não temor ao sofrimento. Sei que é meio redundante porque ser mãe e dona de casa de mangas arregaçadas requer um bocado de estoicismo, se compreendido como busca da virtude. Mas desse barco chamado estóico, para o chamado masoquista, para o chantagista, os pulos são pequenos no rio da frustração e os sofrimentos acabam por alcançar o mar. Tudo fica contaminado.
A titulo de exemplificação pensemos no famoso doce gaúcho chamado chimia ao qual só tínhamos acesso na infância se alguém da família se dispusesse a fazê-lo. Dá um trabalhão danado, especialmente se for de figo. Então, se alguém deseja fazer tachos de chimia além de todas as outras tarefas domésticas que lhe cabem, que faça porque gosta, por terapia, por diversão, pelo desafio do novo, mas não por obrigação. Afinal, há chimia pronta no supermercado, ainda por cima com muita variedade. Provavelmente mais barata do que a feita em casa, se somados inclusive o fator mão-de-obra, que infelizmente não é pago. Não faça chimia porque acha que é seu dever, porque na verdade não acredita que tenha direito a umas horas na poltrona em frente a TV e depois fique reclamando com os filhos e o marido que está com as mãos queimadas de mexer no tacho. Conheço cenas de tachos de chimia onde fervem mágoas de anos de não reconhecimento mais tarde espalhadas no pão nosso de cada dia dos familiares. As fatias engolidas com a culpa mal mastigada.
Há quem queira quarar roupa (e no inverno!) porque não se conforma enquanto o branco não ficar bem branquinho mesmo? Está bem, é um direito que assiste a quem curte o “branco mais branco”. Lembre-se apenas que esse é um prazer seu e bastante solitário, ok? Vai ser difícil emplacar essa conversa com os outros membros da família – “Olha só como esse lençol clareou depois de quarar!” – e eles acompanharem com o mesmo grau de entusiasmo que você. Seu filho adolescente possivelmente não vai nem prestar atenção se a camiseta está mais branca ou mais amarelada. Não espere que ele lhe agradeça pelo alvor de seu uniforme escolar. Essa é uma necessidade sua. Não exija de suas filhas que a imitem. A escolha de pegar o caminho mais complicado para lavar as roupas, colocar comida na mesa, limpar a casa, acompanhar os familiares em suas demandas, é, na verdade, bastante pessoal.
Nem estoicistas nem hedonistas, o bom mesmo seria que as mães e donas de casa pudessem criar espaços de conforto para si mesmas nos seus cotidianos atribulados de muito trabalho incluindo a possibilidade de poder, na velhice, encontrar a sua espera uma remuneração e alguma garantia de descanso.
A titulo de exemplificação pensemos no famoso doce gaúcho chamado chimia ao qual só tínhamos acesso na infância se alguém da família se dispusesse a fazê-lo. Dá um trabalhão danado, especialmente se for de figo. Então, se alguém deseja fazer tachos de chimia além de todas as outras tarefas domésticas que lhe cabem, que faça porque gosta, por terapia, por diversão, pelo desafio do novo, mas não por obrigação. Afinal, há chimia pronta no supermercado, ainda por cima com muita variedade. Provavelmente mais barata do que a feita em casa, se somados inclusive o fator mão-de-obra, que infelizmente não é pago. Não faça chimia porque acha que é seu dever, porque na verdade não acredita que tenha direito a umas horas na poltrona em frente a TV e depois fique reclamando com os filhos e o marido que está com as mãos queimadas de mexer no tacho. Conheço cenas de tachos de chimia onde fervem mágoas de anos de não reconhecimento mais tarde espalhadas no pão nosso de cada dia dos familiares. As fatias engolidas com a culpa mal mastigada.
Há quem queira quarar roupa (e no inverno!) porque não se conforma enquanto o branco não ficar bem branquinho mesmo? Está bem, é um direito que assiste a quem curte o “branco mais branco”. Lembre-se apenas que esse é um prazer seu e bastante solitário, ok? Vai ser difícil emplacar essa conversa com os outros membros da família – “Olha só como esse lençol clareou depois de quarar!” – e eles acompanharem com o mesmo grau de entusiasmo que você. Seu filho adolescente possivelmente não vai nem prestar atenção se a camiseta está mais branca ou mais amarelada. Não espere que ele lhe agradeça pelo alvor de seu uniforme escolar. Essa é uma necessidade sua. Não exija de suas filhas que a imitem. A escolha de pegar o caminho mais complicado para lavar as roupas, colocar comida na mesa, limpar a casa, acompanhar os familiares em suas demandas, é, na verdade, bastante pessoal.
Nem estoicistas nem hedonistas, o bom mesmo seria que as mães e donas de casa pudessem criar espaços de conforto para si mesmas nos seus cotidianos atribulados de muito trabalho incluindo a possibilidade de poder, na velhice, encontrar a sua espera uma remuneração e alguma garantia de descanso.
Assinar:
Postagens (Atom)