O casal vai caminhando na minha frente num local superlotado que impõe a proximidade física. E eu ouço a conversa deles. Não é um grande diálogo, pois a moça fala muito e o rapaz silencia. Ela está falando muito mal de uma Fulana que, pelo que compreendi, tem uma vida sexual mais diversificada e, possivelmente, mais divertida que a dela. O ponto de vista da moça, uma jovem bonita, é incrivelmente machista e coroado por bordões desse tipo de discurso, como o de chamar uma mulher cuja vida sexual não se encaixa nos padrões de moralidade de quem a julga de “galinha”, para apresentar um exemplo ameno dentre os muito utilizados.
O que a moça estava fazendo naquele discurso/fofoca pormenorizado contra a Fulana era apresentar um propaganda, no meu entender bem ruinzinha, da sua pessoa para seu companheiro. Algo na linha do “eu não sou como a Fulana, lhe sou fiel e não acharás outra como eu”. De doer. Que tristeza uma mulher recorrer ao machismo para procurar ressaltar seus atributos a um homem. Que pobreza atacar a liberdade sexual que as mulheres tão duramente conseguiram conquistar na esperança de manter um companheiro junto a si.
Darwin explica, sem dúvida, esse comportamento que nos é tão natural: competir contra as demais mulheres. Nossas antepassadas tinham de escolher o homem mais apto a manter a prole ou não sobreviveriam nas cavernas e nas sociedades pós-cavernas. A contrapartida era garantir ao homem a paternidade dessa prole, ou ele não teria razão para sustentá-la. “Lhe sou fiel”, portanto, era condição fundamental de sobrevivência.
Hoje, no entanto, agredir outras mulheres e recriminar seu comportamento numa tentativa patética de se apresentar como a verdadeira “mulher de César” – aquela a qual não basta ser honesta, é preciso parecer honesta – é, no mínimo, uma técnica ultrapassada e prejudicial de “venda de um produto”, se me permitem a comparação. Talvez até funcione junto a muitos homens, mas é ruim para todas nós, mulheres.
Por que, ao invés de desancarmos a concorrência, não colocamos nossos esforços em nós mesmas? Não é melhor poder dizer “oi, sou bacana, bonita, inteligente, boa de cama, culta, leal (qualidade essencial que as pessoas reduzem a ‘monogâmica’) e não acharás outra como eu”, do que “as outras mulheres não prestam”? Assim poderíamos produzir um maior respeito de nossa parte para com as demais mulheres, quer sejam elas virgens, prostitutas, libertárias, monogâmicas, partidárias do relacionamento aberto, bissexuais, homossexuais, heterossexuais, jovens, velhas.
Vivemos numa sociedade altamente agressiva com as mulheres. Essa agressividade certamente diminuiria se nós não a incentivássemos através do preconceito. Todas as mulheres que estiverem vivenciando sua sexualidade consensualmente merecem nosso respeito. Discordância? Natural. Ataque? Nem pensar. A vida muda muito e mudamos com ela. Bobagem atirar a primeira pedra ou dizer “dessa água não beberei”. Recriminamos os homens quando assumem comportamentos que os aproximam dos primatas. Não sejamos nós, mulheres, o elo mais frágil da corrente, corresponsáveis por estimulá-los.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Raiva de mãe
A raiva que ela tem guardada dentro de si é enorme. Um Aconcágua de mágoas. De memórias mesquinhas, de desaforos não ditos, de raiva contra o destino que não obedeceu seus ditames um tanto quanto infantis, de ódio do ex-marido e do rumo que a vida do filho tomou, penalizando a sua própria. Então ela resolve escrever suas dores em cartas dirigidas ao ex-marido, missivas repletas de dor e muita, muita raiva. Embora esteja longe do desfecho da história, o que mais me mobiliza na leitura de Precisamos Falar Sobre o Kevin (Lionel Shriver, editora Intrínseca) é a demolição metódica do passado familiar realizado pela personagem mãe, a autora da correspondência, regada a muita raiva e profunda incapacidade de apego ao filho, um estranho saído, ironicamente, de suas entranhas. Não chega a ser um caso raro.
“Não está nada bem, essa mãe”, nos dizemos. “Sem dúvida é louca”, é a afirmação mais frequente nos fóruns de debate sobre o livro, possivelmente por ser a que mais traz alívio imediato. Trata-se de uma leitura perturbadora precisamente por provocar clarões de empatia em qualquer mãe que venha a lê-la com honestidade. Por isso acorremos em nos diferenciar dessa mãe monstruosa, desequilibrada, raivosa, para garantirmos a nós mesmas que jamais seriamos assim. Mas temo que nos iludamos com muito fervor. A raiva não é um sentimento ausente no exercício da maternidade. A frustração, a mágoa, o entorpecimento que faz esvanecer os gestos de carinho são mais frequentes do que gostaríamos de admitir, mesmo em mães de classe média que, aparentemente, não teriam maiores preocupações como a da garantia da sobrevivência.
O isolamento e a frustração decorrentes da maternidade, e a demanda permanente de atenção que raramente é dispensada a si própria (elevada ao cubo quando a mulher trabalha fora de casa) podem ser devastadoras para a mulher. E aquela mãe sorridente na saída da escola do filho, carregando mochilas, sacolas de supermercado e o mundo nos ombros pode estar prestes a explodir. E pode inclusive não explodir, mas certamente acabará em lágrimas. A raiva é, muitas vezes, a antessala da depressão.
Para tentarmos compreender um sentimento tão forte como a raiva, podemos atribuir aos outros, aos que nos cercam, problemas que estão no cerne de quem nós realmente somos, das escolhas de vida que fizemos e das quais podemos estar arrependidas. Nessas situações diálogo é um bote salva vidas. E diálogo é um luxo ao qual muitas mães não tem acesso. Qual é a saída? Escrever, como faz a mãe do livro que estou lendo, é uma possibilidade. Talvez um blog com pseudônimo seja uma porta para estabelecer um diálogo com outras pessoas em situação semelhante. Há quem sugira acalmar a mente com técnicas meditativas. É uma boa ideia. Até kickboxing é uma ideia mais produtiva do que destilar a raiva sobre os familiares. E, em tendo chance, um bom terapeuta fará toda a diferença na vida não só da mãe, mas de todos os que dependem emocionalmente dela. O melhor presente que se pode dar aos filhos, creio.
“Não está nada bem, essa mãe”, nos dizemos. “Sem dúvida é louca”, é a afirmação mais frequente nos fóruns de debate sobre o livro, possivelmente por ser a que mais traz alívio imediato. Trata-se de uma leitura perturbadora precisamente por provocar clarões de empatia em qualquer mãe que venha a lê-la com honestidade. Por isso acorremos em nos diferenciar dessa mãe monstruosa, desequilibrada, raivosa, para garantirmos a nós mesmas que jamais seriamos assim. Mas temo que nos iludamos com muito fervor. A raiva não é um sentimento ausente no exercício da maternidade. A frustração, a mágoa, o entorpecimento que faz esvanecer os gestos de carinho são mais frequentes do que gostaríamos de admitir, mesmo em mães de classe média que, aparentemente, não teriam maiores preocupações como a da garantia da sobrevivência.
O isolamento e a frustração decorrentes da maternidade, e a demanda permanente de atenção que raramente é dispensada a si própria (elevada ao cubo quando a mulher trabalha fora de casa) podem ser devastadoras para a mulher. E aquela mãe sorridente na saída da escola do filho, carregando mochilas, sacolas de supermercado e o mundo nos ombros pode estar prestes a explodir. E pode inclusive não explodir, mas certamente acabará em lágrimas. A raiva é, muitas vezes, a antessala da depressão.
Para tentarmos compreender um sentimento tão forte como a raiva, podemos atribuir aos outros, aos que nos cercam, problemas que estão no cerne de quem nós realmente somos, das escolhas de vida que fizemos e das quais podemos estar arrependidas. Nessas situações diálogo é um bote salva vidas. E diálogo é um luxo ao qual muitas mães não tem acesso. Qual é a saída? Escrever, como faz a mãe do livro que estou lendo, é uma possibilidade. Talvez um blog com pseudônimo seja uma porta para estabelecer um diálogo com outras pessoas em situação semelhante. Há quem sugira acalmar a mente com técnicas meditativas. É uma boa ideia. Até kickboxing é uma ideia mais produtiva do que destilar a raiva sobre os familiares. E, em tendo chance, um bom terapeuta fará toda a diferença na vida não só da mãe, mas de todos os que dependem emocionalmente dela. O melhor presente que se pode dar aos filhos, creio.
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