“Demorei muito tempo para compreender porque tantos escritores são alcoólatras: porque eles têm medo.” Alain de Botton, filósofo francês mais conhecido no Brasil pelo livro “A arquitetura da felicidade”, tuitou essa frase, recentemente. Gostei tanto dela que guardei nos Favoritos, no meu Twitter. Parece bobagem, ter medo de escrever. Tanta coisa para se ter medo, medo mesmo, como assaltos, atropelamentos, acidentes de carro, seqüestros, doenças e, mais do que tudo, a morte. Alguém vai ter medo de escrever? Tenha dó.
Mas é assim que funciona. Escrever é uma coisa que põe medo. A absoluta maioria das pessoas que eu conheço que escrevem, passam por esse desconforto. É só dar uma olhada nos cursos de pós-graduação, sejam especializações, mestrados ou doutorados, para testemunhar o incômodo. É claro que a culpa desse stress também é colocada no orientador, na falta de tempo para a elaboração dos trabalhos, na complexidade ou chatice pura da bibliografia obrigatória, enfim, toda pós-graduação tem lá suas barras a serem enfrentadas. Afora o medo da folha em branco.
A folha em branco e o bloqueio criativo são dois fantasmas que rondam os escritores de ficção ou não, entidades a serem temidas. Não me refiro à escrita burocrática de qualquer natureza, aquela que está tão incorporada ao dia-a-dia de quem a escreve que não o emociona mais. Me refiro àquela que mobiliza o escritor a ponto de trazer o medo e a postergação do trabalho com toda a sorte de desculpas que simplesmente encobrem o temor de defrontar-se com a angústia que suscita a tela do Word aberta, simulacro do papel branco.
Mas afinal, o que a folha em branco provoca em nós, qual o seu poder? O poder reside no desvelamento de si mesmo aos olhos dos outros, pois, quem escreve, o faz para um público leitor, nem que este seja apenas o professor que irá ler o trabalho que estiver sendo redigido. Há casos graves de gente que não pode nem sequer despejar seus sentimentos íntimos num diário guardado a sete chaves, pois não suporta, ela própria, encontrar-se consigo através de sua escrita. Mas são casos mais raros, acredito. Expor-se a apreciação, ao julgamento dos outros é sempre difícil. Tememos o acolhimento que o outro dará a nossa escrita, mas, em que pese essa dura realidade – principalmente em se tratando de trabalhos acadêmicos que são elaborados para sofrerem julgamento – para viver precisamos em primeiro lugar do acolhimento de nós mesmas e, nesse sentido, a escrita é uma boa porta.
Um diário, seja ele dirigido a nós mesmas ou a terceiros, pode ser um importante aliado e instrumento no que conhecemos como a cura pela palavra. Essa palavra não precisa apenas ser aquela lançada oralmente, ao analista, mas também pode ser a recolhida de nossas próprias gargantas, em momentos que não pudemos enunciá-las. Uma das características adoráveis do papel é que “descansa” nosso texto que, tal como massa de pão, cresce e se dispõe a ser aprimorado. Passado um tempo o lemos como um novo texto, não só para correções de forma, coisa banal, mas para correção de trajetos. Caminhos do dia-a-dia, tão íntimos que nem os teríamos observado não fosse eles estarem ali, materializados no papel. Quando estamos com muito medo em nossas vidas, inclusive de realizar a redação de uma pesquisa extensiva, talvez uma boa forma de começar seja escrevendo sobre o que se sente. Fica a dica.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
sexta-feira, 14 de maio de 2010
sábado, 8 de maio de 2010
Uma mãe suficientemente boa
Cuidado, sua mãe pode comer a sua vida. Ela faz todas as suas vontades, te dá tudo o que você pede, está sempre presente e disponível, ela se dedica a você, somente a você, todas as horas do dia. Sem você, a vida dela seria muito vazia e tudo que ela espera é que você seja uma boa filha, ou um bom filho. Nada que uma chantagem (zinha?) não resolva em momentos de discórdia no mundo idílico do relacionamento de vocês. Essa mãe maravilhosa só tem um detalhe que a distingue das demais. Seus olhos, chamados popularmente de espelho da alma, são, na verdade, apenas botões.
Essa é uma das mães que com que se defronta a menina Coraline, no genial filme homônimo de Henry Selick baseado no romance do inventivo Neil Gaiman, um verdadeiro autor de contos de fadas.
Há, é claro, sua mãe verdadeira, cuja atenção à menina infelizmente não chega aos pés da dedicação que lhe oferece a outra mãe, naquele mundo paralelo que gira ao redor dos desejos de Coraline. A mãe verdadeira, para mal dos males, se vê envolvida em pagar contas, cuidar da casa, trabalhar e realmente não é, nesse caso específico, a mais divertida e companheira das mães. Mas com ela Coraline tem a chance de brincar sem ser muito controlada e não chega a ser negligenciada nem por falta, nem por excesso. Essa mãe que nem sequer sabe cozinhar uma comida gostosa parece amar muito a filha, mas – que absurdo! – tem uma vida sua para cuidar também e Coraline está longe de ser um bebê, que necessita de atenção em tempo integral.
A escolha da menina é complicada. Ficar com uma mãe que se dedica somente a ela significa ser devorada viva, não poder crescer, não acalentar sonhos seus, segredos e nichos de desejos onde a personalidade se desdobra para depois florescer em aventuras pelo mundo. O que lhe reservará a vida lá fora? Com certeza nada tão aconchegante como o ninho materno que, no entanto, é pequeno para suportar seu crescimento e onde permanecerá imóvel. Talvez como a Carolina da canção, com seus olhos que guardam tanta dor (feitos de botões?) a olhar pela janela o grande e vasto mundo em movimento lá fora, tão distante de suas possibilidades. Ficar com a mãe verdadeira significa não ter seus desejos realizados prontamente, empenhar-se sozinha em tarefas que preferiria delegar a terceiros e ainda ter que aturar diariamente a tessitura dessa delicada teia que une mãe e filha, na qual se misturam amor e impaciência em doses por vezes quase que iguais.
Contudo a mãe imperfeita – que não é má e quando consegue equilibrar as contas da casa se lembra de lhe dar um presente, ou seja, não está assim tão desatenta aos desejos seus – tem um grande trunfo: oferecerá a Coraline um lar também imperfeito e, com ele, a aventura de estar viva nesse mundo, com seus defeitos e delícias. Um bom filme para o Dia das Mães.
Essa é uma das mães que com que se defronta a menina Coraline, no genial filme homônimo de Henry Selick baseado no romance do inventivo Neil Gaiman, um verdadeiro autor de contos de fadas.
Há, é claro, sua mãe verdadeira, cuja atenção à menina infelizmente não chega aos pés da dedicação que lhe oferece a outra mãe, naquele mundo paralelo que gira ao redor dos desejos de Coraline. A mãe verdadeira, para mal dos males, se vê envolvida em pagar contas, cuidar da casa, trabalhar e realmente não é, nesse caso específico, a mais divertida e companheira das mães. Mas com ela Coraline tem a chance de brincar sem ser muito controlada e não chega a ser negligenciada nem por falta, nem por excesso. Essa mãe que nem sequer sabe cozinhar uma comida gostosa parece amar muito a filha, mas – que absurdo! – tem uma vida sua para cuidar também e Coraline está longe de ser um bebê, que necessita de atenção em tempo integral.
A escolha da menina é complicada. Ficar com uma mãe que se dedica somente a ela significa ser devorada viva, não poder crescer, não acalentar sonhos seus, segredos e nichos de desejos onde a personalidade se desdobra para depois florescer em aventuras pelo mundo. O que lhe reservará a vida lá fora? Com certeza nada tão aconchegante como o ninho materno que, no entanto, é pequeno para suportar seu crescimento e onde permanecerá imóvel. Talvez como a Carolina da canção, com seus olhos que guardam tanta dor (feitos de botões?) a olhar pela janela o grande e vasto mundo em movimento lá fora, tão distante de suas possibilidades. Ficar com a mãe verdadeira significa não ter seus desejos realizados prontamente, empenhar-se sozinha em tarefas que preferiria delegar a terceiros e ainda ter que aturar diariamente a tessitura dessa delicada teia que une mãe e filha, na qual se misturam amor e impaciência em doses por vezes quase que iguais.
Contudo a mãe imperfeita – que não é má e quando consegue equilibrar as contas da casa se lembra de lhe dar um presente, ou seja, não está assim tão desatenta aos desejos seus – tem um grande trunfo: oferecerá a Coraline um lar também imperfeito e, com ele, a aventura de estar viva nesse mundo, com seus defeitos e delícias. Um bom filme para o Dia das Mães.
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