Feche a mão em concha e coloque um pouco de leite nela. Observe que se você não apertar os dedos com força, o leite escorrerá pelos espaços entre os dedos. Há uma expressão em inglês, “slip through the cracks”, que sempre me traz essa imagem à mente. Para ser sincera, sei que traduções como “escorrer por entre as fendas”, “escapar por entre as brechas” e muitas outras que podemos encontrar no Google para essa frase são inadequadas, embora todas elas possam invocar imagens muito, muito interessantes. Na verdade, a expressão se refere comumente a um tipo de falta de atenção que pode provocar o afastamento de um indivíduo em relação a um grupo num determinado ambiente, como numa escola ou numa família.
Todas as escolas, assim como todas as famílias, apresentam rachaduras. São espaços de desatenção, aberturas outras pelas quais se pode passar além das institucionalmente desejadas e criadas, como as portas e as janelas. Ao adentrarmos pelas portas e nos debruçarmos nas janelas estamos no espaço onde somos vistos, reconhecidos, onde dialogamos com os outros em ambientes bem iluminados. O local das rachaduras, das frestas, não é assim. É mais escuro e lá reinam o esquecimento e a não nomeação das coisas, principalmente das que nos incomodam. O cantinho das frestas é onde nos escondemos quando a auto-estima está lá em baixo e não temos condições de suportar a entrada pela porta.
Em meios extremamente rígidos, onde as portas e janelas estão fechadas e a iluminação não é convidativa ao diálogo, as frestas são os lugares pelos quais as pessoas fogem, numa tentativa de salvaguardar sua individualidade do esmagamento. Sem dúvida esses não são ambientes saudáveis, se o “ser” não pode entrar pela porta da frente, respeitado em suas peculiaridades.
Nas escolas e nas famílias atuais, contudo, é um pouco mais raro encontrar tamanha rigidez que as frestas se tornem janelas pelas quais se pulem. O que é muito mais comum acontecer é a criança ou o adolescente escapulir pelas brechas da superlotação das salas de aula, pelo baixo número de cuidadores e professores, pela incompetência em se perceber emocionalmente o aluno – mesmo o que apresenta boas notas – pela falta de tempo dos pais e dos cuidadores domésticos, pelo excesso de cobranças, pela escassez da convivência.
O preço de se perder alguém pelas frestas do sistema, seja ele qual for, é a alienação física e emocional desse indivíduo que, no entanto, não está em condições de ficar sozinho, ainda que seja esse seu brado. É impossível e mesmo não desejável dar atenção a tudo e a todos ao mesmo tempo. Mas é importante perceber o afeto escorrendo por entre os dedos a tempo de reter na mão o líquido precioso que constrói, alimenta e aprofunda as relações de vida.
Neste blog estão minhas colunas publicadas aos domingos no jornal local, O Nacional, além de textos eventuais. Seja bem-vindo! Contato? malubvargas@gmail.com
quarta-feira, 14 de julho de 2010
sexta-feira, 2 de julho de 2010
A desordem da felicidade
Não se preocupe demais com a desordem em sua casa. Embora você se esforce, a sala nunca parece pronta para sair na capa da Casa Cláudia ou de outra revista de decoração? O quarto, então, nem pensar porque a bela poltrona escolhida a dedo está soterrada embaixo de roupas e leituras? Há calçados espalhados pelo chão? Não faz mal. As belas fotos que vemos nessas revistas não são de casas de verdade. Não no exato momento em que as fotos foram tiradas e havia uma equipe observando o enquadramento, a iluminação e colocando o vaso com rosas perfeitas um pouco mais para a direita. Umas quantas pessoas observando a casa, milimetricamente estudando os objetos para compor um ambiente vendido para ser o seu. Só que essas fotos não representam cenas de uma casa de verdade. Pelo menos não da minha, onde a casa é mais vivida do que estudada. E a gente sabe que quando a equipe da revista vai embora, depois de uns momentos de admiração pelo trabalho realizado – quando talvez as pessoas tentem nem parecer presentes para não tirar nada do lugar – a vida invade o ambiente e as rosas maravilhosas eventualmente vão parar no lixo e são substituídas, ou não. Às vezes o vaso fica vazio.
Claro que quando a gente reforma, se muda, compra móveis ou quadros, observa e estuda o ambiente para saber se ficará bom, se estará confortável e acolhedor para as pessoas morarem lá. Pessoas essas que vão tirar os sapatos e colocar os pés em cima do sofá, que largarão copos e canecas pelas mesas, que deixarão jornais pelas poltronas todas e empilharão livros em cima do criado mudo. Isso sem contar os brinquedos bem no meio da sala, para quem tem crianças ou mesmo certos bichos de estimação. Uma casa de verdade fervilha de vida, ainda que seja uma moradia de solteiro, e a vida é movimento. Dificilmente uma casa é estática, parecendo permanente capa de revista e, ainda assim, espelhando felicidade.
Uma das tarefas mais árduas na vida é designar novos lugares para os pertences de quem morreu. Fazemos isso por nossos falecidos, procurando escolher o que fica com quem e o que será doado, encontrando atordoadamente pedaços de nós mesmos em meio às louças, camisas, armários, tapetes. Sabemos que o mesmo será feito por nós – o mais importante: não sabemos quando – e nossos vestígios pela casa terão de ser dramaticamente reduzidos para que os vivos possam continuar a viver.
É por isso que ao final de domingo, quando vejo os rastros dos habitantes da minha casa espalhados por todos os cômodos, não me incomodo muito. Já estou na fase em que prefiro ver minha casa cheia e em desordem, do que vazia, pôster de possibilidades ainda não realizadas ou já finitas.
Claro que quando a gente reforma, se muda, compra móveis ou quadros, observa e estuda o ambiente para saber se ficará bom, se estará confortável e acolhedor para as pessoas morarem lá. Pessoas essas que vão tirar os sapatos e colocar os pés em cima do sofá, que largarão copos e canecas pelas mesas, que deixarão jornais pelas poltronas todas e empilharão livros em cima do criado mudo. Isso sem contar os brinquedos bem no meio da sala, para quem tem crianças ou mesmo certos bichos de estimação. Uma casa de verdade fervilha de vida, ainda que seja uma moradia de solteiro, e a vida é movimento. Dificilmente uma casa é estática, parecendo permanente capa de revista e, ainda assim, espelhando felicidade.
Uma das tarefas mais árduas na vida é designar novos lugares para os pertences de quem morreu. Fazemos isso por nossos falecidos, procurando escolher o que fica com quem e o que será doado, encontrando atordoadamente pedaços de nós mesmos em meio às louças, camisas, armários, tapetes. Sabemos que o mesmo será feito por nós – o mais importante: não sabemos quando – e nossos vestígios pela casa terão de ser dramaticamente reduzidos para que os vivos possam continuar a viver.
É por isso que ao final de domingo, quando vejo os rastros dos habitantes da minha casa espalhados por todos os cômodos, não me incomodo muito. Já estou na fase em que prefiro ver minha casa cheia e em desordem, do que vazia, pôster de possibilidades ainda não realizadas ou já finitas.
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